O torneio está sendo disputado sob a ameaça de temperaturas extremamente altas, enquanto a FIFA tem a petrolífera saudita Aramco como principal patrocinadora, da qual obtém centenas de milhões de dólares.
A informação é de Raúl Rejón, publicada por elDiario.es, 09-06-2026.
A Copa do Mundo começa nesta quinta-feira na América do Norte. O torneio será disputado sob um calor escaldante, perigoso para os jogadores e para os torcedores que frequentam os estádios. Este evento, organizado pela FIFA, é financiado principalmente por petrodólares, a própria fonte das mudanças climáticas que estão por trás dessas temperaturas extremas.
"Não se trata de tempo quente", afirmam fontes da Convenção da ONU sobre Mudança Climática (CMNUCC). "O calor, a umidade, a radiação solar e o vento combinados acarretam um grande estresse para os atletas e torcedores." Esse "calor extremo" vai ser "parte do campeonato: nas canchas, nas arquibancadas e nas cidades-sede", concluem.
Um dos efeitos mais diretos da mudança climática causada pelos humanos é o aumento generalizado das temperaturas. Mais calor intenso no planeta. Nos EUA, México e Canadá, em junho e julho, 14 das 16 sedes do Mundial de futebol já superam valores de temperatura de globo e bulbo úmido (WBGT, na sigla em inglês) de 28 °C durante as tardes.
E se espera que 26 partidas ocorram em condições de WBGT de, pelo menos, 26 ºC. De fato, mais da metade sofrerá níveis de calor prejudiciais, segundo os relatórios dos cientistas do World Weather Attribution e do Climate Central.
Não se trata de "um dia de calor", sublinham na convenção climática da ONU. Um WBGT de 26 ºC é "muito mais quente do que pode parecer se for entendido apenas como temperatura do ar". A Associação Americana de Meteorologia informa que uma temperatura de 40 ºC combinada com uma umidade de 30% resulta em um WBGT de 26 ºC.

"O aumento na probabilidade de níveis extremos pode ser atribuído com confiança à mudança climática de origem humana", concluiu o World Weather Attribution.
Uma mudança climática consequência das emissões de gases de efeito estufa, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis: carvão, gás e petróleo. E são, precisamente, os petrodólares da Arábia Saudita uma das principais fontes de dinheiro da organização responsável pelo Mundial de futebol, a FIFA.
"Está investindo as receitas do petróleo e do gás na FIFA de diversas maneiras", descreve uma recente análise da relação entre o organismo futebolístico e o petro-Estado realizada pela organização FairSquare.
"Os acordos entre a Aramco e a FIFA são o exemplo mais perigoso de publicidade fóssil", argumenta o diretor da FairSquare, Nick McGeehan. Em conversa com o elDiario.es, McGeehan descreve que "as intenções da Arábia Saudita são promover os combustíveis fósseis num momento em que a transição energética é urgente. A Aramco tem as reservas e um enorme poder político para atrasar essa transição e acelerar o aquecimento global".
A questão é que, desde 2023, a Arábia Saudita destinou grandes somas de dinheiro ao futebol, direta e indiretamente. Assim, em abril de 2024, a petroleira estatal saudita, Aramco, tornou-se um dos principais patrocinadores da FIFA: 100 milhões de dólares anuais até, pelo menos, 2027.
Em maio de 2026, a organização do futebol mundial anunciou que o Fundo Soberano Saudita — que possui 8% da Aramco e cujos investimentos provêm das receitas geradas pela petroleira — seria também patrocinador do Mundial 2026, embora sem especificar com quanto dinheiro.
Além disso, em novembro de 2025, o Fundo Saudita para o Desenvolvimento e a FIFA assinaram um memorando de entendimento para "facilitar mil milhões de dólares em empréstimos para a construção e reabilitação de estádios esportivos".
Enquanto a Arábia Saudita se tornava sócia principal do futebol, exercia também o papel de bloqueio nas últimas cúpulas do clima. Sportswashing, por um lado, e obstáculo ambiental por outro.
Os sauditas, ao cortejarem a FIFA até conseguir a organização da Copa do Mundo de 2034, consumaram — como o denomina o especialista em política esportiva Jules Boykoff — uma "pura lavagem esportiva sem disfarce para aumentar o prestígio nacional e o avanço econômico e político".
Ao mesmo tempo, o país fez tudo o possível para dificultar o consenso sobre como abandonar o petróleo, o gás e o carvão, como indica a ciência que deve ser feito para combater a crise do clima. Seu ministro de Energia, Abdelaziz bin Salman, exclamou "absolutamente não" à ideia de um "abandono ordenado e justo dos combustíveis fósseis" na COP de 2023.
E na cúpula do Brasil em novembro passado, os sauditas revelaram-se parte integrante de uma espécie de eixo do mal climático junto com EUA e Rússia para impedir a menção ao petróleo ou ao gás. Os EUA não tinham em Belém do Pará representantes de alto nível, mas a Arábia Saudita sim. E exerceu o papel de porta-voz desse eixo.
O relatório da FairSquare analisa que "a Arábia Saudita está utilizando a FIFA para extrair até o último barril de suas vastas reservas de petróleo e gás. E isso seria desastroso para o planeta".
A Aramco e a Arábia Saudita — o Estado que controla a empresa — "querem usar a FIFA para inflamar a demanda por seu petróleo e seu gás num momento em que as energias renováveis ameaçam o domínio dos combustíveis fósseis".
Nick McGeehan explica que "a publicidade é eficaz na hora de promover esses produtos e a publicidade no esporte se mostrou particularmente eficaz". Segundo o ativista, "os torcedores preocupados com a mudança climática podem até não saber a que se dedica a Aramco, então é imperativo que esse patrocínio termine e que haja um debate sério sobre expulsar os grandes poluidores do esporte".
O think tank New Weather Institute realizou uma revisão deste Mundial do ponto de vista climático e chegou à conclusão de que "o acordo de patrocínio entre a FIFA e a Aramco para a Copa do Mundo de Futebol de 2026 induzirá a uma injeção extra de cerca de 30 milhões de toneladas de CO₂ devido ao aumento das vendas de combustível fóssil da empresa": o Mundial "será o mais poluente da história".
Ao mesmo tempo, a petroleira saudita obteve com esse negócio fóssil, segundo seu relatório anual, um lucro líquido em 2025 de 93.000 milhões de dólares, dos quais distribuiu 85.000 entre seus acionistas.