08 Junho 2026
"Leão escreveu em sua encíclica algo tão estranho quanto dizer que a verdade não é um território a ser defendido, mas um bem a ser compartilhado. Ligue a televisão ou o rádio e conte quantas pessoas propõem algo semelhante", escreve Diego S. Garrocho, professor de Filosofia Moral na Universidade Autônoma de Madri (UAM), onde coordena o Mestrado em Crítica e Argumentação Filosófica. É autor de 'Moderaditos: Uma Defesa da Coragem Política' (2025), 'O Último Verão' (2023), 'Sobre a Nostalgia' (2019) e 'Aristóteles: Uma Ética das Paixões' (2015).
O artigo é de Diego S. Garrocho, publicado por El País, 08-06-2026
Eis o artigo.
O mal não prevalecerá. Esta foi uma das declarações mais enfáticas de Leão XIV em seu primeiro discurso da sacada da Basílica de São Pedro, logo após ser eleito Papa. Essa intuição, por mais clássica que seja, ressoa ainda mais forte em nossos dias.
Primeiramente, porque, longe de qualquer interpretação ingênua, ela abarca a dolorosa e irrefutável verdade de que o mal existe. Às vezes, ele até reina. Mas, sobretudo, porque acende a única paixão com a qual os seres humanos são capazes de enfrentar o sofrimento presente: a esperança.
Quem ouve as palavras de Prevost, crente ou não, descobre que o Papa é um homem que fala de uma maneira incomum para os nossos tempos. Sua gramática moral e as emoções que evoca pouco se assemelham à maneira como se expressam as elites políticas, midiáticas e intelectuais. E essa singularidade provém da intimidade de uma vida dedicada à caridade do trabalho missionário e ao cultivo espiritual do silêncio. Ninguém sai indiferente da leitura das melhores passagens de Santo Agostinho ou Santa Teresa. Contudo, numa análise mais atenta, o impacto dos anos que passou com os mais pobres da província de Chiclayo, no Peru, deve ser ainda mais profundo.
Num mundo exausto pela desorientação, divisão e violência, resgatar a esperança parece bastante inoportuno. A liberdade de pensamento, por vezes, exerce-se ao pensarmos contra a corrente do nosso tempo. E este Papa parece empenhado em desafiar a desconfiança com que, sobretudo os jovens, parecem estar condenados a encarar o futuro. Um medo que, aliás, tem sido conscientemente cultivado.
Quase tudo o que a sociedade exige das novas gerações é o seu voto, a sua atenção, a sua resignação ou um ativismo identitário que as leve a desprezar aqueles que pensam diferente ou vêm de longe. Leão escreveu em sua encíclica algo tão estranho quanto dizer que a verdade não é um território a ser defendido, mas um bem a ser compartilhado. Ligue a televisão ou o rádio e conte quantas pessoas propõem algo semelhante.
Em uma sociedade mergulhada na incerteza, Leão XIV escolheu resgatar a esperança. Talvez seja por isso que suas palavras ressoam muito além das fileiras dos crentes. Pois, onde outros oferecem medo, ódio ou ressentimento, ele relembra uma verdade fundamental: que nenhuma era ou geração está condenada para sempre se houver homens e mulheres corajosos. E que o mal, por mais poderoso que pareça, jamais deve ter a última palavra.
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