03 Junho 2026
"É interessante a evocação do manual de introdução à logoterapia de Viktor Frankl, O homem em busca de sentido (1963). Frankl estava profundamente convencido de que “o Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é igualmente o ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Pai Nosso ou o Shema Yisrael nos lábios” (n. 121). Certamente não surpreende que a voz ainda relevante de La Pira seja ecoada: “o método da guerra terá de ser substituído pelo método da paz: o método das negociações, do encontro, da convergência; ou seja, o método autenticamente humano!” (n. 221)", escreve o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 31-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A encíclica de Leão. O Papa enriquece e fundamenta seu texto recorrendo a diversos autores: pontífices anteriores, Padres da Igreja, grandes teólogos, Agostinho, mas também Tolkien, Hannah Arendt, "Guernica" e a "Nona Sinfonia" de Beethoven.
Como ocorre em eventos eclesiásticos semelhantes, o aparecimento de uma encíclica papal suscita — mesmo antes de sua publicação — antecipações temáticas às quais segue-se uma enxurrada de comentários de vaticanistas, teólogos e personalidades variadas, muitas vezes resultado de reações improvisadas, enquanto se aguardam análises textuais em periódicos especializados, especialmente de teologia. Não desejamos seguir esse fluxo, ainda que interessante, por ocasião do lançamento da encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV, datada de 15 de maio de 2026, no 135º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII, publicada em 15 de maio de 1891. Tampouco pretendemos propor o enredo desse extenso texto (245 parágrafos) ou uma análise de seu tema e contexto fundamentais, de modo incisivo explicitados no subtítulo: "Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial". Muitos se concentraram no terceiro capítulo, marcado pelo binômio "técnica e domínio", que examina "a grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA". Se nos capítulos anteriores estava em cena a doutrina social da Igreja, inaugurada precisamente pela Rerum Novarum, nos capítulos subsequentes abre-se um vasto horizonte povoado por fenômenos capitais como "a transformação da verdade, do trabalho e da liberdade", enquanto se entrelaça a dialética entre "a cultura do poder e a civilização do amor".
A atenção de muitos foi atraída por um parágrafo no quinto capítulo dessa última seção, pois apresentava um verbo e um adjetivo caros ao Papa Leão: "desarmar as palavras", contribuindo assim para uma "Terra desarmada". Nós, porém, contentar-nos-emos em ficar mais na superfície, por meio de uma espécie de variação livre, buscando as sutilezas das citações ou das evocações que sustentam o programa temático do texto. A referência ao magistério dos pontífices anteriores, com uma primazia para o Papa Francisco, é esperada e de certa forma generalizada. O mesmo se aplica à citação de múltiplos documentos. a começar por aqueles dos dicastérios da Cúria Romana. Surpreendente e curiosa é, contudo, a inclusão das antigas Bulas papais quatrocentistas de Eugênio IV e Nicolau V, destinadas a serem superadas por legitimarem a escravização dos “infiéis”: nesses casos, “as exigências políticas e, por vezes, também as econômicas, prevaleceram sobre as exigências evangélicas”, também por meio da “ingerência dos poderes temporais” (n. 176).
Igualmente esperada é a presença dos documentos conciliares e da voz dos Padres da Igreja e de grandes teólogos como Tomás de Aquino. Obviamente, o amado Santo Agostinho está em destaque, sempre incisivo como neste lema: “Queres, portanto, alcançar a paz? Pratica a justiça!” (n. 215). Nosso olhar se volta, nesse ponto, para figuras socioculturais. Sugestivo é o adjetivo latino magnifica, atribuído à humanidade. Na Antiguidade Clássica, era atribuído aos imperadores como Augusto; mais tarde, tornou-se monopólio de príncipes renascentistas como Lorenzo de' Medici; ainda hoje, o termo é, de certa forma retoricamente, reservado aos "magníficos reitores" das universidades. Para o Papa Prevost, porém, "magnífica" por excelência é a criatura humana em sua totalidade. Nesse sentido, citam-se instituições internacionais como a ONU, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (nº 54 e 123), o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, assinado em 2021 por mais de 70 países (nº 194), o trabalho meritório da Cruz Vermelha (nº 123) e assim por diante.
Outras figuras entram em cena, não apenas eclesiásticas, como Romano Guardini, que adverte: "o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu poder" (nº 93). Ou um celebrado autor de espiritualidades como o Cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629), conselheiro do Rei da França, evocado em um discurso sobre a Encarnação (nº 232). Aqui, porém, desfilam também “algumas obras assumiram um valor quase profético: a Nona Sinfonia de Beethoven, enquanto desejo de unidade; o quadro Guernica, enquanto denúncia da desumanização; o filme A Lista de Schindler, enquanto convite a não deixar cair o passado no esquecimento” (n. 122).
Nessa linha, é interessante a evocação do manual de introdução à logoterapia de Viktor Frankl, O homem em busca de sentido (1963). Frankl estava profundamente convencido de que “o Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é igualmente o ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Pai Nosso ou o Shema Yisrael nos lábios” (n. 121). Certamente não surpreende que a voz ainda relevante de La Pira seja ecoada: “o método da guerra terá de ser substituído pelo método da paz: o método das negociações, do encontro, da convergência; ou seja, o método autenticamente humano!” (n. 221).
Sugestiva e um tanto inesperada é Hannah Arendt que, em seu conhecido ensaio sobre As Origens do Totalitarismo (1962), isolava suas raízes e apoio em “pessoas para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência), nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento)” (n. 134). O único representante da literatura é Tolkien que, na terceira parte de O Senhor dos Anéis (1965), colocava este conselho na boca do protagonista: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para cultivar” (n. 213).
Concluímos com a síntese papal da Carta VII de Platão, que indica um método epistemológico geral: “as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em discutir com os outros para ’friccionar’, como numa pederneira, os conceitos e as experiências, até saltar em nós a centelha da compreensão” (n. 140).
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