28 Mai 2026
A encíclica do Papa sobre IA, 'Magnifica Humanitas', cita Tolkien e contradiz diretamente os postulados da Palantir, uma empresa que leva o nome do universo criado pelo escritor.
A reportagem é de Jorge Morla, publicada por El País, 27-05-2026.
O Papa Leão XIV publicou na terça-feira sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, com foco nos desafios éticos e sociais da inteligência artificial (IA). O documento, de grande interesse, levanta ideias como: a IA deve estar a serviço da dignidade humana e não concentrar poder nas mãos de governos ou gigantes da tecnologia; o avanço tecnológico não pode justificar a destruição de empregos ou a substituição de relações humanas; e o desenvolvimento de sistemas autônomos aplicados à guerra representa um risco inaceitável. As reações, tanto a favor quanto contra, foram imediatas, e entre os comentários mais proeminentes nas redes sociais e em artigos estava o nome de um dos escritores mais famosos do século XX: J.R.R. Tolkien, citado pelo Papa em sua encíclica.
De todas as empresas relacionadas à IA, aquela que representa mais profundamente o oposto do que o Papa defende em sua encíclica é a Palantir, cujo nome deriva das Pedras Videntes da obra-prima de Tolkien, O Senhor dos Anéis. Dedicada à vigilância em massa e à coleta indiscriminada de dados, seu nome não poderia ser mais apropriado para uma das empresas mais poderosas e opacas de todo o ecossistema digital. A figura mais visível da empresa, Peter Thiel, não é estranho à religião: além de ser o patrono declarado do vice-presidente dos EUA, JD Vance (que se converteu ao catolicismo em 2019), Thiel esteve recentemente em Roma, perto do Vaticano, proferindo uma série de palestras sobre a vinda do Anticristo.
A relação entre a Santa Sé e Thiel é abertamente hostil: Paolo Benanti, conselheiro do Vaticano para inteligência artificial, escreveu em março no jornal Le Grand Continent que a carreira de Thiel representa "um desafio aos próprios fundamentos da convivência civil". Ele sabe do que está falando: há algumas semanas, a Palantir ganhou destaque internacional com o lançamento de um manifesto que divide as civilizações em vitais e disfuncionais, ataca o "pluralismo vazio", defende que o Vale do Silício lidere os EUA e fala em se preparar para competir com a China em termos quase bélicos. O manifesto (e o livro em que se baseia, A República Tecnológica, publicado no ano passado pelo CEO da Palantir, Alex Karp) é a antítese perfeita de tudo o que Leão XIV defende na Magnifica Humanitas: um Vale do Silício que governa o mundo com mão de ferro, a partir de uma posição de superioridade intelectual e militar.
Terreno para cultivo
O fato é que, dentro da encíclica papal, um parágrafo causou bastante alvoroço na internet por citar uma fonte raramente usada nesse tipo de texto: “Um escritor católico do século XX, John Ronald Reuel Tolkien, por meio de um dos protagonistas de um de seus romances, descreveu nossa responsabilidade da seguinte forma: 'Não nos cabe controlar todas as marés do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para o bem dos dias em que vivemos, erradicando o mal dos campos que conhecemos e deixando para aqueles que virão depois de nós uma terra limpa para cultivar'”, escreve o pontífice.
O parágrafo em questão, que pertence, naturalmente, a O Senhor dos Anéis, aparece no meio da Parte Três, O Retorno do Rei, no Capítulo 9, A Última Deliberação. O texto é proferido pelo mago Gandalf durante o conselho de guerra final: após salvarem a cidade de Minas Tirith do cerco das forças do mal, os heróis decidem iniciar uma marcha suicida até o Portão Negro de Mordor para distrair os vilões enquanto os hobbits Frodo e Sam tentam se infiltrar em território inimigo para jogar o anel Único, que é fundamental para toda a trama, no vulcão.
Comparando o livro, um detalhe se destaca poderosamente. Na mesma página — na verdade, apenas alguns parágrafos antes — Gandalf faz a única referência aos Palantíri em todo o capítulo : “As Pedras Videntes [os Palantíri] não enganam: nem mesmo o Senhor de Baraddür poderia obrigá-las a fazê-lo. Ele poderia, talvez, decidir o que as mentes mais fracas veriam, ou fazê-las interpretar erroneamente o significado do que veem.”
Vale a pena repetir: “Poderia decidir o que as mentes mais fracas veem, ou levá-las a interpretar mal o significado do que veem.” No contexto atual do fluxo de informações controlado por IA, essa frase assume um significado diferente e reflete com precisão os grandes males que a humanidade enfrenta se a IA se descontrolar nas mãos de poucos. Não se pode afirmar com certeza que o Papa escolheu essa frase por sua semelhança com a outra, mas ela é, sem dúvida, intrigante. O capítulo, aliás, termina com os heróis marchando rumo a uma morte quase certa: “É o último golpe de um jogo perigoso, e de certa forma será o fim do jogo”, conclui Aragorn, que concorda em liderar o ataque suicida contra Mordor, antes de desembainhar sua espada: “Não a embainharei novamente até que a última batalha seja travada.” Essa é a situação que todos enfrentamos neste mundo repleto de IA. Inclusive o Papa Leão XIV, que parece já ter sacado sua pena.
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