26 Mai 2026
O Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca de Jerusalém, presidirá a Vigília de Pentecostes amanhã à tarde, uma oração pela paz na igreja do convento salesiano em Ratisbonne. A situação melhorou um pouco desde que ele não pôde celebrar o Domingo de Ramos: “Com o cessar-fogo, o Santo Sepulcro está aberto e não há restrições, embora o clima geral permaneça tenso em certas partes da cidade.”
A entrevista é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 22-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Eminência, o senhor ficou surpreso com o vídeo de Ben-Gvir entre os ativistas da Flotilha?
As imagens da Flotilha não surpreendem totalmente quem conhece bem a região, mas são sempre chocantes, porque revelam algo que vai além do episódio isolado. Não são simplesmente cenas de tensão: revelam um clima, uma maneira de ver os outros que foi se deteriorando progressivamente. Esse talvez seja o aspecto mais preocupante: não tanto o evento em si, mas o que o torna possível.
O senhor falou de uma “cultura do desprezo”. O que é?
Quando falamos de ‘cultura do desprezo’, não nos referimos apenas a expressões extremas ou gestos clamorosos. O desprezo é uma atitude generalizada, muitas vezes silenciosa, que se infiltra na linguagem cotidiana, nas simplificações, na redução dos outros a caricaturas ou estereótipos. Aparece quando deixamos de ver os outros como pessoas concretas, com um rosto e uma história, e os transformamos em símbolos, em inimigos indistintos. É uma forma de empobrecimento humano e espiritual, antes mesmo que político.
Os extremistas sempre existiram, mas talvez nunca tiveram tanta influência. O que os favoreceu?
Os extremismos encontram terreno fértil justamente nesse contexto. Eles não são uma novidade na história, mas hoje parecem ter maior força e visibilidade. Isso acontece porque interceptam medos reais, profundos, muitas vezes justificados por experiências de violência, de insegurança, de perda. O medo, quando não encontra palavras adequadas nem espaço para se expressar, tende a se enrijecer e a buscar respostas simples, definitivas e imediatas. O extremismo oferece justamente isso: clarezas aparentes, identidades fortes, inimigos bem definidos. Mas também há outro elemento, menos evidente e talvez mais radical: o desgaste.
A sociedade civil israelense tem os anticorpos para reagir?
Após anos de conflito, de tensões não resolvidas e de expectativas frustradas, as sociedades correm o risco de perder a capacidade de imaginar um futuro diferente. E quando a esperança se esvai, cresce a tentação de se isolar, de se defender, até mesmo de se endurecer. Nesse sentido, o desprezo muitas vezes é a face externa de uma profunda decepção. Isso dá origem à sensação de que certas derivas possam se tornar destrutivas também internamente. Toda sociedade vive da confiança que as pessoas depositam umas nas outras e do reconhecimento mútuo. Quando esse tecido social se rompe, não é apenas a convivência que fica ameaçada, mas a própria identidade da comunidade. O risco, então, não vem apenas de inimigos declarados, mas da erosão progressiva dos laços internos. No entanto, seria injusto e impreciso parar nessa leitura.
Há mais?
Existem energias diferentes, embora muitas vezes não chegam às manchetes. Há pessoas, grupos, realidades educacionais, religiosas e civis que continuam acreditando na possibilidade de encontro, que trabalham diariamente para manter abertos espaços de diálogo. São discretas, por vezes frágeis, mas presenças reais. E representam um patrimônio importante, uma barreira silenciosa contra a deriva do desprezo.
De fora, não se veem grandes relações, na verdade, exceto poucas elites como intelectuais e escritores...
Sim, de fora, tudo isso é quase imperceptível. Prevalecem as imagens da oposição, enquanto as relações parecem limitadas a círculos restritos. Isso alimenta a percepção de isolamento, quase de cerco, o que, por sua vez, reforça as dinâmicas de fechamento. É um círculo difícil de quebrar, porque cada parte tende a confirmar os medos da outra.
Existem possíveis soluções?
Não existem soluções imediatas. Mas um caminho possível é retornar a uma perspectiva mais realista e mais humana da realidade, sem negar sua complexidade e suas feridas, mas também sem ceder à lógica da oposição permanente. Concretamente, significa reconstruir lentamente relações, preservar o valor da palavra, aprender a reconhecer no outro não apenas uma ameaça, mas uma presença a ser considerada.
Quanto tempo levará?
É um trabalho longo, que não produz resultados imediatos e raramente chama a atenção. No entanto, talvez seja o único capaz de realmente causar impacto. Porque a cultura do desprezo não pode ser combatida apenas com decisões políticas ou medidas de segurança, mas com uma transformação mais profunda da nossa perspectiva e da nossa maneira de habitar a realidade. Em uma terra como esta, marcada por uma densidade única de história, de fé e de conflitos, essa tarefa é ao mesmo tempo mais difícil e mais necessária. Não se trata de ingenuidade, mas de responsabilidade: escolher, a cada dia, não deixar que o desprezo tenha a última palavra.
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