Fim das matas nativas no Brasil? O projeto que avança na Câmara e preocupa cientistas

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23 Mai 2026

A Câmara aprovou na terça-feira (19) o envio do PL 364/2019 ao Senado, depois de rejeitar um recurso que defendia a apreciação da proposta pelo Plenário. O projeto modifica o Código Florestal ao estender as regras de regularização ambiental para todos os biomas, inclusive em áreas submetidas a normas específicas, como a Lei da Mata Atlântica. Na prática, o texto empurrado pela bancada ruralista autoriza que formações vegetais não florestais sejam classificadas como áreas rurais consolidadas sem que tenha ocorrido conversão da vegetação nativa.

A reportagem é de Alice Andersen, publicada por Revista Fórum, 21-05-2026.

Entidades da sociedade civil alertam que a proposta pode comprometer a proteção de cerca de 48 milhões de hectares de campos nativos em território brasileiro. Segundo essas organizações, a medida afetaria aproximadamente metade do Pantanal, 32% do Pampa, 7% do Cerrado e quase 15 milhões de hectares da Amazônia. Em nota técnica, a SOS Mata Atlântica argumenta que já existia um entendimento construído entre ambientalistas e produtores rurais para reconhecer os chamados “campos antrópicos” nos campos de altitude do Sul, sem abrir margem para a conversão ampla de campos nativos nos diferentes biomas do país.

Apresentado em 2019 pelo deputado Alceu Moreira (MDB-RS), o projeto tinha como alvo os campos de altitude vinculados à Mata Atlântica, na região Sul. No entanto, durante a tramitação na Comissão de Constituição e Justiça, o texto foi atualizado pelo relator Lucas Redecker (PSD-RS) e passou a abranger formações campestres de diferentes biomas, incluindo Pantanal, Cerrado, Pampa e áreas da Amazônia.

Durante entrevista coletiva realizada na quarta (20), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, avaliou como “muito grave” o avanço do conjunto de projetos ambientais em discussão no Congresso e afirmou enxergar uma ofensiva articulada contra mecanismos essenciais da política ambiental brasileira. Ao comentar o PL, declarou que o texto “restringe a proteção da vegetação nativa apenas às florestas” e pode fragilizar a proteção de biomas como Cerrado, Pantanal, Caatinga, Pampa e campos de altitude da Mata Atlântica.

O ministro também vinculou o PL 364/2019 a outras propostas legislativas em tramitação que, segundo ele, buscam limitar o uso de imagens de satélite em embargos ambientais, interferir nas atribuições do Ministério do Meio Ambiente e dificultar a utilização de bases públicas para restringir crédito rural a propriedades irregulares.

Representantes do setor ruralista defendem o projeto alegando que os campos de altitude possuem histórico de uso em atividades agrossilvopastoris. Autor da proposta, o deputado Alceu afirmou durante os debates que as críticas ao texto seriam “crendice ideológica” e negou que a medida autorize corte de árvores.

Em sentido contrário, parlamentares da oposição ao projeto, entre eles Nilto Tatto, afirmam que a proposta original foi “completamente deturpada” ao longo da tramitação e passou a ampliar os riscos de desmatamento em áreas não florestais.

Organizações fazem alerta

Uma nota técnica divulgada pelo Observatório do Código Florestal junto ao Observatório do Clima, que representa mais de cem entidades ambientais no Brasil, reitera o alerta sobre os impactos do PL. Segundo a entidade, o substitutivo “retira toda a proteção legal aos campos nativos de todos os biomas do país, permitindo que eles possam ser livremente convertidos para uso alternativo do solo (agricultura, pastagens plantadas, mineração, urbanização etc.) sem qualquer tipo de limitação ou autorização administrativa”.

A nota aponta que bastaria ao proprietário alegar uso pretérito da área para pastoreio para enquadrá-la como consolidada.

Outro ponto considerado crítico é o impacto sobre Povos e Comunidades Tradicionais. O documento afirma que a classificação de áreas nativas como “rurais consolidadas” pode abrir espaço para avanço da agropecuária sobre territórios tradicionalmente utilizados para pastoreio extensivo e extrativismo de baixo impacto.

“Abre-se o caminho para que grandes proprietários registrem essas áreas de uso tradicional em seus imóveis através do CAR, expulsando Povos e Comunidades Tradicionais e destruindo fisionomias ecológicas essenciais em diversos biomas”, alertam os cientistas.

A entidade também afirma que a ampliação do conceito de “interesse social” para qualquer atividade agrossilvipastoril pode beneficiar grandes proprietários rurais e intensificar conflitos fundiários e socioambientais em áreas já pressionadas pelo avanço da fronteira agrícola.

Leia a nota completa por aqui.

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