23 Mai 2026
Vamos reler A Peste, de Camus, sob essa perspectiva. O que está em jogo não é, como Sartre injustamente acreditava em sua leitura, uma "moral abnegada", mas uma ética da misericórdia que envolve o reconhecimento daquele que cai como nosso irmão e nossa irmã.
O artigo é de Massimo Recalcati, psicanalista, publicado por La Repubblica, 21-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Segundo ele, "se tudo é um "sopro", se a vida é uma breve corrida sob o sol, não deveríamos acreditar menos na guerra? Se realmente reconhecêssemos nosso destino mortal comum, poderíamos realmente ser irmãos e irmãs".
Eis o artigo.
Nenhum outro tempo como o nosso, após a imensa tragédia da Segunda Guerra Mundial, questionou o tema da salvação com tamanha angústia. Sairemos vivos dessa situação? E como? São perguntas recorrentes que fazemos continuamente, esquecendo, porém, que nenhum de nós poderá sair realmente vivo disso. Os seres humanos estão, de fato, destinados a terminar no pó de onde vieram. É uma verdade inapelável, expressa também no texto bíblico do Eclesiastes.
Embora soluções possíveis até poderiam ser encontradas para os conflitos mais duros e irracionais, para a precariedade e as dificuldades sociais, para a crise econômica, resta o fato imutável de que ninguém sairá vivo daqui: o pó que nós somos retornará irreversivelmente ao pó. A questão é que essa verdade é constantemente removida pelos seres humanos.
Mais ainda, poderíamos até dizer que o homem não é apenas um animal mortal — consciente, como tal, diferentemente dos outros animais, da inevitabilidade de seu fim — mas que é um animal mortal constantemente empenhado na remoção individual e coletiva da realidade da morte. Somente a doença e o sofrimento o lembram dessa realidade da qual gostaria de escapar ou simplesmente esquecer. Caso contrário, os seres humanos dedicam seu tempo a ocultar esse trauma. Fazem isso inventando filosofias ou religiões como se fossem remédios, tentando se distrair de todas as maneiras, em diversões de todos os tipos, no culto higienista do próprio corpo sempre em forma, em refazê-lo por meio de cirurgias estéticas para remover os sinais de sua deterioração, nas mais diversas paixões que parecem adiar o fim, mesmo que momentaneamente, imaginando as vozes no além, sacrificando-se sem reservas ao trabalho ou aos ideais. Mas a maneira mais inverossímil e, ao mesmo tempo, dramaticamente mais humana de desviar o pensamento da morte é matar-se uns aos outros. Isso pode acontecer por muitas razões. Por puro prestígio, por dinheiro, pela sede de poder. A história dos homens é a história de suas contínuas guerras.
Não somos nada além de um "bando de assassinos", declarou Freud, desesperançoso diante da tragédia da Primeira Guerra Mundial. Nenhum evento revela, tanto quanto a guerra, a mais profunda insensatez do ser humano. A guerra transfere para o inimigo a angústia coletiva diante do nosso fim? Poderia tratar-se, como teorizava Franco Fornari, da rejection paranoica do luto. Em vez de encararmos a inevitabilidade da nossa própria morte, infligimos a morte a outrem. E se, em vez disso, tentássemos mudar nossa maneira de ver as coisas? Se tentássemos enxergar na natureza inescapável da morte o que nos une como seres humanos, não poderíamos encontrar nesse mesmo trauma o fundamento mais sincero de uma possível irmandade? Não seria esse o ensinamento mais verdadeiro de Jó?
Vamos relembrar sua história. Ele é o homem justo que o Deus bíblico quer pôr à prova, tirando-lhe tudo. Sua fé resistirá ou desaparecerá, dando lugar ao ressentimento e à vingança? É demasiado fácil acreditar que a retidão é sempre recompensada pela fortuna. Vamos tentar, em vez disso, dar uma sacudida nas coisas, pensa seu Deus, instigado pelo demônio. Vamos tentar ver como o homem justo reage diante da perda, da doença e do fracasso. Vamos tentar ver o que acontece se toda forma de justiça retributiva for abalada desde seus alicerces. Pode a fé perdurar diante da injustiça e da insensatez da dor?
Mas, se realmente levássemos a sério a lição de Jó, não nos perderíamos na luta fratricida de um contra o outro. Se nos lembrássemos, junto com ele, do pó que carregamos em nossa carne, não inflaríamos nossos peitos de soberba e insulto, de agressão e acusação constante dirigida ao outro. Se nos lembrássemos de Jó, poderíamos, quem sabe, realmente encontrar um caminho para a salvação. Não aquele que remove a morte, mas, ao contrário, aquele que o reconhecimento de nossa própria morte poderia tornar possível.
Vamos reler A Peste, de Camus, sob essa perspectiva. O que está em jogo não é, como Sartre injustamente acreditava em sua leitura, uma "moral abnegada", mas uma ética da misericórdia que envolve o reconhecimento daquele que cai como nosso irmão e nossa irmã. O desprezo aristocrático por essa ética ignora o fato de que nosso destino mortal nos torna a todos necessitados de cuidado, que sem a presença do outro, já seríamos pó mesmo antes de morrer. Quem declara isso mais uma vez é o Eclesiastes: "Ai daquele que cai e está sozinho!" Se tudo é um "sopro", se a vida é uma breve corrida sob o sol, não deveríamos acreditar menos na guerra? Se realmente reconhecêssemos nosso destino mortal comum, poderíamos realmente ser irmãos e irmãs. Enquanto a pulsão de morte que domina o impulso para a guerra conduz para a destruição de qualquer laço em nome do Um contra o Outro, lembrar-se de nosso próprio pó deveria nos mostrar o quanto nossa vida depende da existência desses laços, como o tempo sempre breve que nos resta para viver mereceria ser dedicado a algo maior do que o impulso para destruir. Diante da tragédia da peste, os homens descritos por Camus reconhecem-se como irmãos e irmãs diante do absurdo do mal que os atinge. Somente não nos esquecermos do nosso próprio pó poderia nos salvar: se não da morte, ao menos do horror da guerra de todos contra todos.
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