Nem no evangelho de Mateus nem no de Lucas se fala em ‘ofensas’ no enunciado da oração do Pai Nosso; também não se fala em ‘tentação’ e o sentido original para o verbo que foi traduzido como ‘perdoar’ (as ofensas) deveria ser antes o de ‘libertar’ ou ‘deixar ir embora ileso’. E na tradução das “Bem-aventuranças”, a palavra ‘pobre’ significa literalmente, no original, ‘mendigo’ ou ‘pedinte’.
A reportagem é de António Marujo e Frederico Lourenço, publicada por 7Margens, 15-05-2026.
Frederico Lourenço, professor universitário que até final do ano deverá concluir a tradução da Bíblia a partir da versão dos Septuaginta, enuncia vários problemas quando se traduz o texto sagrado de judeus e cristãos. Na noite da última quarta-feira, numa intervenção na Capela de São Miguel, da Universidade de Coimbra, propôs mesmo uma versão diferente do Pai Nosso, numa intervenção da qual reproduzimos dois excertos, no final deste texto.
Trata-se uma “paráfrase livre”, não para ser rezada, mas “apenas para se refletir sobre ela”, explica ao 7MARGENS. Com duas frases entre parêntesis rectos que se destinam apenas a serem subentendidas, a proposta de tradução é a seguinte:
Pai nosso, que estás nos céus; seja santificado o Teu nome. Venha o Teu reino. Seja feita a Tua vontade: tal como no céu, também assim na terra. Dá-nos hoje o nosso pão de amanhã; e perdoa as nossas dívidas, tal como nos já perdoámos aos nossos devedores. E não nos leves [como fizeste aos israelitas no Antigo Testamento] para a provação de termos de escolher entre Ti e aquilo que se Te opõe, mas livra-nos do mal [que consiste no proveito próprio em detrimento do Bem que és Tu, Pai nosso].
Palavras que não existem nos originais, traduções errôneas. Ao longo dos séculos, houve traduções e versões do texto bíblico que se foram sedimentando, mas acabaram por adulterar o sentido primeiro das palavras – gregas ou hebraicas.
“A referência a Deus como Pai leva-nos naturalmente à secção mais famosa e significativa do Discurso na Montanha: a oração Pai Nosso”, referiu o igualmente tradutor dos clássicos gregos como a Ilíada e a Odisseia, de Homero. “As palavras que compõem esta oração fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, todos os dias, no mundo inteiro. São palavras que todos pensamos conhecer, embora se tornem curiosamente enigmáticas quando tentamos percebê-las em grego e quando comparamos a formulação da oração Pai Nosso que ocorre em Lucas com a formulação que ocorre em Mateus”, acrescentou o classicista.
Frederico Lourenço dá vários exemplos: “Se rezássemos o Pai Nosso de acordo com o texto de Lucas, estaríamos a pedir a Deus que perdoe os nossos ‘pecados’; se o rezássemos segundo o texto de Mateus, pediríamos para Deus perdoar as nossas ‘dívidas’.”
Dívidas? “Terá esta oração a ver com dinheiro? Mas o que pedimos em português é que Deus perdoe as nossas ‘ofensas’, palavra que não está nem em Mateus nem em Lucas”, explicou Frederico Lourenço.
Também o verbo para ‘perdoar’ não é fácil: em grego, significa ‘libertar’, ‘deixar ir embora ileso’. “O que está verdadeiramente em causa no Pai Nosso é ‘deixar para lá’ pecados ou dívidas (dependendo do Evangelho que estamos a ler).”
Quando se fala de tentação, falar-se-á da “comida, do sexo, do vinho?” – perguntava o professor universitário, recordando uma personagem de um romance de Evelyn Waugh “que diz ‘eu acredito que Deus prefere bêbedos a muita gente respeitável’”. Mas “nem Mateus nem Lucas falam em tentação”, antes em ‘provação’.
Comparando com uma frase do livro de Juízes (3, 7), em que se encontra a mesma palavra que a do Pai Nosso, a ‘prova’ é não fazer “o que é iníquo”. Iníquo, no Antigo Testamento, acrescentou Frederico Lourenço na sua intervenção, é “seguir outros deuses; preferir outros deuses ao Senhor, Deus de Israel”. E sobre a frase “livrai-nos do mal”, citando ainda Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh, o “‘mal’ consistiria em estabelecermos, montarmos, instalarmos para nós mesmos um Bem rival de Deus – seja esse Bem o que for: sexo, vinho, dinheiro, etc. Ou seja, instalarmos no lugar de Deus um falsíssimo rival de Deus”.
“É sintomático que Jesus não diga ‘não podeis servir a Deus e a outros deuses’, à maneira do Antigo Testamento. O que ele diz é ‘não podeis servir a Deus e ao dinheiro’”, referiu ainda. E acrescentava que nos Evangelhos, “o rival de Deus é o dinheiro” – sobretudo “os crimes que o dinheiro fomenta”, como “o desmatamento da Amazónia por ganância” ou o “capitalismo egoísta que deixa milhões na fome e na miséria”.
No caso das Bem-aventuranças, a palavra grega habitualmente traduzida por ‘pobres’ “significa literalmente ‘mendigo’ ou ‘pedinte’”. Um pormenor semântico “importante”, considera Frederico Lourenço, porque a partir dele pode fazer-se o contraste entre “a carência passiva de quem se conforma com a sua pobreza com a carência ativa de quem sai da passividade para pedir”.
Admitindo o “preconceito negativo” que envolve as realidades dos ‘pedintes’ e ‘mendigos’, o tradutor da Bíblia acrescentava: “Achamos que deviam trabalhar em vez de pedir; e que, se dermos dinheiro, será para álcool ou droga; ou então irá parar ao bolso das máfias que controlam algumas redes de mendigos na Europa.”
O primeiro passo para compreender a primeira Bem-Aventurança, propunha Lourenço, “é conseguirmos olhar para a palavra ‘pedinte’ com atitude positiva”. O que não se adequa, dizia, “é a tradução ‘pobres de espírito’, sobretudo quando se entende a expressão ‘pobres de espírito’ como significando pessoas limitadas na sua cognição ou inteligência ou a pessoas ofensivamente denominadas por meio de termos como ‘simplório’”.
Antes, “a ideia parece ser que o reino dos céus está aberto àqueles que dele sentem falta e carência; àqueles que empreendem ativamente um caminho de procura espiritual para lá chegarem.”
A intervenção de quarta-feira em Coimbra inseriu-se num ciclo de conferências sobre “As entrelinhas nos textos de Mateus – um possível itinerário espiritual”. A próxima e última sessão deste ciclo será no dia 9 de Junho, às 18h, na mesma Capela de São Miguel, e tem entrada livre. Nesse dia, o tema será “O Noivo, as dez noivas e o Juízo Final”.
Reproduzem-se a seguir dois excertos da intervenção de Frederico Lourenço, sobre o Pai Nosso e as Bem-Aventuranças.
A referência a Deus como Pai leva-nos naturalmente à secção mais famosa e significativa do Discurso na Montanha: a oração ‘Pai Nosso’. As palavras que compõem esta oração fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, todos os dias, no mundo inteiro. São palavras que todos pensamos conhecer, embora se tornem curiosamente enigmáticas quando tentamos percebê-las em grego e quando comparamos a formulação da oração ‘Pai Nosso’ que ocorre em Lucas com a formulação que ocorre em Mateus. Acresce que, em Portugal (e provavelmente no Brasil), dizemos o ‘Pai Nosso’ de uma maneira diferente da forma como a oração é dita noutros países. (…)
Se rezássemos o ‘Pai Nosso’ de acordo com o texto de Lucas, estaríamos a pedir a Deus que perdoe os nossos ‘pecados’; se o rezássemos segundo o texto de Mateus, pediríamos para Deus perdoar as nossas ‘dívidas’. Sim, dívidas. Terá esta oração a ver com dinheiro? Mas o que pedimos em português é que Deus perdoe as nossas ‘ofensas’, palavra que não está nem em Mateus nem em Lucas.
O verbo para ‘perdoar’ também é difícil de traduzir: em grego, é um verbo que significa ‘libertar’, ‘deixar ir embora ileso’. O que está verdadeiramente em causa no Pai Nosso é ‘deixar para lá’ pecados ou dívidas (dependendo do Evangelho que estamos lendo).
E a questão da ‘tentação’? Estamos falando do prazer da comida, do sexo, do vinho? Bom, há uma personagem num dos romances de Evelyn Waugh que diz ‘eu acredito que Deus prefere bêbedos a muita gente respeitável’ (‘I believe God prefers drunkards to a lot of respectable people’). Mas a verdade é que nem Mateus nem Lucas falam em tentação. Falam em provação. Mas que provação será essa?
Uma resposta possível foi-me sugerida há uns anos quando eu estava a trabalhar na tradução para português da versão grega do livro de Juízes no Antigo Testamento. Qual não foi o meu espanto, quando deparei com uma passagem em Juízes (Septuaginta) onde estão todos os elementos da oração ‘Pai Nosso’. Em Juízes 2:21-22 LXX, Deus afirma que Josué PERDOOU (mesmo verbo de ‘perdoai-nos as nossas ofensas’ no Pai Nosso) alguns habitantes anteriores da terra ocupada pelos israelitas, para que através desses habitantes idólatras os israelitas fossem POSTOS À PROVA (o verbo de que vem a palavra erradamente traduzida por ‘tentação’ no Pai Nosso).
E que prova seria essa? Era não fazerem ‘o que é iníquo’ (Juízes 3:7 LXX: em grego, ponērón: justamente a palavra final do Pai Nosso, ‘livrai-nos do mal’, do ponērón).
Ora, no contexto do Antigo Testamento, ‘o iníquo’ é seguir outros deuses; preferir outros deuses ao Senhor, Deus de Israel. Para citar outra frase de Evelyn Waugh em Brideshead Revisited, o ‘mal’ em ‘livrai-nos do mal’ consistiria em estabelecermos, montarmos, instalarmos para nós mesmos um Bem rival de Deus — seja esse Bem o que for: sexo, vinho, dinheiro, etc. Ou seja, instalarmos no lugar de Deus um falsíssimo rival de Deus.
Muitas pessoas pensam que, quando rezam ‘livrai-nos do mal’, estão a pedir para serem salvas de Satanás. Mas, no contexto dos Evangelhos, Satanás não é rival de Deus e de Jesus, porque nos é dito que Jesus viu Satanás a despenhar-se do céu (Lucas 10:18). A vinda de Jesus representou a queda de Satanás.
Mas não provocou a queda de outro deus. É sintomático que Jesus não diga ‘não podeis servir a Deus e a outros deuses’, à maneira do Antigo Testamento. O que ele diz é ‘não podeis servir a Deus e ao dinheiro’ (Mateus 6:24).
Eu diria que, na visão dos Evangelhos, o rival de Deus é o dinheiro. Talvez não o dinheiro em si mesmo – na medida em que precisamos dele para pagar a César o que é de César (e é o próprio Jesus a dizer-nos que temos de o fazer) – mas os crimes que o dinheiro fomenta. E aí poderíamos saltar para a realidade contemporânea e desfiar um rol inteiro de horrores: desde o desmatamento da Amazónia por ganância, ao capitalismo egoísta que deixa milhões na fome e na miséria.
Falemos ainda da forma verbal ‘perdoamos’, na frase ‘perdoai-nos as nossas ofensas, tal como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. A maioria dos manuscritos gregos que nos transmitem o Evangelho de Mateus colocam o verbo no presente: ‘perdoamos’ (isto com o sotaque de Lisboa). Mas os dois manuscritos mais antigos – o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus – colocam o verbo no passado, equivalente ao pretérito perfeito em português: ‘perdoámos’ (no sotaque de Lisboa: estou consciente de que não há diferença na pronúncia se estivermos a dizer as duas formas com o sotaque nortenho, em que o presente ‘perdoamos’ e o perfeito ‘perdoámos’ são formas homófonas: ‘perdoámos’). Mas independentemente da questão do sotaque, que diferença existe entre ‘tal como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’ (presente) e ‘tal como nós perdoámos a quem nos tem ofendido’ (perfeito)? Eu diria que há uma diferença grande. Se usarmos o perfeito, estamos a garantir a Deus que já fizemos a nossa parte e que já nos mostrámos bons cristãos pelo fato de termos perdoado aos outros: assim, merecemos o perdão de Deus, porque somos merecedores da mesma generosidade que nós próprios fomos capazes de mostrar aos outros. Se usarmos o presente, estamos praticamente a dizer a Deus que perdoaremos aos outros na condição de Deus nos perdoar a nós. Talvez seja preferível dizer a Deus que já fizemos o trabalho de casa; temos o perdão em dia no que toca aos outros; e agora é a nossa vez de recebermos o perdão de Deus.
O que estamos, então, a pedir a Deus quando rezamos o Pai Nosso? Uma paráfrase possível (entre muitas!) da intenção das palavras gregas que lemos em Mateus seria esta (e por favor não se escandalizem):
‘Pai nosso, que estás nos céus; seja santificado o Teu nome. Venha o Teu reino. Seja feita a Tua vontade: tal como no céu, também assim na terra. Dá-nos hoje o nosso pão de amanhã; e perdoa as nossas dívidas, tal como nos já perdoámos aos nossos devedores. E não nos leves [como fizeste aos israelitas no Antigo Testamento] para a provação de termos de escolher entre Ti e aquilo que se Te opõe, mas livra-nos do mal [que consiste no proveito próprio em detrimento do Bem que és Tu, Pai nosso]’.
Para finalizar, há um aspecto que tem de ser obrigatoriamente frisado, que é a revolução materializada na permissibilidade de cada um de nós tratar Deus como Pai. O entendimento de Deus como Pai no Antigo Testamento corresponde a uma ideia que aflora muito raramente na Escritura judaica. E quando aflora, é no sentido de Deus como pai de Israel – não propriamente como pai de cada israelita. Praticamente a única passagem do Antigo Testamento em que vislumbramos o entendimento de Deus como Pai à maneira do Novo Testamento é uma passagem tardia de Isaías, no capítulo 63:16. Nessa passagem, a expressão na Septuaginta πατὴρ ἡμῶν (‘Pai nosso’) é quase a mesma da que inicia a oração ‘Pai Nosso’ em grego: πάτερ ἡμῶν.
Nos evangelhos, porém, a palavra carinhosa para ‘Pai’ (‘Paizinho’, ‘papá’) está ausente dos textos de Mateus, Lucas e João. Ocorre apenas uma vez no evangelho de Marcos, quando Jesus angustiado em Getsémani chama por Deus (14:36) e o trata por ‘Papá’ (Ἀββά). Mas São Paulo emprega este termo carinhoso duas vezes para referir o nosso estatuto de filhos em relação a Deus. Ouçamos esta passagem da Carta aos Romanos: ‘recebestes um espírito de adoção enquanto filhos, no qual gritamos Papá, Pai! O próprio espírito testemunha com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo’ (Romanos 8:15-17).
Termino dizendo que, como o Evangelho de Mateus foi escrito várias décadas depois da morte de São Paulo, Deus teve a caridade de poupar São Paulo ao choque de ler neste evangelho afirmações de Jesus das quais Paulo teria veementemente discordado. Pensemos no balde de água fria que teria sido para Paulo ler o versículo 19 do capítulo 5 de Mateus: ‘Aquele que afrouxar um dos mais insignificantes destes preceitos, e assim ensinar as pessoas, será chamado o mais insignificante no reino dos céus’. Ora, o que Paulo faz na sua epistolografia é justamente afrouxar o mais possível os preceitos da Lei judaica, mormente no que diz respeito à circuncisão. Confiemos que não seja por isso que, no reino dos céus, São Paulo tenha ficado no lugar do ‘mais insignificante’. Até porque São Paulo bem sabia que Deus não é só o nosso Pai; é literalmente o nosso Papá (abá).
No geral, a lista de Bem-Aventuranças é fácil de compreender, pois a fraseologia grega é perfeitamente clara. A única Bem-Aventurança que suscita problemas de compreensão e tradução é logo a primeira, cuja tradução (na proposta da Difusora Bíblica) é ‘Felizes os pobres em espírito’. Em grego, lemos μακάριοι οἱ πτωχοὶ τῷ πνεύματι. Temos de reconhecer que a expressão é difícil.
A palavra grega habitualmente traduzida por ‘pobres’ é interessante, porque significa literalmente ‘mendigo’ ou ‘pedinte’. Eu penso que é importante valorizar esse pormenor semântico, porque podemos contrastar a partir dele a carência passiva de quem se conforma com a sua pobreza com a carência ativa de quem sai da passividade para pedir. É claro que estamos todos condicionados socialmente para olharmos para pedintes e mendigos com preconceito negativo: achamos que deviam trabalhar em vez de pedir; e que, se dermos dinheiro, será para álcool ou droga; ou então irá parar ao bolso das máfias que controlam algumas redes de mendigos na Europa. Portanto, o primeiro passo na compreensão da primeira Bem-Aventurança é conseguirmos olhar para a palavra ‘pedinte’ com atitude positiva. É conhecida a frase de Jesus, que surge mais à frente no Discurso da Montanha (7:7-8): ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei à porta e ela ser-vos-á aberta. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra’.
Voltando aos pedintes da primeira Bem-Aventurança: na passagem paralela de Lucas (6:20), Jesus diz apenas ‘Felizes os pedintes’. Mas Mateus acrescenta a especificação ‘Felizes os pedintes pelo espírito’, ou então ‘pedintes por causa do espírito’ ou ainda ‘pedintes por ação do espírito’. Todas estas traduções são possíveis. O que não se adequa ao original é a tradução ‘pobres de espírito’ (pois o dativo aqui usado em grego não pode exprimir aquilo de que a pessoa carece: cf. Lohmeyer, p. 83), sobretudo quando se entende a expressão ‘pobres de espírito’ como significando pessoas limitadas na sua cognição ou inteligência. Não me parece que Jesus esteja aqui a prometer especificamente o reino dos céus a pessoas com deficiência cognitiva ou a pessoas ofensivamente denominadas por meio de termos como ‘simplório’; a ideia parece ser que o reino dos céus está aberto àqueles que dele sentem falta e carência; àqueles que empreendem ativamente um caminho de procura espiritual para lá chegarem.
Mas também é importante recordarmos aqui algumas passagens do Antigo Testamento grego, que podem ter contribuído para a expressão de Mateus. Uma dessas passagens é uma expressão no Salmo 33:19, onde lemos ‘O Senhor está perto dos que se sentem esmagados no coração; e salvará os que são humildes pelo espírito’. A expressão grega que traduzi por ‘humildes pelo espírito’ (ταπεινοὺς τῷ πνεύματι) é muito semelhante aos ‘pedintes pelo espírito’ (πτωχοὶ τῷ πνεύματι) de Mateus. Poderia dizer-se que a frase do Salmo implica uma opção consciente pela humildade, do mesmo modo que a frase de Mateus implica uma opção consciente pela pobreza. Daqui poderíamos saltar para a opção consciente pela pobreza e pela castidade que é própria das pessoas que escolhem a vida religiosa. Mas também podemos pensar noutras expressões do Antigo Testamento, como a frase que emprega concretamente a palavra ‘pobre’ no Salmo 9:10 na versão da Septuaginta, onde se diz que Deus é ‘refúgio para o pobre’ (καταφυγὴ τῷ πένητι). E acima de tudo, temos a maravilhosa passagem de Isaías, onde lemos as palavras que foram depois interpretadas como prenúncio da vinda de Cristo: ‘O espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu [Cristo = ungido]. Enviou-me para anunciar a boa nova [εὐαγγελίσασθαι: evangelizar] aos pedintes [πτωχοῖς] e para curar os que se sentem esmagados no coração’ (Isaías 61:1).
Como vimos já por esta amostra, o facto de Mateus ter acrescentado duas palavras à expressão ‘felizes os pobres’ tal como a lemos em Lucas traz no seu encalço reflexões de grande densidade teológica.