21 Mai 2026
O climatologista de Princeton, que fará a abertura do Festival Verde e Azul, está otimista: "A proibição dos CFCs em 1987 mostra que podemos nos unir para evitar ameaças globais."
A reportagem é de Sandro Iannaccone, publicada por La Repubblica, 19-05-2026.
1987. Durante várias décadas, uma grave emergência ambiental ameaçou o equilíbrio do planeta. E a comunidade internacional uniu-se, decidindo assinar um acordo histórico, o Protocolo de Montreal. Os clorofluorcarbonos (CFCs), gases utilizados em escala industrial em sprays e refrigeradores, estão literalmente destruindo a camada de ozono atmosférico, o escudo que protege a Terra da radiação ultravioleta. O acordo assinado no Canadá e ratificado universalmente proíbe o uso de CFCs, determinando a sua eliminação gradual.
Hoje sabemos que a decisão foi acertada e eficaz: o buraco na camada de ozono está a recuperar lentamente e deverá tornar-se impercetivelmente menor até ao final deste século. É precisamente a este precedente histórico, um caso (raro) em que a ciência e a política global conseguiram dialogar e tomar decisões no momento certo, que Michael Oppenheimer, professor de Geociências e Relações Internacionais da Universidade de Princeton, apela.
Oppenheimer é um acadêmico de renome mundial e uma figura histórica no ativismo climático: na década de 1980, mesmo antes da assinatura do Protocolo de Montreal, quando o aquecimento global era um tema praticamente restrito a algumas salas de aula universitárias, ele já estava na linha de frente como cientista-chefe do Environmental Defense Fund, que hoje é um dos maiores e mais eficazes grupos de ativismo ambiental sem fins lucrativos dos Estados Unidos. Ele trabalhou durante anos para "transformar" evidências científicas em campanhas de pressão política, contribuindo, por exemplo, decisivamente para a regulamentação contra a chuva ácida nos Estados Unidos. Por décadas, ele também foi um dos principais autores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, o órgão científico laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007.
Na visão de Oppenheimer, o caso do buraco na camada de ozono é paradigmático para ilustrar o poder do conceito de "nóa", tema central do festival, entendido como ação coletiva face a desafios aparentemente insuperáveis. "O mundo sempre foi um desastre", afirma ele, "este momento histórico, em particular, parece dominado pela fragmentação. Guerras em curso, profundas divisões geopolíticas, a clara disparidade de responsabilidades entre países ricos e economicamente desfavorecidos e países em desenvolvimento parecem paralisar qualquer perspectiva real de ação climática conjunta. Contudo, o passado ensina-nos que, nesta cacofonia de desordem, por vezes sabemos unir-nos para resolver problemas específicos. E isto nunca pode ser feito por uma só pessoa ou um só país." E é precisamente aqui que o " nós" entra em jogo.
Para sustentar essa tese, o cientista apresenta outro exemplo concreto de cooperação internacional, baseada, neste caso, na dissuasão e no bom senso — ainda que atualmente se encontre em um equilíbrio precário, a ponto de o Boletim do Cientista Atômico ter movido os ponteiros de seu Relógio do Apocalipse para 85 segundos antes do fim do mundo, a menor distância já registrada — ou seja, “o fato de que nos últimos 75 anos não nos destruímos com armas nucleares”.
Olhando para o futuro, o cientista concentra-se num dos pontos mais dolorosos da atual crise climática: a resistência da nossa economia e dos nossos hábitos em abandonar os combustíveis fósseis. A nossa dependência do carvão, do petróleo e do gás natural é estrutural, mas não deve ser considerada um monolito inabalável ou "grande demais para ser desmantelado", parafraseando o famoso "grande demais para falir".
"Não há mágica envolvida", explica Oppenheimer. "Existem obstáculos, certamente, mas podem ser desmantelados, pouco a pouco. É crucial analisar as motivações subjacentes que levam as pessoas e os governos à ação e concentrarmo-nos nas soluções cooperativas que já funcionam hoje."
A abordagem "pragmática" de Oppenheimer, desenvolvida através do estudo da dinâmica das calotas polares e de cenários de recuo costeiro planejado devido à elevação do nível do mar, sugere que a sociedade siga duas vias paralelas: a primeira é a mitigação, ou a redução drástica das emissões, analisando dados e possibilidades com clareza e sem ceder à ecoansiedade: "Uma profunda mudança energética está em curso no mundo, e devemos nos inspirar e nos encorajar: esses desafios complexos podem ser resolvidos; a alternativa já está aqui."
A segunda via é a da adaptação rápida: o realismo exige que entendamos que, mesmo que as emissões fossem repentinamente e milagrosamente zeradas amanhã, os gases de efeito estufa já acumulados na atmosfera e a "elasticidade" dos sistemas climáticos continuariam a nos fazer sentir os efeitos da crise, como anomalias de temperatura, secas e eventos climáticos extremos, por décadas: "Precisamos reconhecer honestamente a extensão da crise; não podemos nos dar ao luxo de ficar parados: é imperativo agir agora, com infraestrutura adequada e gestão territorial, para salvar vidas e recursos agora." Não intervenções milagrosas, mas ações coletivas determinadas. Assim como no caso do buraco na camada de ozônio.
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