13 Mai 2026
É inevitável questionar o que teria acontecido se os afetados tivessem viajado em um pequeno barco (...). Será que o hantavírus teria ocupado o mesmo espaço nas manchetes? Teria havido transmissões ao vivo, especialistas analisando cada detalhe, rostos repetidos até que a dor se tornasse assunto de conversa nacional?
O artigo é de José Luis Pinilla, SJ, presidente de CONFER-ALCALA, publicado por Religión Digital, 13-05-2026.
Eis o artigo.
Algumas doenças parecem chegar envoltas em veludo, enquanto outras desembarcam cobertas de sal e silêncio. O hantavírus, uma palavra antiga e áspera como um aviso rabiscado na casca de uma árvore, virou notícia quando apareceu em um navio de cruzeiro, em meio a cabines iluminadas, toldos inclinados sobre o mar e fotos de férias postadas nas redes sociais. Durante dias, a mídia noticiou a ansiedade compreensível e preocupante dos passageiros, a incerteza das famílias e o medo daqueles que pagaram para atravessar o oceano em busca de descanso e, em vez disso, encontraram a fragilidade da carne.
As imagens importam. Sempre importaram. Um navio de cruzeiro possui algo de cinematográfico: terraços abertos para o horizonte, piscinas refletindo céus tropicais, sobrenomes pronunciáveis em vários idiomas. A tragédia, quando se desenrola nesses cenários, adquire imediatamente uma ressonância reconhecível. O espectador imagina seu próprio corpo ali, seu próprio medo, sua própria mala presa em um porto estrangeiro. E nasce uma empatia humana pela dor.
Mas é inevitável questionar o que teria acontecido se os afetados tivessem viajado em um bote. Não um barco de recreio, mas uma embarcação desgastada, castigada pelos elementos e pelo desespero humano. Não turistas fotografando pores do sol, mas homens e mulheres fugindo da guerra, da fome ou da lenta asfixia de países esquecidos. O hantavírus teria ocupado o mesmo espaço nas manchetes? Teria havido transmissões ao vivo, especialistas analisando cada detalhe, rostos repetidos até que a dor se tornasse um assunto de conversa nacional?
Talvez por algumas horas. Mas a narrativa provavelmente teria mudado muito rapidamente. A doença teria deixado de ser uma ameaça humana e se tornado uma estatística, uma questão de fronteira, um debate administrativo. O foco não estaria na vulnerabilidade dos doentes, mas no risco que representavam. A linguagem também teria se transformado: de passageiros para imigrantes; de vítimas para contingente; de nomes próprios para estatísticas.
Não é preciso recorrer à demagogia para reconhecer essa diferença. Basta observar como o mundo distribui sua atenção. Alguns sofrimentos são iluminados por holofotes intensos, enquanto outras formas mal recebem o feixe frio de uma lanterna. A compaixão contemporânea parece seguir uma estranha geografia emocional, onde o sofrimento ganha relevância quanto mais se assemelha a nós ou à nossa autoimagem.
A Doutrina Social da Igreja nos lembra que “a dignidade da pessoa humana não depende de sua condição social, origem ou circunstâncias”. E talvez aí resida a questão mais incômoda de nosso tempo: se realmente acreditamos nessa dignidade universal ou se, no fundo, continuamos a estabelecer categorias invisíveis entre uma vida e outra.
No entanto, o vírus não faz distinção com base em classe social, idioma ou identidade. A febre pode entrar numa suíte de luxo com a mesma facilidade com que entra debaixo de um cobertor encharcado pelo Mediterrâneo. O corpo humano mantém uma igualdade fundamental diante da doença: todos trememos, todos respiramos com dificuldade, todos buscamos ajuda quando o medo nos atinge à noite.
Talvez seja por isso que seja desconfortável admitir que nosso olhar coletivo estabelece hierarquias. Não porque sejamos monstros indiferentes, mas porque vivemos presos em um sistema narrativo que decide quais vidas merecem ser contadas e quais são meramente uma breve nota de rodapé nas notícias. A abundância de imagens também criou uma fadiga moral: testemunhamos tantas tragédias que acabamos desenvolvendo preferências inconscientes sobre quais ainda nos comovem.
Nesses barcos viajam pessoas cujos rostos raramente permanecem na tela tempo suficiente para se tornarem indivíduos reconhecíveis. Elas chegam já rotuladas pelo ruído político que as explora, cobertas por uma camada de debate ideológico que obscurece a dimensão íntima de suas histórias. O espectador não sabe seus aniversários, os nomes de seus filhos ou a fotografia que guardam bordada em suas roupas. E aquilo que não adquire uma narrativa humana desaparece rapidamente da consciência pública.
Talvez o verdadeiro problema não seja apenas da mídia, mas da poesia. Perdemos parte da nossa capacidade de imaginar a vida interior dos outros. O turista doente nos lembra da interrupção de uma vida confortável; o migrante doente, por outro lado, nos confronta com uma precariedade tão profunda que preferimos conceituá-la a encará-la de frente.
No entanto, o mar continua o mesmo para todos. Sob o manto da noite, um navio de cruzeiro e um pequeno barco são apenas duas luzes minúsculas tentando não desaparecer na imensidão. E a doença, antiga e silenciosa, continua a nos lembrar de algo fundamental: nenhuma sociedade pode se considerar verdadeiramente humana enquanto reservar sua compaixão ao preço da passagem que alguém pagou para atravessar o mar.
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