20 Mai 2026
A estratégia da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) em caso de retomada dos ataques. O temor de Washington: "O regime conhece nossos procedimentos de ataque."
O artigo é de Gianluca Di Feo, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 20-05-2026.
Eis o artigo.
Há um elemento darwiniano na guerra: o vencedor é aquele que consegue se adaptar à evolução do combate. E tudo indica que os iranianos estão se saindo muito melhor do que seus rivais americanos. Acredita-se que eles agora entendem os procedimentos de ataque dos caças-bombardeiros americanos, o que lhes permite organizar verdadeiras emboscadas. Nos últimos dias antes do armistício, eles conseguiram abater um F-15E Strike Eagle, derrubar um A-10 Warthog, danificar um F-35 supostamente invisível ao radar e atingir de raspão um F-18 Hornet. O temor é que as manobras dos jatos tenham se tornado previsíveis e, portanto, possam ser facilmente neutralizadas. O New York Times cita fontes militares que sugerem que os russos forneceram essas informações a Teerã, o que poderia ser crucial caso Donald Trump ordene a retomada dos bombardeios.
Essa não é a única preocupação. O Pentágono está divulgando relatórios alarmantes sobre a resiliência da República Islâmica, que se prepara para responder a uma possível nova onda de ataques. Durante a primeira fase do conflito, os pasdarianos sofreram pesados danos, mas conseguiram esconder uma parte significativa de seu arsenal de mísseis em túneis escavados no granito. As incursões americanas destruíram as entradas dos túneis, sem atingir as armas armazenadas em seu interior. Isso já havia acontecido em 1999 no Kosovo: esquadrões da OTAN dispararam tudo o que tinham contra o grande bunker no aeroporto de Pristina. Atingiram as entradas, mas, ao final das hostilidades, todos os MiG sérvios foram retirados intactos e levados embora.
Da mesma forma, durante o hiato de um mês, a Guarda Revolucionária teria removido os escombros e transferido lançadores e mísseis balísticos para outros locais. Quantos? Segundo algumas estimativas, entre 40% e 60% dos mísseis ainda estão operacionais. O almirante Brad Cooper, que dirige as operações americanas, rejeitou essas estimativas, reiterando que "85% foram danificados" e que os relatos de recuperação de mísseis dos túneis são "imprecisos". No entanto, fotos de satélite mostram trabalhos sendo realizados para reparar as portas, assim como também estaria sendo feito nos laboratórios nucleares subterrâneos em Isfahan.
Em relação aos mísseis, há outra preocupação: no início de março, os comandantes iranianos conservaram munição porque previam um conflito prolongado. Mas, se o conflito recomeçasse, o poder de fogo se concentraria em poucos dias, numa tentativa de infligir a maior devastação possível aos países do Golfo. Os drones que atacaram a usina nuclear dos Emirados Árabes Unidos no domingo são um alerta: o que teria acontecido se, em vez dos três pequenos Shaheds, dezenas de mísseis balísticos tivessem caído?
Parafraseando a ameaça arcaica de Trump, Mehdi Kharatian, um analista próximo ao regime, disse que o Irã poderia "levar os Emirados de volta à era dos camelos". Essas são frases de propaganda, mas transmitem a atitude dos paquistaneses que substituíram os líderes mortos nos ataques: eles estão confiantes de que podem resistir, desencadeando uma retaliação feroz contra os EUA e, principalmente, seus aliados. É por isso que os sauditas e os catarianos, seguidos a contragosto pelos emiratis, suspenderam a ofensiva planejada pela Casa Branca: eles teriam que pagar um preço muito alto.
Outro fator desconhecido paira sobre o futuro da região: os houthis. Ontem, eles organizaram uma enorme manifestação de rua em solidariedade ao Líbano e à Faixa de Gaza, "invadidos pelos israelenses". Seu líder alertou os países árabes que colaboram com os Estados Unidos em ataques contra a República Islâmica. Até o momento, o papel da milícia xiita iemenita no conflito tem sido mínimo, mas eles ainda são capazes de bloquear o Estreito de Bab el-Mandel e fechar o Mar Vermelho: uma perspectiva assustadora para a economia global, já em crise devido ao fechamento do Estreito de Ormuz.
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