EUA e Irã: perto de um acordo? O que se sabe sobre as negociações nos bastidores para pôr fim à guerra?

Foto: Gage Skidmore | Wikimedia Commons

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07 Mai 2026

A Reuters e a Axios informam que Washington e Teerã estão perto de assinar um memorando de entendimento de uma página, com 14 pontos, após o qual teriam início negociações detalhadas para um acordo final sobre o Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e o levantamento das sanções.

A reportagem é de Icíar Gutiérrez, publicada por elDiario.es, 07-05-2026.

Novo dia, nova jornada de mensagens mistas e contraditórias sobre a guerra do Irã, particularmente nos Estados Unidos. A quarta-feira começou com Donald Trump suspendendo uma missão naval para desbloquear o Estreito de Ormuz, que, longe de retomar de forma significativa o tráfego pela via marítima, havia desembocado em uma nova onda de ataques iranianos contra navios e objetivos em países vizinhos como os Emirados Árabes Unidos, sacudindo um já frágil cessar-fogo. A operação durou menos de 48 horas.

Ao anunciar sua decisão, Trump alegava avanços nas conversações de paz. Mas, horas depois, o presidente dos EUA voltou a pressionar Teerã para que aceite um acordo para encerrar a guerra, assegurando que levantará o bloqueio estadunidense do Estreito de Ormuz se o país persa "concordar em dar o que foi acordado", sem oferecer detalhes sobre quais seriam essas aparentes concessões. E de novo, a linguagem das ameaças: "Se não concordarem, os bombardeios começam, e serão, tristemente, a um nível e intensidade muito maior do que antes."

Entre uma publicação e outra, informações de diferentes meios ocidentais como Axios e Reuters apontaram que EUA e Irã estão perto de um acordo, embora, publicamente, tenha havido poucas sinalizações de que as semanas de diplomacia destinadas a chegar a um entendimento para reabrir Ormuz e encerrar a guerra estivessem dando frutos.

A incerteza em torno das negociações — lideradas no lado americano pelo enviado de Trump, Steve Witkoff, e seu genro, Jared Kushner — segue sendo total. Não é a primeira vez que os representantes dos EUA se mostram otimistas durante a guerra quanto à possibilidade de alcançar um acordo, possibilidade que ainda não se materializou. E enquanto um alto cargo do Parlamento iraniano joga água fria sobre as esperanças de um pacto iminente, qualificando o texto da Axios como "lista de desejos americanos e não de realidade", a agência persa Isna diz que as demandas ali recolhidas são exigências "excessivas e irrealizáveis que foram energicamente rejeitadas por representantes iranianos nos últimos dias".

Enquanto isso, uma fonte de Israel declarou à Reuters que Tel Aviv desconhecia que Trump estava potencialmente perto de um acordo para encerrar a guerra. Ao contrário, o país hebraico se preparava para uma escalada nos combates.

Um memorando de uma página e negociações posteriores

O que está sobre a mesa? A Reuters e a Axios informaram, citando diversas fontes, que Washington e Teerã estão perto de assinar um memorando de entendimento de uma página e 14 pontos para encerrar formalmente a guerra. "Fecharemos muito em breve. Já estamos perto", disse uma fonte do Paquistão, país mediador, à Reuters. A CNN também informou de apreciações otimistas por parte dos mediadores paquistaneses sobre progressos para o acordo por parte do Irã, segundo dois altos cargos do Executivo americano que receberam a notícia com certo ceticismo.

A Axios indica que a Casa Branca acredita estar perto de um acordo — embora também pense que a liderança iraniana está dividida e alguns representantes continuam céticos quanto à possibilidade de alcançar um pacto — e aguarda respostas iranianas sobre vários pontos-chave nas próximas 48 horas.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse na quarta-feira que seu Governo está revisando a proposta americana para encerrar a guerra. "Após finalizar suas considerações, o Irã transmitirá sua posição à parte paquistanesa", disse em entrevista à agência semioficial Isna.

Segundo Axios e Reuters, após a assinatura do memorando se iniciariam conversações para desbloquear o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, levantar as sanções americanas contra o Irã e acordar restrições ao programa nuclear iraniano. De acordo com a Axios, tratar-se-ia de um período de 30 dias de negociações detalhadas sobre esses assuntos, que poderiam ter lugar em Islamabade ou Genebra, para um acordo definitivo. Durante esses 30 dias, as restrições iranianas ao tráfego marítimo pelo estreito e o bloqueio naval americano seriam levantados gradualmente, mas se as negociações fracassarem "as forças americanas poderiam restabelecer o bloqueio ou retomar a ação militar".

Trump insistiu em que nunca haverá um acordo com o Irã a menos que aceite que nunca terá armas nucleares e, de acordo com diferentes informações, queria que esse assunto fosse abordado desde o início. "Washington aceitou que a resolução simultânea da guerra, o conflito de Ormuz e o tema nuclear em um único pacote final não é viável no momento. Do ponto de vista diplomático, isso representa uma concessão a Teerã", disse à Al Jazeera Andreas Krieg, professor associado da Escola de Estudos de Segurança do King's College de Londres.

"O objetivo é alcançar certo grau de entendimento sobre os temas que acordaram negociar. Não é necessário ter o acordo redigido em um único dia", disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na terça-feira. "É um processo muito complexo e técnico. Mas devemos encontrar uma solução diplomática que defina claramente os temas que estão dispostos a negociar, bem como o alcance e as concessões que estão dispostos a fazer desde o início para que as conversações sejam frutíferas."

O que incluiria o acordo?

Segundo a Axios, entre outras disposições, o acordo implicaria que os Estados Unidos levantem suas sanções e liberem bilhões de dólares em fundos iranianos congelados, e que ambas as partes levantem as restrições ao trânsito pelo Estreito de Ormuz. No entanto, muitos dos termos do memorando estariam sujeitos a que se consiga um pacto final, o que deixa em aberto a possibilidade de novas hostilidades ou de um prolongado limbo em que a guerra aberta tenha cessado, mas nada esteja realmente resolvido.

O acordo também implicaria que o Irã se comprometa a uma moratória sobre o enriquecimento de urânio, cuja duração está sendo negociada: três fontes indicam à Axios que seria de pelo menos 12 anos e uma aponta 15 como prazo provável.

Segundo publicaram em abril diferentes meios, os Estados Unidos estiveram pressionando o Irã para que aceitasse uma moratória de 20 anos sobre sua atividade nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio, como uma das condições para alcançar um acordo integral que ponha fim à guerra, e Teerã respondeu com uma proposta de suspensão de cinco anos nas conversações de Islamabade.

Além disso, a Axios informa que Washington pretende incluir uma cláusula que estabeleça que qualquer violação iraniana em matéria de enriquecimento prolongaria a moratória e que, após seu vencimento, o país persa poderia enriquecer urânio até um nível baixo de 3,67%.

O Irã enriqueceu urânio a um nível próximo ao necessário para fabricar armas atômicas, mas negou repetidamente que as esteja buscando e afirma que seu programa tem exclusivamente fins pacíficos.

O que propôs o Irã?

Em sua última proposta de 14 pontos entregue por meio de um intermediário paquistanês, o Irã insistiu em que os problemas deveriam ser resolvidos em um prazo de 30 dias. Entre as principais exigências iranianas figuravam: garantias "contra a agressão militar"; retirada das forças militares americanas da periferia do Irã; fim do bloqueio naval; liberação dos ativos iranianos bloqueados; pagamento de indenizações; levantamento das sanções; fim dos combates em todas as frentes, incluindo o Líbano; e um novo mecanismo para o Estreito de Ormuz.

O Irã anunciou na terça-feira um novo sistema para supervisionar o tráfego marítimo por essa via estratégica, por onde transitava 20% do petróleo mundial antes de seu bloqueio em represália pela guerra dos EUA e Israel. Segundo os canais estatais iranianos, sob o novo mecanismo, os navios que busquem cruzar o estreito receberão um e-mail que estabelece as regulações da "Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico".

O Irã converteu o controle do Estreito de Ormuz em sua maior alavanca de influência durante a guerra. "Preferimos que seja aberto como deve estar aberto, ou seja, que volte a ser como era antes", disse Rubio na terça-feira. Para alguns especialistas como Arta Moeini, do think tank Institute for Peace & Diplomacy, isso não ocorrerá. "Washington se passou dos limites, e não há nenhum cenário em que a arquitetura de segurança do Golfo Pérsico possa voltar ao statu quo de 27 de fevereiro. Insistir nessa 'restauração' é uma fantasia perigosa que só garante uma escalada maior", diz no X.

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