12 Mai 2026
A denúncia feita pela pastora Helena Raquel expõe um problema interno das igrejas e, ao mesmo tempo, os limites de um progressismo que transforma qualquer possibilidade de diálogo em teste ideológico.
O artigo é de Lucas Vinicius Oliveira dos Santos, professor de Sociologia na rede pública da Paraíba e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Pesquisa evangélicos, pentecostalismo e suas transformações contemporâneas, com foco nas relações entre religião, política, gênero e sexualidade.
Eis o artigo.
Em uma pregação de 2024 que circula nas redes sociais, o pastor e também deputado Marco Feliciano afirma aos fiéis que a delegacia do crente assembleiano é a oração. Na mensagem, ele exorta o público: “Explica isso para o jovem que está do seu lado, porque talvez ele não compreenda o que é uma delegacia; é onde você vai dar queixa. O nosso pastor dizia: ‘Quer dar queixa? Leve para as irmãs, leve para as irmãs do círculo de oração. Leve um bilhetinho escrito’. Elas não sabiam ler, mas catavam aquele bilhete, colavam no joelho e oravam”.
Uma música gospel não tão popular, mas exemplar, do artista Cícero Nogueira, repete a mesma ideia ao afirmar: “Eu acho feio crente ir na delegacia dando parte do irmão/Eu fico com muita vergonha, fico de cara no chão/Crente fiel que guarda a palavra dentro do seu coração/A delegacia dele é o círculo de oração”.
Tanto a pregação quanto a música evidenciam algo que se tornou comum em igrejas evangélicas: conflitos e crimes são absorvidos pela linguagem espiritual e se transformam em questões a serem resolvidas exclusivamente no plano do sobrenatural. Dentro do pentecostalismo, isso ficou conhecido como a cosmologia da batalha espiritual.
Vale lembrar que o pentecostalismo nunca foi um campo homogêneo. Desde suas origens, há um forte protagonismo feminino, com mulheres pregando, liderando e, em alguns contextos, sendo ordenadas pastoras, especialmente nas primeiras décadas do movimento. Trata-se de uma tradição marcada por circulação de sujeitos historicamente marginalizados, que encontram ali espaço de fala, autoridade e reconhecimento. Isso ajuda a entender por que o pentecostalismo é permanentemente tensionado por dentro, mesmo quando, em determinados momentos, é capturado por agendas mais conservadoras.
O problema aparece quando o conflito não é banal. Quando envolve violência doméstica, abuso contra crianças, agressões que não cabem na categoria de “desentendimento entre irmãos”. Ainda assim, a mesma lógica muitas vezes se mantém: aconselhar, orar, preservar a imagem da liderança, evitar escândalo.
Foi nesse ponto que a pregação da pastora Helena Raquel, no Congresso dos Gideões de 2026, ganhou repercussão atingido na publicação original do Instagram mais de 12 milhões de pessoas em três dias. O encontro, ligado à Igreja Assembleia de Deus, é realizado anualmente em Camboriú (SC) e reúne milhares de fiéis, consolidando-se como um dos maiores eventos evangélicos do país.
Parabéns, pastora Helena Raquel, pela coragem e clareza. Denunciar é o caminho para romper o ciclo de violência e proteger vidas. pic.twitter.com/Vnx73WTnHc
— SorayaThronicke (@SorayaThronicke) May 5, 2026
Na pregação, ela falou diretamente de mulheres que sofrem violência dentro de casa e de crianças abusadas, em contextos próximos à igreja. E disse, de forma simples: “Para de orar por ele hoje, Deus me trouxe aqui para salvar tua vida da morte. Comece a orar por você. Você precisa ter coragem de sair e fazer a denúncia em uma delegacia de apoio à mulher ou qualquer outra. Você precisa, com urgência, ligar para alguém de confiança e buscar um lugar seguro. Por último, não acredite em um pedido de desculpas, porque quem agride mata.” Em outro momento, reforçou: “Se é pastor, se é obreiro, se é membro… mas fere, oprime e violenta, isso não é autoridade espiritual. Isso é pecado.”
Essa fala ganha peso quando colocada ao lado de alguns dados. No Brasil, a violência contra a mulher segue alta, com milhares de casos de feminicídio todos os anos. E, quando se olha para dentro do universo religioso, o cenário não é irrelevante. Um dado pouco debatido do último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que mais de 40% das mulheres assassinadas no Brasil são evangélicas. Isso não indica que a religião produza a violência, mas revela onde essas mulheres estão e a que redes recorrem.
Outro dado ajuda a entender esse circuito. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado e da Nexus, mostra que 53% das brasileiras que sofreram violência doméstica ou familiar buscaram acolhimento na igreja, ficando atrás apenas da família (57%). A igreja, portanto, é um dos principais espaços de escuta. O problema é o tipo de resposta que muitas vezes se oferece ali.
A ideia de que “a delegacia do crente é a oração” não é inofensiva. Ela orienta práticas que, diante da violência, falham e, em alguns casos, prolongam o sofrimento. A fala de Helena Raquel rompe esse fluxo. Não resolve o problema, mas interrompe o silêncio, e faz isso a partir de dentro.
Por outro lado, a reação fora desse espaço seguiu outro caminho. Parte de setores progressistas voltou-se rapidamente para a posição política da pastora. Vídeos antigos foram resgatados, e ela foi classificada por alguns como bolsonarista e reacionária. Em um desses registros, ela critica a forma como evangélicos são tratados nas eleições, afirma que também são pagadores de impostos e defende o direito de escolher seu candidato sem aderir a projetos messiânicos.
O efeito é rápido: a violência sai de cena, entra a classificação política. Com isso, a possibilidade de diálogo se fecha. E reforça-se uma percepção já presente entre muitos evangélicos: a de que são tratados como um bloco único, sempre suspeito, sempre reduzido a uma posição política.
Esse ponto dialoga com outro dado importante. A direita brasileira, especialmente no ciclo recente do bolsonarismo, tem enfrentado dificuldades de aproximação com o eleitorado feminino. A pauta da violência contra a mulher pesa nesse distanciamento. Ignorar uma fala como a de Helena Raquel, que toca diretamente nesse tema dentro de um espaço evangélico, é abrir mão de uma possibilidade concreta de incidência.
Se nem mesmo a denúncia da violência doméstica e do abuso infantil, feita em um dos maiores eventos evangélicos do país, consegue atravessar essas barreiras, a pergunta se impõe: o que conseguiria?
A ideia de que “a delegacia do crente é a oração” continua sendo repetida. A pregação de Helena Raquel mostra que ela também está sendo tensionada. Há violências que não cabem no círculo de oração. E continuar tratando como se coubessem já não é fé. É escolha.
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