Os evangélicos querem mesmo conservar? Há futuro progressista entre os evangélicos? Artigo de Lucas Vinicius Oliveira dos Santos

Imagem: 1º Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos, 28/08/2021 | Foto: Alan Santos | PR

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24 Abril 2026

"A pergunta, portanto, talvez não seja se 'os evangélicos' querem conservar ou transformar. Talvez seja: quais projetos serão capazes de dialogar com a pluralidade já existente entre eles. Onde muitos enxergam um bloco fechado, pode haver um campo em disputa. E onde se anunciou apenas barreira, pode existir também possibilidade"

O artigo é de Lucas Vinicius Oliveira dos Santos, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Paraíba, professor da Educação Básica. 

Eis o artigo. 

Nem todo evangélico quer conservar. A diversidade interna desse eleitorado ajuda a entender por que ele segue decisivo e imprevisível.

A ala "Neoconservadores em Conserva", da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026, provocou uma repercussão da qual poucos escaparam. O desfile já acumulava polêmicas desde o anúncio, e a viralização da alegoria levou muitos analistas a discutir como aquela visibilidade poderia ampliar ruídos entre o governo e parcelas do eleitorado evangélico. Temia-se que, ao ridicularizar signos caros a setores conservadores, o desfile oferecesse munição a adversários políticos e reativasse uma narrativa já conhecida: a de que a esquerda e os progressistas desprezam família, religião e valores populares.

Em ano eleitoral, com os evangélicos ocupando peso crescente no eleitorado, acendeu-se um sinal de alerta no Planalto. É fato que as demandas dessa "ala" não podem ser ignoradas. O problema começa quando se imagina que elas partem de uma única voz, coesa e previsível. Será que os evangélicos querem realmente "conservar" valores, estruturas e a própria noção de família? Essa é uma pergunta que me acompanha desde a pesquisa de mestrado e a partir da qual proponho algumas reflexões.

À primeira vista, o alinhamento entre setores evangélicos e discursos neoconservadores parece confirmar a imagem de um segmento movido pela defesa da ordem e pela preservação de valores tradicionais. Mas essa leitura perde um elemento decisivo: em muitos casos, o que se apresenta como conservadorismo opera menos como conservação e mais como desejo de ruptura. O tom não é o de quem pretende administrar continuidades, e sim o de quem promete "acabar com tudo isso que está aí", varrer instituições desacreditadas, confrontar elites políticas, redefinir hierarquias morais e refundar a vida pública.

Parte do apelo do bolsonarismo nesse universo pode inclusive ser lida a partir daí. Não apenas como defesa de costumes, mas como oferta de transformação radical, ainda que em termos reacionários. Trata-se de uma promessa de mudança que se dirige ao mal-estar social, à sensação de decadência e ao desencanto com a política tradicional. Seu conteúdo não é progressista, mas sua gramática mobilizadora é a da ruptura.

Outra dificuldade do debate público é tratar "os evangélicos" como se fossem um bloco único, homogêneo e politicamente previsível. Não são. O rótulo reúne denominações distintas, classes sociais diversas, conflitos geracionais, diferenças regionais, disputas raciais, variadas leituras bíblicas e projetos morais concorrentes. Há setores rigidamente alinhados à extrema-direita, mas há também experiências que escapam desse enquadramento e reorganizam, por dentro, o que significa ser evangélico.

Foi justamente isso que encontrei em minha pesquisa de mestrado sobre a Igreja Cristã Contemporânea, em Salvador. Ali, pessoas LGBTQIAPN+ historicamente expulsas ou silenciadas por igrejas tradicionais não abandonavam a linguagem evangélica e pentecostal. Ao contrário, reapropriavam-se dela para construir novas formas de pertencimento religioso. "Falar em línguas", batalha espiritual, culto emotivo, santidade, louvor e experiência do Espírito permaneciam centrais, mas articulados a uma teologia inclusiva e à recusa da exclusão.

Lideranças da própria Igreja Cristã Contemporânea também atuaram publicamente em disputas morais e políticas. Em 2009, em coluna de Ancelmo Gois no O Globo, confrontaram a campanha de outdoors de Silas Malafaia em defesa da chamada "família tradicional", mostrando que o conflito sobre sexualidade e religião já se dava dentro do próprio campo evangélico. Mais de uma década antes da polarização recente, portanto, já havia evangélicos contestando a hegemonia conservadora em linguagem igualmente religiosa.

Em 2010, na Folha, o pastor Marcos Gladstone, presidente da denominação, criticou Dilma Rousseff e José Serra por evitarem posicionamentos mais claros sobre demandas da população LGBT, afirmando que ambos haviam "subido no muro". O episódio é relevante porque desmonta a imagem de um eleitorado evangélico naturalmente alinhado à direita moral. Havia, e há, segmentos religiosos formulando outras prioridades políticas.

E essa história é ainda mais antiga. O próprio surgimento das igrejas cristãs inclusivas, nos Estados Unidos, esteve ligado ao ciclo de mobilização que transformou a luta LGBT no final dos anos 1960. A fundação da Metropolitan Community Church, em 1968, antecede e se conecta ao mesmo ambiente político que deu origem às primeiras Paradas do Orgulho Gay. Seu fundador, Troy Perry, teve participação direta na organização da primeira marcha em Los Angeles, em 1970.

Nada disso autoriza romantizações. O campo evangélico segue atravessado por fortes correntes conservadoras, lideranças poderosas, interesses institucionais e disputas morais intensas. Tampouco se pode supor que experiências como essas, por si sós, reorganizarão o comportamento eleitoral de milhões de pessoas. A política raramente se move por um único fator, e o voto evangélico continua sendo atravessado por renda, território, gênero, raça, segurança pública, carisma das lideranças, redes locais de pertencimento e conjunturas econômicas.

Ainda assim, ignorar as brechas existentes talvez seja um erro analítico e estratégico. Se parte da extrema-direita conseguiu crescer ao reconhecer medos, linguagens e sensibilidades presentes nesse universo religioso, outros campos políticos não precisam responder apenas com caricatura, hostilidade ou distância. Há, dentro desse mesmo mundo social, repertórios de acolhimento, justiça, dignidade, solidariedade e reinvenção que também podem ser mobilizados.

A pergunta, portanto, talvez não seja se "os evangélicos" querem conservar ou transformar. Talvez seja: quais projetos serão capazes de dialogar com a pluralidade já existente entre eles. Onde muitos enxergam um bloco fechado, pode haver um campo em disputa. E onde se anunciou apenas barreira, pode existir também possibilidade.

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