Trump desorientado, a estratégia na Cúria: "Rubio deve tentar contê-lo"

Marco Rubio e Papa Leão XIV (Foto: Vatican Media)

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07 Mai 2026

"Em outro momento, explicam na Cúria, a audiência de Marco Rubio no Vaticano teria sido cancelada. A confirmação é um sinal de que o Papa está olhando para além de Trump", escreve Giacomo Galeazzi, vaticanista, em artigo publicado por La Stampa, 06-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em outro momento, explicam na Cúria, a audiência de Marco Rubio no Vaticano teria sido cancelada. A confirmação é um sinal de que o Papa está olhando para além de Trump. E é um passo crucial no "sistema de contenção" que está sendo construído para conter o magnata, com a cooperação do episcopado estadunidense e dos "congressistas" evocados pelo Pontífice, que nunca estiveram tão em sintonia com Roma. Trata-se de um trabalho de bastidores. A estratégia papal é manter um diálogo sempre aberto com os 50 milhões de católicos EUA, independentemente do "periclitante destino do atual ocupante da Casa Branca", comparado nos sagrados palácios ao soberbo rei de Israel, Saul, derrotado desastrosamente pelos filisteus após sua ruptura com o sábio e manso profeta Samuel.

"Atacar novamente Leão XIV poucas horas antes da missão de reconciliação de Marco Rubio é inquietante e denota um estado de desorientação e imprevisibilidade que exige extrema cautela", disse o Cardeal Marcello Semeraro ao jornal La Stampa. "Também não se trata de uma estratégia diplomática para lidar com a situação de forma oportunista. Para conter essa deriva, o caminho a seguir hoje é dialogar com um político atento e experiente como Rubio." A nova ofensiva de Trump contra Leão XIV "não parece ser uma escolha ponderada, mas sim um acesso de cega arrogância, fruto da falsa convicção de sua própria superioridade. Alerta máximo."

Na realidade, o efeito é "ostentar ao mundo maldade e incompetência com uma atitude inaceitável em quem tem responsabilidade de governo", acrescenta o prefeito do Vaticano: "Até recentemente, provavelmente mesmo durante os pontificados de João Paulo II e Francisco, o encontro com Rubio teria sido cancelado. No entanto, Leão XIV está bem ciente da situação estadunidense e deseja continuar a se dirigir aos seus concidadãos de forma pacata e serena por meio de seus representantes institucionais." Portanto, "receber Rubio em uma conjuntura geopolítica tão alarmante é um perspicaz sinal de abertura ao diálogo, coerente com a encíclica de Paulo VI, 'Ecclesiam Suam'. Prevost fala com todos e intervém sempre que um passo pode ser dado em direção à reconciliação entre os povos." Teia pacientemente tecida pela diplomacia pontifícia, cujo horizonte "nunca pode ser a resposta imediata".

Quem reitera isso é o Secretário de Estado Pietro Parolin: "O Papa continua em seu caminho, no sentido de pregar o Evangelho e a paz, como diz São Paulo, 'opportune et importune'". Ou seja, não apenas quando é fácil, cômodo ou bem-aceito. A linha, esclarece o Cardeal Parolin, permanece a mesma delineada por Leão no início de sua viagem à África. Uma resposta "muito cristã" ao esclarecer que "ele está fazendo o que seu papel exige, que é pregar a paz". E "o discurso não muda. Pode-se gostar ou não, nem todos concordam, mas essa é a resposta do Papa". Desde os tempos de Carlos Magno, a estratégia é sempre manter o canal aberto com César sem trair a Deus.

"A fé não é uma questão privada, e a Igreja deve interagir com o Estado mesmo quando aqueles que a representam fazem de tudo para empurrá-la na direção oposta ao mandato evangélico", observa o Arcebispo Michele Pennisi, promotor de longa data do diálogo ecumênico.

Trump se colocou numa situação delicada sozinho, atolando-se num conflito sem saída com o Irã e agora busca bodes expiatórios para culpar pelo fracasso de sua própria política externa. Até mesmo a Primeira-Ministra Giorgia Meloni acabou na mira de sua ira por não apoiar seus planos. Quanto mais cresce o consenso nos EUA por Leão XIV, maior a intolerância de Trump, que se arrisca a atribuir a ele um impossível apoio ao programa nuclear iraniano e ao fracasso em defender os católicos." Mas é o próprio Trump que "coloca a humanidade em perigo ao multiplicar as frentes de guerra. Ter nascido nos EUA, responsabiliza ainda mais Prevost a não abandonar seus concidadãos a essa liderança vacilante e perigosa."

A visão de Trump, aponta o prelado, "está presente em um determinado mundo católico tradicionalista que vê o Islã como uma ameaça para o cristianismo". Ao se distanciar da linha extremista, o Papa "realiza um diálogo com o Islã, como se viu na Argélia e na visita à mesquita". Trump "quer uma cruzada supremacista e aponta Prevost como o desertor do Ocidente". Mas "Jesus nunca proclamou a guerra santa", enfatiza ele. "Seja o Islã ou a China, Trump ameaça e desorienta com seu modo de agir no cenário internacional e no confronto com as religiões. De um lado, envia Marco Rubio ao Vaticano; do outro, mina sua missão insultando o Papa na véspera."

Já em 1937, o pe. Luigi Sturzo esclarecia qual era a responsabilidade dos cristãos, abordando o tema da Guerra Civil Espanhola e do conflito na Abissínia. Uma "excomunhão" para quem buscava justificar o uso da violência bélica por meio da doutrina da "guerra justa". O arcebispo finaliza: "O cristianismo, ao contrário de outras tradições religiosas ou ideológicas, não prevê a espada como instrumento de difusão da  fé ou de solução dos conflitos. Não deve receber aprovação aquele que busca alianças entre o trono e o altar para mascarar desastres pessoais, vãs onipotências."

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