Estamos num novelo caótico de guerra e tirania entre os povos, em contraponto aos fios invisíveis que nos ligam. Artigo de Rosana Batista Almeida

Foto: Anadolu Agency

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06 Mai 2026

"Ao lado da tecnologia a serviço da guerra, ainda há má distribuição de alimentos, de moradias, de saneamento ambiental nos hemisférios da terra. As catástrofes ambientais, por sua vez, impelem pessoas a abandonarem suas casas, com estimativa de atingir 216 milhões de pessoas até 2050, por parte do banco mundial", escreve Rosana Batista Almeida, mestra em engenharia Civil, área de concentração Geotecnia (UFPE); especialista em meio ambiente e recursos hídricos no órgão ambiental do estado da Bahia (Inema); autora do livro de poemas Circuitos de Solaris. Experienciou vivências no xamanismo.

Eis o artigo.

Com o advento da Globalização, a utopia fez passeio pelas mentes suaves e de esperança sobre os trilhos não somente da diminuição de barreiras de produtos comerciais e industriais, mas em relação ao crescimento da tolerância pelos modos e culturas locais ao redor do mundo.

Atualmente as guerras envolvem os EUA, Rússia, Ucrânia, Irã, Israel, Líbano, faixa de gaza, mas não dizem respeito apenas às deliberações políticas destas nações. E, neste sentido, estamos todos comprometidos com elas, com o avanço e consolidação das tratativas de paz. Não nos encontramos mais encerrados nas poligonais onde circulamos, nem na visão de uma bolha protegida, e, nessa perspectiva, as ações de guerra, em quaisquer direções e sentidos, destecem os fios de Vida na Terra, com coleções de pessoas mortas e destruição de ecossistemas naturais e artefatos criados pelo ser humano. Assim, dominar campos de interesse parece justificar a guerra vil, perante a decadência dos sistemas políticos-econômicos vigentes.

Ao mesmo tempo, num mundo dirigido para fora, é importante o fortalecimento das comunidades locais, suas identidades culturais e soluções singulares de sobrevivência. Isto parece utópico, mas é real e resgata o pertencimento ao território destas populações. Neste sentido, as proposições elencadas por estes grupos podem incrivelmente consistir em alargamento de perspectivas aparentemente restritas e pontuais, mas, na verdade, numa atitude revolucionária em si mesma.

Sob outro aspecto, o êxodo e eliminação de povos, como os palestinos, atingidos pela barbárie da “higienização étnica” por parte de Israel tornou-se frente de horror, a ser vista timidamente pela maioria dos chefes de estado do mundo. O centro das decisões entre nações não pode ser baseado em Economia alimentada por corpos mortos nem pelo massacre e o desrespeito à política, economia e cultura locais, frente a quaisquer pretextos. No centro do sistema político-econômico, deveria estar a preservação da Vida de populações de quaisquer nacionalidades e não o emprego dos mais modernos artefatos tecnológicos para assegurar um cenário distópico, em um mundo segregado sem lugar para todos.

Ao lado da tecnologia a serviço da guerra, ainda há má distribuição de alimentos, de moradias, de saneamento ambiental nos hemisférios da terra. As catástrofes ambientais, por sua vez, impelem pessoas a abandonarem suas casas, com estimativa de atingir 216 milhões de pessoas até 2050, por parte do banco mundial. Os refugiados climáticos tendem a estar em todas as partes, sendo rechaçados pelas fronteiras da contabilidade da Economia cartesiana. Neste aspecto, não se trata de desrespeitar apenas as diferenças culturais, mas de contabilizar, de forma tradicional, os chamados riscos econômicos associados a cada entrada de imigrante: a velha matemática dos índices ditos consistentes, mas vazios. Portanto, o mundo globalizado assume a faceta de acirrar as fronteiras e minimizar a solidariedade entre povos.

O chefe Seattle trouxe a sua Carta em 1856, que pode representar uma grande diretriz para desenvolver os laços de afeto entre os povos e, também, a Natureza. Então, a nação de outros povos é sagrada. E os lares também são sagrados. E a cada destruição estamos destruindo a Vida, a memória, lembrança de um povo. Ainda o Chefe Seattle coloca: “o murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.” O chefe Seattle acrescenta: “É o homem que pertence à terra... Tudo está relacionado entre si. O que fere a terra fere, também, os filhos e as filhas da terra. “

Diante da visão limitada de nações, a comandar genocídios e milhares de mortes de pessoas em sua própria casa, impelidos pela visão limitada de realidades, ainda lembremos, atravessando mais de um século, Seattle: “Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará”.

Estamos num novelo caótico, e, não obstante, Shams de Tabrizi, Mestre Sufi, relembra que “o universo é uma entidade completa e única/Tudo e todos estão ligados por alguns fios invisíveis.” Esta não é uma lembrança distante do tempo nosso de guerra, ela perfaz a nossa anatomia mais essencial e profunda. O pior é que estamos a cortar estes fios essenciais.

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