30 Abril 2026
"A vida é um pesadelo de tirar o sono. Como sonhar com o futuro? Uma casa com três quartos ou um carro 'popular' são artigo de luxo. Consumo com culpa, exaustão como rotina de um trabalho que adoece. O trabalhador corre, corre... e continua no mesmo lugar", escreve Élio Gasda, doutor em Teologia pela Universidad Pontifícia Comillas (Madri), pós-doutorado em Filosofia Política (Universidade Católica Portuguesa), professor da área de Ética Teológica e Práxis Cristã e diretor da Coleção Theologica FAJE.
Eis o artigo.
As questões estruturais, culturais, socioeconômicas e política estão concentradas no trabalho. Sociedade, governos, empresas e instituições deveriam olhar mais para as pessoas e menos para números. De fato, “o trabalho é uma chave essencial de toda a questão social” (João Paulo II).
O Brasil tem 103 milhões de ocupados e uma taxa de desemprego entre 5,1% e 5,6% (PNAD – IBGE), com um rendimento médio de R$ 3.613,00. Parcela expressiva desta população trabalha sem carteira, por conta própria ou de forma intermitente. A menor taxa de desemprego da série histórica coincide com recorde de informalidade: 38%!
A precariedade substituiu o desemprego como principal fantasma que assombra o brasileiro. Emprego para quem, em quais condições, com quais direitos? Não basta estar no mercado de trabalho para sair da pobreza. 2/3 dos trabalhadores formais recebem até 2 salários-mínimos. Entre o salário-mínimo (R$ 1.621,00) e o salário ideal há uma diferença de R$ 5.485,83 (DIEESE). Quem recebe o piso salarial nacional deveria receber 4, 42 x mais (R$ 7.164,94). 62 milhões de brasileiros têm rendimento referenciado no salário-mínimo. A disparidade entre o custo de vida (R$ 3.520) e o salário médio (R$ 2.200) é escandalosa (Serasa). “O bolso é a parte mais sensível do corpo humano” (Delfim Neto).
Quando se compara o custo da cesta básica nas capitais e o salário-mínimo líquido, ou seja, após o desconto de 7,5% da Previdência Social a situação fica ainda mais crítica: o trabalhador comprometeu em média, em fevereiro de 2026, 46,13% do rendimento para adquirir os produtos alimentícios básicos e, em janeiro, 46,08% (DIEESE/Conab). “É um homicídio negar ao trabalhador o salário necessário à sua vida” (Santo Ambrósio).
“O trabalho dignifica o homem?” É sério? O emprego não garante a superação da pobreza em contextos de salários insuficientes, alto custo de vida e desigualdade estrutural. Se trabalhar duro fosse sinônimo de prosperidade, a maioria da população já teria saído da pobreza. Para que o trabalho dignifique, ele deve ocorrer em condições humanas, justas e dignas. “Que haja trabalho para todos. Mas trabalho digno, não de escravo” (Papa Francisco).
Pobreza designa “falta do necessário à vida; penúria, escassez” (Dicionário Aurélio). A absoluta maioria dos brasileiros que vivem na pobreza são trabalhadores. As pessoas trabalham muitas horas por semana em troca de uma renda insuficiente que não garante sequer o mínimo de conforto. Longas jornadas de trabalho não constrói futuro, apenas compram mais 30 dias de sobrevivência: aluguel, transporte, gás, conta de luz, IPTU, água, telefone, internet, sacolão, supermercado, boletos. As pessoas não estão “vendo a cor do dinheiro”.
O pobre passa o dia trabalhando para pagar contas: o carro velho quebra, o celular estraga, o filho adoece, o remédio custa o ‘olho da cara’. A meta é chegar no fim do mês. A conta não fecha, apesar do esforço. 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas. 50% dos inadimplentes estão atrasados há mais de 90 dias (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor). Cortar gastos significa cortar serviços essenciais. Enquanto isso, bancos lucram bilhões. É o suor do trabalhador alimentando os ganhos de poucos.
A vida é um pesadelo de tirar o sono. Como sonhar com o futuro? Uma casa com três quartos ou um carro “popular” são artigo de luxo. Consumo com culpa, exaustão como rotina de um trabalho que adoece. O trabalhador corre, corre... e continua no mesmo lugar. “Não há pobreza pior do que aquela que priva do trabalho e da dignidade do trabalho” (Papa Francisco).
Juventude frustrada. Ter ensino superior não necessariamente significa encontrar trabalho condizente com o nível de formação. Milhares de jovens abandonam os estudos para ajudar na sobrevivência da família. A pobreza parece uma barreira insuperável. 90% dos meninos nascidos em lares pobres morrem pobres (Joseph Stiglitz). A juventude demanda transformações estruturais.
Um descompasso: a pobreza persiste mesmo quando a economia melhora. O Brasil segue na ponta da desigualdade. Comparado a nações emergentes, é o país com maior proporção de trabalhadores pobres, apesar da queda do desemprego (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE). O crescimento econômico precisa chegar ao bolso do trabalhador. O problema é estrutural. Empregos informais e de baixa remuneração prolongam a permanência de milhões de pessoas na pobreza. “Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu salário” (Eclesiástico 34, 21-22).
A normalização da precariedade e da insegurança estão levando “as pessoas a se matar de tanto trabalhar”. As inovações tecnológicas, incluindo a Inteligência Artificial, implementadas de forma desregulada, destroem e ameaçam postos de trabalho. Milhões de pessoas cumprem 44 horas. As mulheres com duplas e triplas jornadas, tem salários menores e lideram metade dos lares brasileiros, enfrentam horas de transporte público caro, lotado e precário. O trabalhador que aparece como ocupado nas estatísticas talvez nunca chegue a experimentar os direitos que emanam do trabalho. O Brasil está se tornando uma sociedade caracterizada pela ausência de direitos no trabalho. De fato, “na maioria dos casos, os pobres são o resultado da violação da dignidade do trabalho humano” (Bento XVI).
Não basta gerar vagas, é preciso qualificar a oferta, aumentar a remuneração e garantir uma legislação de proteção social. Erradicar a pobreza significa oferecer trabalho decente, não qualquer trabalho. Talvez seja por isso que a melhora nos indicadores da economia não se traduza em avaliação mais positiva do governo.
“O trabalho digno é um direito sagrado. Reivindicá-lo é Doutrina Social da Igreja” (Papa Francisco).
Escutemos os trabalhadores e trabalhadoras!
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