28 Abril 2026
Exportações de petróleo e derivados chegaram a 12,9 milhões de barris por dia; envios de GNL também aumentaram, alcançando nível histórico.
A informação é publicada por ClimaInfo, 27-04-2026.
Quem poderia supor que os Estados Unidos, que, com Israel, decidiram atacar o Irã a título de “defesa da democracia”, seriam um dos maiores beneficiários do conflito que fez os preços do petróleo e do gás fóssil liquefeito (GNL) dispararem em todo o mundo? Se já era conhecido que a guerra encheria os caixas das petrolíferas mundo afora, agora sabe-se que o país de Donald Trump está vendendo combustíveis fósseis como nunca. E ganhando muito com isso.
De acordo com o Wall Street Journal, as exportações estadunidenses de petróleo bruto e derivados atingiram um recorde na semana passada, chegando a quase 12,9 milhões de barris por dia, segundo a Administração de Informação de Energia do país. Os envios de GNL também aumentaram, segundo a empresa de rastreamento marítimo Kpler, com as exportações alcançando um nível histórico no mês passado.
A corrida pelos combustíveis fósseis dos EUA não dá sinais de desaceleração. Mais de 60 superpetroleiros vazios estavam a caminho da costa do Golfo do México até 4ª feira passada (22/4) – cerca de três vezes mais do que os níveis anteriores à guerra. Ou seja, um indicativo de que as exportações do país devem continuar crescendo nos próximos meses.
Contudo, para especialistas em energia, os EUA enfrentarão obstáculos para transformar a demanda de guerra em um impulso de longo prazo. Na Ásia, reformar a infraestrutura energética para processar o petróleo estadunidense seria caro. Já a Europa se mostra cada vez mais preocupada com sua dependência dos EUA, à medida que as relações entre Trump e líderes políticos atingem novos níveis de tensão.
“O receio é que os EUA, especialmente sob Trump, usem isso como alavanca política”, disse Henning Gloystein, diretor de energia do Eurasia Group. “Que os EUA abusem dessa dependência de fornecimento para obter vantagens em questões climáticas, na Otan, na segurança ou em tarifas.”
Mas há outro “vencedor” da guerra no Oriente Médio, destaca o Guardian: a energia solar da China. Com a grande vantagem de que a oferta energética chinesa não aumentará as emissões de gases de efeito estufa, agravando as mudanças climáticas, e ainda aliviará o caixa de governos afetados pela atual crise do petróleo, ao reduzir sua dependência de petróleo e gás.
Como o primeiro “eletroestado” do mundo, a China contrasta com a busca dos EUA pela supremacia dos combustíveis fósseis. O país também tem um papel significativo a desempenhar na construção da nova ordem energética.
“A China obtém vantagem estratégica de sua liderança em energias renováveis e eletrificação, manufatura e inovação, implantação doméstica e exportações globais”, afirmou a Ember, um think tank de clima e energia. “A China não está apenas fabricando equipamentos eletrotécnicos; está construindo um futuro energético no qual ocupa uma posição de liderança.”
Se depender dos preços do petróleo, a tarefa chinesa de expandir a eletrificação da economia global continuará facilitada. Ontem (27/4), a continuidade do impasse entre EUA e Irã quanto ao fim definitivo da guerra e à reabertura total do Estreito de Ormuz fez o barril disparar. O Brent fechou o dia cotado em US$ 108,23 por barril, com alta de 2,75%, enquanto o WTI subiu 2,09%, a US$ 96,37 por barril, detalha o Valor.
Em tempo
O desprezo de Donald Trump pela energia eólica cria uma turbulência política para os republicanos na região costeira da Virgínia, destaca a AP. De acordo com um relatório da E2, grupo empresarial do setor de energia limpa, a campanha mais ampla de Trump contra a energia renovável resultou no cancelamento de quase US$ 35 bilhões em projetos nos EUA no ano passado. Distritos eleitorais controlados por republicanos perderam quase o dobro de investimentos em comparação com os controlados por democratas, segundo o relatório. Por ora, um parque eólico de US$ 11,5 bilhões na costa da Virgínia, que deve gerar 1.000 empregos, ainda está de pé. Mas, ainda assim, concorrentes democratas reforçam que os republicanos pouco se esforçaram para essa manutenção.
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