15 Abril 2026
O historiador Faggioli estudou extensivamente a relação entre o cristianismo e o fenômeno MAGA: "Com a invectiva contra Leão XIV, o inimaginável tornou-se parte do cotidiano. Os gatilhos foram os apelos do Papa pela paz e pelo multilateralismo. Agora, a direita religiosa perceberá que foi explorada pelo presidente."
"Paradoxo histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV. "O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados Unidos. Leão o faz não para proteger os interesses da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca", enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.
Essa experiência permitiu-lhe aprofundar-se na relação entre o cristianismo e o fenômeno MAGA, tema que dedica ao seu mais recente ensaio, De Deus a Trump: Crise Católica e Política Americana, publicado na Itália pela editora Morcelliana. Apesar de ser um observador atento do trumpismo, Massimo Faggioli ficou surpreso com a diatribe anti-Leão do magnata. "Mas agora, o inimaginável se tornou parte do cotidiano político", enfatiza ele.
A entrevista é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 14-04-2026.
Eis a entrevista.
Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa Leão?
O estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase Cupich, Robert McElroy e Joseph Tobin — que também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo, datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto, são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.
“In the Catholic teaching, this is not a just war,” Cardinal Robert McElroy, Archbishop of Washington, D.C., says of the war in Iran. https://t.co/wmuCW3IWFL pic.twitter.com/NbrnUyDIce
— 60 Minutes (@60Minutes) April 12, 2026
Um dos temas centrais do pontificado desde o início, assim como fora sob o Papa Bergoglio. Por que Trump está intervindo agora?
Francisco não preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano — uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de compreender os Estados Unidos. Leão XIV, por outro lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca o início de seu declínio político.
Sério? Por qual motivo?
O trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita", personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e da inteligência artificial, que estão menos interessados em defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo e seus recursos.
A "tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa, ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.
Mas será que a decadência de Trump é realmente concebível?
Da Dio a Trump: Crisi cattolica e politica americana. (Scholé, 2025)
O magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém, violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter sido explorada pelo trumpismo.
Como alguns católicos em altos cargos de administração, como Vance e Rubio, poderiam reagir?
Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump, sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em 2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa. Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles podem decidir se rebelar.
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