09 Abril 2026
“Estou vivendo no México. Reconheceram meu status de exilado e agora sou residente permanente”, diz Óscar Martínez, destacado jornalista salvadorenho, do Peru, onde está participando de um congresso sobre jornalismo e investigação. Ele é chefe de redação do vibrante e notável ElFaro.net, que vem retratando a história de seu país nas últimas duas décadas. Foi ameaçado pelo governo do presidente Nayib Bukele, assim como outros 50 colegas e inúmeros cidadãos que vivem espalhados pelo mundo todo.
A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín-Revista Ñ, 07-04-2026. A tradução é do Cepat.
Martínez, que conhece o contexto e o personagem, publicou um livro intitulado Bukele, el rey desnudo (Anagrama), um perfil sobre este presidente e o país que hoje governa, que se lê segurando a respiração. As guinadas ideológicas de Bukele e seu estilo surpreendem: tudo provoca sensações corporais, assim como fazia o livro de Horacio Castellanos Moya, Asco, que fala de San Salvador. Durante um intervalo no congresso do qual participava, atendeu o telefonema de Buenos Aires.
Eis a entrevista.
Como Bukele passou do elogio a Che, a Cuba, da militância na esquerda, a ser hoje um presidente de ultradireita?
Bukele começa na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), que tinha chegado à presidência em 2009. E Bukele vestia vermelho em todas as concentrações como prefeito de um pequeno município chamado Nuevo Cuscatlán, de 2012 até 2015, quando consegue ser o candidato da esquerda à prefeitura de San Salvador.
Era alguém que dizia que o modelo centro-americano deveria ser o da Nicarágua de Daniel Ortega. Bukele falava publicamente que era de esquerda e se manifestava no Twitter. Depois, tentou apagar 144 tuítes nos quais expressava suas ideias de esquerda. Nós, no ElFaro.net, os recuperamos.
Seus pais eram donos de uma agência de publicidade que realizava campanhas políticas para a esquerda salvadorenha. Bukele não é um outsider; por seis anos, vestiu a camisa vermelha de um partido emblemático da esquerda latino-americana.
Em sua trajetória política, alguma vez se descreveu como liberal?
Bukele não tem um projeto ideológico; tem um projeto messiânico onde a regra essencial é se manter no poder absoluto. Não deixou a esquerda em El Salvador por razões ideológicas, mas porque não lhe davam a candidatura à presidência. Bukele forçou sua expulsão quando começou a criticar publicamente a FMLN.
Sempre quis ser presidente de El Salvador e chegou à presidência em 2019 com a Grande Aliança pela Unidade Nacional, um partido de ultradireita conhecido como GANA. Foi o único que se prestou a servir como táxi para Bukele se registrar como candidato presidencial.
Naquele momento, Trump estava em seu primeiro mandato. E como se tivesse tido uma amnésia total, de repente, vendeu-se como um homem conservador e foi parar dando palestras na Heritage Foundation. Um dia, Bukele disse: “Decepcionei-me com minhas posições de esquerda”. De repente, surgiu como um trumpista declarado.
Bukele tem um plano ou vai testando e descartando?
Para voltar a ser presidente, Bukele violou quatro artigos da Constituição. Depois, venceu e foi à sacada para se proclamar vencedor. Demonstrou que até mesmo a violação da Constituição era algo simbólico. Para dizer a verdade, ele já sabia que permaneceria no poder.
Então, assume nesse ato no qual Milei comparece. Da sacada, exige lealdade das pessoas que estavam na praça, como nunca havíamos escutado antes. Pede que levantem a mão e recita uma espécie de oração. Isto não foi um ato cívico; foi um ato religioso. Um ditador falando como tal.
Ele sempre foi religioso ou adotou o estilo para misturá-lo com a política? Ele é evangélico?
Não. Observe que há várias imagens reais dele com sua família em eventos muçulmanos, a religião que muitos membros de sua família praticam. Não há provas de que Bukele a tenha praticado consistentemente, mas aparece em uma mesquita rezando junto com seus irmãos. Quando era da FMLN, não mencionava Deus.
Há outra foto com representantes da comunidade LGBTIQ, e sai posando como um aliado, apresentando-se como quem vai defendê-los na campanha presidencial. Depois, aboliu qualquer ideia progressista e se revestiu como um católico, mas com marcas evangélicas ou neopentecostais. De fato, criou o Dia Nacional da Oração.
Como ele neutralizou as maras, as temidas gangues?
Disse que não fazia ideia de como tinha resolvido o problema das gangues, que foi claramente um milagre. O que aconteceu em El Salvador? Foi literalmente uma batalha entre Deus e o diabo. Bukele se converteu a isto por considerar que, naquele momento, era o mais adequado. Bukele não era assim anos atrás.
Ele costuma justificar algumas medidas de governo dizendo que é a vontade de Deus…
Bukele é um homem que mais do que ideias tem invencionices. Em 2021, anunciou a adoção do bitcoin como moeda legal. Uma invencionice. E depois a revogou quando exigido pelo FMI para receber um empréstimo de 1,2 bilhão. De repente, faz um acordo com as gangues, e acontece um massacre terrível. E então diz: “Chega”, impondo o “regime de exceção”.
É alguém que se entusiasma de repente e promete que haverá um trem por toda a costa do Pacífico, em El Salvador, e depois isso não volta a ser mencionado. É alguém que se ilude muito rapidamente com as coisas e, agora, neste ambiente de contágio político, em que Trump está sendo ungido por pastores evangélicos nos Estados Unidos, Bukele acabou considerando uma boa invencionice se vender da mesma forma. Não é alguém que possui um plano articulado.
Ao mesmo tempo, temos um estado de pobreza que não mudou...
Pelo contrário, há mais de 300 mil pessoas que caíram na pobreza extrema desde que Bukele chegou ao poder. Quase 60% da sociedade salvadorenha vive da economia informal. Nas pesquisas, as pessoas dizem: “Não conseguimos pagar nem a cesta básica”. El Salvador é, neste momento, um desastre economicamente.
No livro, você argumenta que El Salvador, sim, conseguiu atingir uma das taxas mais altas do mundo e é a do encarceramento. Que benefício isso trouxe?
É algo que ele não previu e depois não teve a coragem política de voltar atrás. Em 26 de março de 2022, a Mara Salvatrucha assassinou 87 salvadorenhos que não eram membros de gangues. Então, Bukele reage de forma muito violenta. Não só afirma que haverá um regime, como também que vai acabar com as gangues, e passa a encarcerar pessoas.
Esse discurso político penetra junto com as regras do regime de exceção, que são regras muito pouco claras que dão poder a militares e policiais, levando a polícia a preencher esse discurso político. E em questão de semanas, houve mais de 30.000 prisões, sem qualquer processo investigativo, sem tatuagens.
Algumas unidades policiais começam a prender pessoas que sabiam que não eram membros de gangues. Alguns policiais usaram este recurso para se livrar de um vizinho incômodo ou para resolver um conflito pessoal ou expulsar vendedores das ruas.
O Centro de Confinamento do Terrorismo - Cecot, essa prisão modelo que Bukele exibe e que já parece um destino do turismo extremo...
Estou surpreso com a forma como o mundo acredita nessas pequenas propagandas e pensa que entende. Muitos devem ter visto um vídeo de 15 minutos do Cecot no YouTube e acreditam que Bukele é um estadista da segurança. Existem 22 prisões em El Salvador. O Cecot é uma montagem que Bukele quer que vocês vejam. Ali estão os presos mais tatuados.
A maioria deles já estavam presos antes de Bukele chegar à presidência. Foram retirados de outras prisões e levados para o Cecot. É claro que foram ou são membros de gangues. Existem alguns que mesmo com tatuagens no rosto, tinham saído e adotado o Evangelho. Isto é uma montagem.
Foram colocados naquela prisão para o passeio dos youtubers, para que os políticos argentinos, estadunidenses tirem fotos com 50 homens com rostos tatuados trancados em uma cela. Em outras prisões, há torturas sistemáticas e uma multidão de presos sem nenhuma tatuagem no corpo. Bukele é especialista em fazer com que o mundo olhe para onde quer que olhe.
O que acontece com as mulheres? Onde você as coloca?
Não acredito que Bukele esteja particularmente interessado em qualquer coisa relacionada à equidade de gênero. Pensa em termos de lealdade, não de gênero.
Qual é a relação atual com a imprensa? Sabemos que há ataques e, de fato, você está exilado…
Foi a imprensa que descobriu como ele e sua família acumulam riqueza. Foi a imprensa que publicou informações dessa natureza, o que levou o Departamento de Estado americano a sancionar funcionários públicos de Bukele e que levou à menção de seus acordos com a Mara Salvatrucha, em um julgamento em Nova York.
Por isso, Bukele nos quer fora e nos enviou ameaças com policiais, mensagens pelas redes sociais, com acusações de lavagem de dinheiro contra meios de comunicação como El Faro. Foi nos cercando até nos fazer entender que é a prisão que nos aguarda no final. Conseguiu forçar as pessoas ao exílio. Eu estou exilado, assim como mais de 50 colegas meus, segundo a Associação de Jornalistas de El Salvador.
A roupa que veste foi até comparada com a de um personagem de Star Wars. É muito chamativo; quer se destacar. Por quê?
Envia uma mensagem articulada com a sua construção de imagem. A roupa carrega uma mensagem e remete a questões militares, a imperadores, a todo-poderosos. Ele não se apresenta como o presidente de direita ou esquerda clássico da América Latina, que abraça velhinhas e beija crianças, apresenta-se como um semideus, um rei, não como um presidente.
Ele é um bom orador? Um encantador de serpentes?
Considero que Bukele é um orador muito eficiente. Agora, estou andando pelo Peru e não há um taxista que não mencione como Bukele é maravilhoso e eficiente. É ridículo que um homem faça um discurso dizendo que em um país empobrecido como El Salvador, graças ao bitcoin, uma moeda que ninguém sabe usar, vai começar a evolução da humanidade ou que se coloque a orar em uma praça com a mão erguida e diga o que significa tomar uma cerveja na ONU.
Lendo você, sinto que não há espaço para o respiro devido à quantidade de coisas que relata, devido ao ritmo envolvente e asfixiante. Lembrei-me do livro de Horacio Castellanos Moya, Asco...
Não tinha pensado nisso. Ele é o meu escritor vivo favorito, que admiro muito e já consumi quase todos os seus livros. Eu adoraria ter algum traço literário dele. Não escrevo a partir da raiva, mas, sim, há uma espécie de repulsa em mim agora, não posso negar.
Sinto repulsa diante de um país que subjugou tanto seu povo que não consigo compreender, nem entender por que deveriam ter defendido a Constituição. Por que algo que soa tão estranho acabaria afetando suas vidas? Como quando pedem habeas corpus para perguntar onde está seu filho levado por um soldado. Não há mais quem responda.
Sinto repulsa diante de um país disposto a entregar até mesmo seus inocentes, suas mães e pais camponeses em troca do fim de uma máfia tão violenta como as gangues. Sinto repulsa por tantos e tantos servidores públicos dispostos a assumir com covardia o papel que acreditam que a história colocou em suas mãos. Sinto repulsa pelos peritos forenses que preenchem os laudos de cadáveres que saem das prisões listando a mesma causa de morte: edema pulmonar, edema pulmonar, edema pulmonar.
Sinto repulsa pelos promotores que disseram: “Ok, vamos prender pessoas sem provas”. Sinto repulsa pelos policiais que, sabendo que estavam levando um inocente, o colocaram na viatura e se foram. Sim, muitas coisas no meu país me causam repulsa.
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