08 Abril 2026
Um eletrochoque positivo. A guerra no Irã que sufoca o fornecimento de combustíveis fósseis tornou ainda mais evidente que transformar o transporte, o aquecimento ou a indústria em sistemas elétricos pode salvar o planeta do colapso climático e romper com a sede de petróleo que periodicamente asfixia a Europa e a Espanha.
A informação é de Raúl Rejón, publicado por elDiario.es, 07-04-2026
"O mundo nunca viveu uma ruptura no fornecimento energético de tal magnitude", disse recentemente o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol. Em entrevista ao Le Figaro, afirmou que a atual crise petrolífera causada pelos ataques dos EUA e de Israel sobre o Irã "é mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas".
66% dos produtos petrolíferos consumidos na Europa se destinam ao transporte, segundo a Agência Internacional de Energia. A Espanha não escapa dessa tendência: apenas entre gasolina, gasóleo e querosene para aviões, o setor consome 60%. "Em 2025, o consumo de produtos petrolíferos alcança 60,17 milhões de toneladas e aumenta 1,4% em relação a 2024, sendo o maior consumo desde 2011", explica a Corporação de Reservas Estratégicas de Produtos Petrolíferos (Cores).
Ao mesmo tempo, o transporte que consome o petróleo importado é "o único setor em que as emissões de CO₂ seguem sendo superiores às de 1990. É responsável por quase 30% das emissões da UE". Três quartos desse gás provêm do transporte rodoviário — o que usa gasolina e diesel.
De fato, na Espanha não apenas é o principal emissor de CO₂ do país, como está crescendo "devido principalmente ao aumento das emissões do transporte rodoviário", expõe o Inventário Nacional, embora a navegação (5%) e a aviação (7%) nacionais também tenham incrementado suas emissões em 2024.
Com essa situação, "o transporte segue sendo o principal problema climático da Europa", descreve o último relatório da organização Transport&Environment (T&E). Em 2025, as emissões de gases do setor em geral estagnaram. As dos automóveis se estabilizaram e as da aviação cresceram.
"Enquanto as emissões de automóveis se estancam nos países mais atrasados, o elefante na sala é o crescimento das da aviação, que anulam os ganhos em outros campos", conclui a análise.
O déjà vu da crise do petróleo
"O transporte é um dos setores que mais contribui para a crise climática e um dos que mais está custando descarbonizar", conta o coordenador da área de mobilidade na Ecologistas en Acción, Pablo Muñoz. "E, além das dificuldades para a eletrificação, nos últimos anos constata-se uma intensificação acelerada da mobilidade, tanto de mercadorias como de pessoas, a todos os níveis." E, por ora, essa mobilidade está baseada em combustíveis fósseis.
Para romper esse circuito nefasto de bilhões de euros que une os combustíveis fósseis e os efeitos devastadores da crise climática, o Plano Nacional Integrado de Energia e Clima (PNIEC) prevê uma eletrificação geral da economia de 35% para 2030. O atual nível de eletrificação na Espanha está em 24%, segundo o Eurostat.
Isso significa que um terço da energia utilizada na Espanha — dos edifícios aos automóveis, passando pelas fábricas — seja a base de eletricidade, e não de queima de combustíveis. E que essa eletricidade seja gerada de forma limpa. A Agência Internacional de Energia considera que os países desenvolvidos como a Espanha deveriam alcançar 40% nesse mesmo 2030.
A Red Eléctrica diz que o setor de transporte é "onde há maior potencial de descarbonização baseado na eletrificação massiva". Em outras palavras, a eletrificação é atualmente baixa, situando-se em 5%, enquanto a indústria ronda os 30% e os edifícios entre 40% e 45%.
O PNIEC contempla como principais instrumentos o uso de combustíveis alternativos e a expansão do carro elétrico. Projeta chegar a 5,5 milhões de veículos para 2030 (18% da frota) quando hoje rondam os 600 mil (entre 1,5% e 2% do total).
"Países com vendas altas de veículos elétricos viram fortes reduções em seus níveis de emissões de carbono, mas foram contrabalançadas pelo incremento em países como a Espanha, onde essas vendas ainda são demasiado baixas", pontua Todts.
Pablo Muñoz contrapõe que, embora seja verdade que o carro elétrico "emite menos gases de efeito estufa e contribui para melhorar a qualidade do ar, existe o risco de criar a ilusão de que é possível um sistema de transporte ecológico à margem da drástica redução da mobilidade, da reorganização urbanística, da relocalização da economia e da preeminência do transporte público e do não motorizado".
Segundo sua análise, descarbonizar o transporte passaria por "um modelo em que as formas de deslocamento ativo e transporte coletivo com zero emissões e baseado em energias renováveis sejam a prioridade. O papel do veículo privado motorizado deve ser mínimo." Em resumo: não se pode simplesmente substituir a frota de veículos de combustão pelo mesmo número de elétricos porque "não resolveria o consumo de recursos, a ocupação do espaço público ou os acidentes".
Enquanto isso, o estrangulamento no Estreito de Ormuz continua sufocando o trânsito de gás e petróleo. "Tenho uma sensação de déjà vu. De que já estivemos aqui antes", descreveu o diretor da T&E. Certamente, episódios semelhantes golpeiam recorrentemente a Europa: a guerra na Ucrânia em 2022, a Primavera Árabe na Líbia em 2011, a primeira guerra do Golfo em 1990, a revolução iraniana e a consequente guerra com o Iraque (1978-1981) ou o corte de fornecimento da OPEP ao Ocidente pela guerra do Yom Kipur (1973). Em todas essas crises, o petróleo se restringiu e os combustíveis — a matéria-prima das emissões de gases de efeito estufa — dispararam de preço.
Porque, no fim das contas, "o dinheiro dos europeus vai para os bolsos da indústria petrolífera", conclui Todts, que calculou que essas empresas obterão da Europa "30 bilhões de euros a mais em lucros por causa da guerra".
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