A primeira Páscoa do Papa Leão, entre as memórias cristãs de uma Roma "distraída". Artigo de Giovanni Maria Vian

Foto: Vatican Media

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08 Abril 2026

"Pela primeira vez, o Papa Leão celebrou, segundo a tradição romana, os ritos da Semana Santa. Eles continuam a atrair turistas curiosos e fiéis devotos. Embora Chateaubriand, em 15 de abril de 1829, Quarta-feira Santa, retornando do Ofício das Trevas na Capela Sistina, já alertasse que "a Roma cristã, comemorando a agonia de Jesus Cristo, parecia estar celebrando a sua própria, parecia estar repetindo para a nova Jerusalém as palavras que Jeremias dirigia à antiga", escreve Giovanni Maria Vian, jornalista italiano, em artigo publicado por Domani, 05-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Prevost conhece bem Roma: estudou na cidade quando era jovem e foi prior geral da ordem agostiniana por 12 anos, a apenas dez metros da colunata de São Pedro. E também conhece bem as memórias do cristianismo romano, cujas origens estão ligadas à presença da mais antiga comunidade judaica na diáspora.

Ponto principal do ano cristão, a Páscoa marca a retomada do fluxo de visitantes, turistas e peregrinos para Roma, destinado a aumentar até o declínio no outono. Mesmo que o crescimento anormal e descontrolado do turismo tenda a apagar as distinções entre as estações, não é coincidência que a ocasião mais importante em que o Papa fala à cidade e ao mundo, urbi et orbi, seja sobretudo a Páscoa.

No ano passado, Francisco, recuperando-se de semanas cada vez mais difíceis passadas no hospital, pediu que fosse lido o discurso preparado por seus colaboradores. Ele proferiu a bênção solene com dificuldade, assim como vinte anos antes — ainda mais dramaticamente por estar silenciado pela doença — João Paulo II, que faleceria uma semana depois. Então, presságio do fim, o Papa Bergoglio quis ser levado até a praça para uma despedida final à multidão.

Pela primeira vez, o Papa Leão celebrou, segundo a tradição romana, os ritos da Semana Santa. Eles continuam a atrair turistas curiosos e fiéis devotos. Embora Chateaubriand, em 15 de abril de 1829, Quarta-feira Santa, retornando do Ofício das Trevas na Capela Sistina, já alertasse que "a Roma cristã, comemorando a agonia de Jesus Cristo, parecia estar celebrando a sua própria, parecia estar repetindo para a nova Jerusalém as palavras que Jeremias dirigia à antiga".

Roma, uma cidade familiar

Há uma década, Paola Frandini, uma apaixonada conhecedora da cidade vista pelos olhos de escritores e artistas, publicou uma evocativa jornada por Roma através das narrativas dos últimos dois séculos (Il magico recinto, Castelvecchi). Começa com um retrato do voraz consumismo do turismo de massa, com "’trattorias’ em profusão, lanchonetes, pizzarias, supermercados, sorveterias: um hino à alimentação em tempos de dieta, uma orgia de mandíbulas que mastigam, de mesas invadindo as ruas, por sua vez congestionadas por furgões de entrega que abastecem o setor alimentício".

Prevost conhece bem Roma: estudou na cidade quando jovem, foi durante doze anos prior geral da ordem agostiniana, cuja sede fica a dez metros da colunata de São Pedro - o centro do mundo católico, para o qual também muitos não católicos olham - e retornou em 2023. Em uma cidade que lhe é familiar, ele imediatamente quis reviver a prática de seus antecessores de visitar as paróquias romanas, uma prática em tempos mais recentes retomada por Montini e, sobretudo, por Wojtyła.

Mas há mais. Desde os primeiros dias, o papa "enfatizou que Roma é para ele uma coluna de sustentação, um centro estratégico, um polo central para a difusão do Evangelho", escreveu a perspicaz correspondente do Vaticano Franca Giansoldati no Il Messaggero. Por essa razão, Leão XIV, assim como Paulo VI, "diante das câmeras e à luz das tochas, escolheu carregar pessoalmente a cruz de madeira por todas as catorze estações da Via Sacra" no Coliseu, um evento obrigatório durante a Semana Santa em Roma.

Nas origens do cristianismo

Como agostiniano familiarizado com os primeiros séculos do cristianismo, o papa carrega o nome do primeiro grande pontífice cujas homilias foram preservadas — Leão Magno, bispo de 440 a 461 — e conhece bem as memórias do cristianismo romano. Suas origens estão ligadas à presença da mais antiga comunidade judaica na diáspora, dentro da qual nasceu a mais importante igreja do universo cristão. Graças aos missionários judeus, a fé em Cristo se estabeleceu ali, mesmo antes da chegada, após meados do século I, dos dois apóstolos aos quais a Igreja Romana se reporta: Pedro e Paulo.

Um historiador luterano alemão, Peter Lampe, reconstruiu, em um livro agora atualizado na edição espanhola (Los primeros cristianos en Roma, Sígueme), os lugares e as pessoas nas origens do cristianismo na capital do império. Onde muitos pertenciam às camadas mais baixas da sociedade, como escravos, imigrantes e pobres, embora também houvesse membros das classes mais altas, incluindo membros de famílias senatoriais, desde as duas últimas décadas do século I. Por volta de 200, foi precisamente um "escravo brilhante", como o chamou São Mazarino, que foi nomeado administrador da primeira propriedade eclesiástica romana: um cemitério na Via Ápia. Esse homem era Calisto, que deu nome a uma das catacumbas mais visitadas e que mais tarde, entre 218 e 222, tornou-se bispo de Roma, em meio a acaloradas divergências. Ele foi contestado por Hipólito, um refinado intelectual rigorista considerado o primeiro antipapa. O bispo Calisto mostrou-se mais conciliador do que Hipólito, e a intrincada história, agora reconstruída por um jesuíta (Enrico Cattaneo, Papa Callisto, Città Nuova), foi decisiva para a derrota de um conceito da Igreja como grupo de poucos escolhidos: o controverso papa, de fato, a definiu como a arca de Noé, onde todos entram — tanto animais puros quanto impuros — e onde todos encontram abrigo.

A virada calistiana, também em termos da história da propriedade eclesiástica, antecede a era de Constantino e a afirmação progressiva da comunidade cristã. As memórias cristãs de Roma foram posteriormente reconstruídas de forma brilhante — e celebradas com epigramas gravados em elegantes lápides nas principais igrejas — por um papa igualmente incisivo e controverso: Dâmaso, bispo entre 366 e 384, que confiou a Jerônimo uma nova tradução dos Evangelhos que perduraria por dezesseis séculos.

A Igreja romana

Dâmaso e seu filólogo protegido foram figuras tão importantes que círculos dentro da Cúria lateranense atribuíram a eles duas cartas, falsas, para introduzir um texto que se tornou uma referência: o Liber Pontificalis, que, no início do século VI, reuniu as biografias de todos os papas. Coletânea estratificada e continuada por quase mil anos, é uma obra repleta de problemas textuais que a prestigiada Città Nuova Editrice começou agora a publicar — pela primeira vez em italiano — juntamente com o original em latim.

Instrumento de propaganda e apresentação do papado, atualizado em suas últimas redações até a morte de Martinho V em 1431, o Liber Pontificalis é importante sobretudo pela sua impressionante riqueza de dados materiais sobre a Igreja romana. Sua memória se fundamenta principalmente no testemunho dos mártires, cujos nomes ressoam pelo menos desde o final da Antiguidade Tardia no Cânone Romano da Missa, primeiro entre os renovados pela reforma litúrgica pós-conciliar.

Dedicada precisamente aos Mártires de Roma é a imperdível coleção do medievalista Michael Lapidge, publicada pela Mondadori para a Fondazione Valla em três volumes, o segundo dos quais acaba de ser lançado. Quarenta homens e mulheres foram testemunhas – isso significa a palavra grega mártyres – de Cristo em Roma, cujos eventos foram outrora bem conhecidos e cujos nomes ainda são escolhidos para muitos recém-nascidos: Cecília, Lourenço, Susana, Inês, Marcelo, Mário, mas também Sebastião e Clemente. Suas histórias são frequentemente envoltas em lendas com nuances ingênuas e fascinantes, mas a essência é histórica. E, assim como os nomes, são autênticas as datas, os túmulos e as igrejas, continuamente transformadas, mas onde a memória perdura, por vezes iluminada por velas. Numa Roma distraída, mas que continua sendo a "cidade da alma" cantada há dois séculos por Byron.

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