Irmã Leticia Gutiérrez, do Texas: "Migrantes passam até sete meses detidos sem clareza jurídica"

Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil

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07 Abril 2026

Mais de 52 mil pessoas solicitaram asilo no México em 2025, de acordo com a Comissão Mexicana de Assistência aos Refugiados (Comar).

A reportagem é de Paola Calderón, publicada por Religión Digital, 03-04-2026.

A situação migratória na fronteira entre o México e os Estados Unidos encontra-se em um de seus momentos mais críticos. Detenções prolongadas, pressão para incentivar a autodeportação e violações sistemáticas dos direitos humanos estão entre as principais preocupações dos migrantes.

Essas são situações que a Igreja acompanha constantemente. A Irmã Leticia Gutiérrez Valderrama, freira scalabriniana cuja missão em El Paso, Texas, é acompanhar os detidos ou acusados ​​de crimes graves relacionados ao processo de imigração, explica desta forma. Ela realiza essa missão em sua função de diretora executiva do Ministério de Acolhimento de Migrantes (MHM) da Diocese de El Paso.

Sua vocação, observa ela, tem raízes profundamente pessoais. A freira vem de uma família marcada pela migração interna no México, uma realidade que vivenciou durante a infância sem compreendê-la completamente. Somente ao ingressar na comunidade Scalabriniana, ela percebeu que sua própria história estava intrinsecamente ligada ao fenômeno da migração.

Ela recorda que seus irmãos emigraram muito jovens, sendo considerados menores desacompanhados na atualidade. Essa experiência familiar foi crucial para a descoberta de sua vocação, voltada para o trabalho missionário junto a pessoas em situação de deslocamento forçado.

Em 2007, foi nomeada secretária executiva da Dimensão Pastoral da Mobilidade Humana da Conferência Episcopal Mexicana. Em 2013, fundou a Missão Scalabriniana com Migrantes e Refugiados (SMR) na Cidade do México, dedicada ao apoio e acompanhamento de migrantes e refugiados, uma iniciativa que surgiu em um contexto particularmente complexo.

Regras não seguidas

Segundo a mulher consagrada, naqueles anos começaram a ser registrados numerosos casos de migrantes que sobreviveram a tentativas de homicídio ou foram vítimas de crimes como sequestro e tortura.

Assim, eles criaram essa organização com um duplo objetivo: “acompanhar as vítimas da violência associada à migração e apoiar os defensores dos direitos humanos que, por causa de seu trabalho, também foram perseguidos, ameaçados e até forçados a se deslocar”.

Esta iniciativa fortaleceu o compromisso pastoral e social da comunidade, além de oferecer uma resposta concreta da Igreja a uma realidade marcada pela violência e pela vulnerabilidade dos migrantes.

A Irmã Letícia realiza sua missão em uma das áreas mais sensíveis da fronteira dos EUA. Lá, ela acompanha migrantes detidos em batidas policiais ou interceptados pelas autoridades de imigração.

Segundo seus depoimentos, a situação que muitos deles estão vivenciando é extremamente difícil. “Embora as normas estabeleçam que os migrantes não devem permanecer em centros de detenção por mais de 90 dias, na prática essa regra é frequentemente violada.”

Caminho incerto

Segundo ele, existem casos em que "as pessoas permanecem por cinco, seis ou até sete meses sem clareza sobre sua situação legal ou sem informações sobre seus processos de imigração e judiciais".

A isso se soma a pressão que muitos detidos sofrem nos centros para aceitarem a autodeportação. Como explica Gutiérrez, “os agentes de imigração pressionam as pessoas a assinarem documentos que implicam a renúncia aos seus direitos legais, o que significa que devem retornar voluntariamente aos seus países de origem. Para os migrantes, isso significa perder o caminho legal que haviam iniciado em busca de refúgio ou regularização.”

Outro aspecto preocupante são as condições dentro dos centros de detenção de migrantes. Gutiérrez os descreve como “espaços com poucas oportunidades de lazer, onde as pessoas passam a maior parte do tempo nas mesmas áreas onde comem, dormem e vivem juntas. Em alguns casos, elas têm até mesmo acesso limitado ao exterior”.

A isso se soma o número de mortes registradas nesses centros. Segundo dados compilados pela freira, “em 2025, foram identificadas pelo menos 32 mortes de migrantes sob custódia do sistema de detenção de imigração. Até o momento, em 2026, foram relatadas mais seis, elevando o total para 38 mortes durante o atual governo”.

Pessoas próximas às vítimas

Em sua opinião, esses números refletem uma situação que pode levar a graves violações dos direitos humanos. Alguns dos casos, afirma ele, “estão associados a condições extremas de detenção e até mesmo a episódios de violência relatados por organizações de defesa dos direitos dos migrantes”.

O panorama é sombrio, mas a Igreja mantém uma presença próxima entre os afetados. A freira recorda que os bispos dos Estados Unidos emitiram uma mensagem pastoral expressando sua preocupação com o medo, a angústia e a incerteza vivenciados pelos migrantes, tanto os sem status legal quanto os com status legal.

Ela destaca que “a criminalização da migração não se limita àqueles sem documentos. Em muitas batidas policiais, pessoas com processos de imigração pendentes ou mesmo com autorizações legais também foram detidas”. Ela também denuncia como algumas detenções têm um componente racial, que afeta particularmente os latinos.

A Igreja está presente em centros de detenção, espaços comunitários e manifestações públicas. Para Gutiérrez, “o papel da Igreja deve ser o de uma comunidade que não abandona aqueles que sofrem. Neste momento, além de sermos prudentes, não podemos deixar de estar ao lado das vítimas”.

Uma nova consciência

A política de imigração do governo Trump gerou forte polarização na sociedade americana. No entanto, a freira acredita que eventos recentes, incluindo as mortes de cidadãos americanos que provocaram indignação pública, estão despertando uma nova consciência em setores da população que começam a questionar a implementação dessas políticas.

Apesar de reconhecer que fenômenos como racismo, xenofobia e aporofobia estão presentes no debate público, a freira afirma que "a crise atual pode abrir oportunidades para uma reflexão mais profunda sobre o papel dos migrantes na sociedade, porque a prioridade é responder à emergência humanitária".

Em meio às prisões e incertezas para os migrantes, a Irmã Leticia Gutiérrez Valderrama, ou Lety, como é chamada pelos amigos, continuará acompanhando aqueles que buscam dignidade e proteção, enfrentando um dos desafios humanitários mais complexos da região: a migração.

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