20 Março 2026
A agricultura industrial e as guerras “compartilham origens e visões comuns: são armas de ataque, seja contra as pessoas ou contra plantações e árvores, caso cruzem seus objetivos”, escreve Silvia Ribeiro, jornalista e pesquisadora uruguaia, em artigo publicado por Desinformémonos, 18-03-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Israel tenta exterminar as bases alimentares da população libanesa para a obrigar se deslocar ou morrer. Para isso, fumiga suas plantações com glifosato, um agrotóxico declarado cancerígeno pela OMS e o mais utilizado em cultivos transgênicos e outros, na América Latina e no mundo. Também a ataca com fósforo, outro componente essencial dos agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
No dia 4 de fevereiro de 2026, o governo do Líbano denunciou que Israel está fumigando o Sul do Líbano com glifosato como forma de matar suas plantações e forçar a população a abandonar suas terras e casas. Isto se soma às denúncias anteriores da Anistia Internacional sobre o uso intencional de fósforo branco como arma pelo Exército israelense em várias regiões do Líbano, desde 2023, com saldo de mortes e feridos permanentes. No início de março de 2026, a Human Rights Watch verificou novos ataques recentes de Israel com fósforo branco como arma incendiária, em Yohmor, também no sul do Líbano.
É importante ressaltar que esta é apenas uma parte dos inúmeros ataques contra a população civil que fazem parte do genocídio que Israel comete em Gaza e expande por toda a região, agora com furor no Líbano, ao mesmo tempo em que seu protetor Trump e os Estados Unidos atacam escolas e a população civil no Irã.
Não é a primeira vez que utilizam agroquímicos com fins bélicos, entre outros, para matar plantações e árvores. Os Estados Unidos usaram o Agente Laranja como desfolhante e o napalm como agente incendiário em sua guerra imperialista contra o Vietnã. Agora, Israel usa glifosato e fósforo branco para os mesmos fins. O Agente Laranja, produzido para a Guerra do Vietnã pela Monsanto (agora Bayer) e a Dow (agora Corteva), foi composto por dois elementos que eram usados como agrotóxicos na agricultura industrial. Um deles, o 2,4-D, ainda é usado atualmente. A Bayer-Monsanto produz cultivos transgênicos resistentes a esse agrotóxico e a glifosato, entre outros.
O uso de glifosato para matar intencionalmente plantações no Líbano, assim como o uso de fósforo - principal ingrediente desse agrotóxico e outros organofosforados e de fertilizantes sintéticos -, é uma demonstração cruel de como a agricultura industrial e as guerras estão interligadas. Compartilham origens e visões comuns: são armas de ataque, seja contra as pessoas ou contra plantações e árvores, caso cruzem seus objetivos.
Significativamente, em 18 de fevereiro de 2026, Trump emitiu uma ordem executiva declarando o glifosato e o fósforo elementos de segurança nacional, motivo pelo qual sua produção deve ser garantida. As empresas que os produzem, como a Bayer-Monsanto, não poderão ser processadas pelos danos que causam. Esta ordem executiva tem inúmeras repercussões e um grande alcance: foi criada para proteger os interesses das corporações do agronegócio, especialmente da Bayer-Monsanto, bem como sua colaboração para fins militares. Em outro artigo, Trump, glifosato como arma de guerra, detalho essas implicações.
No marco do corolário Trump à Doutrina Monroe, reafirmando que os Estados Unidos consideram nosso continente como seu quintal, fornecedor de matérias-primas e consumidor de seu lixo industrial, essa ordem possui amplas repercussões na América Latina. É uma ameaça a qualquer governo que tente afetar os interesses das transnacionais do agronegócio, por exemplo, restringindo o uso de glifosato e cultivos transgênicos a ele associados, entre outros.
A Bayer-Monsanto, juntamente com a Corteva, a Syngenta e a BASF, controla 99% dos cultivos transgênicos, além de dois terços da produção global de agrotóxicos e mais da metade de todas as sementes comerciais. A Monsanto (agora Bayer) também detém o monopólio da produção de fósforo branco para uso bélico. Por isso, Michael Hansen, cientista da organização Consumer Reports, dos Estados Unidos, renomado especialista na pesquisa dos impactos da indústria química e agroalimentar, explica que a ordem se dirige tanto a garantir os interesses das empresas e da agricultura industrial quanto para fins militares.
Apenas três empresas dos Estados Unidos estão associadas à fabricação, armazenamento e exportação de munições de fósforo branco: Pine Bluff Arsenal, Monsanto-Bayer e a ICL Group (antes conhecida como Israel Chemicals Ltd.). A Pine Bluff Arsenal (PBA), propriedade dos Estados Unidos, foi criada com a missão de fornecer armas químicas para seu uso na Segunda Guerra Mundial. Atualmente, a PBA é a única empresa no hemisfério norte que preenche munições com fósforo branco.
A Monsanto, que tem uma longa história de trabalho com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (no Vietnã, entre outras guerras), é a única fabricante estadunidense de fósforo branco naquele país e é quem, há décadas, fornece à Pine Bluff Arsenal a matéria-prima para a fabricação desse tipo de munição.
A terceira empresa envolvida é a ICL Group, explica Hansen, que possui uma fábrica de produtos químicos nos Estados Unidos, em St. Louis, Missouri, onde também está a sede da Bayer-Monsanto, com quem trabalha em estreita colaboração. A empresa matriz da ICL Group fica em Israel e se dedica à extração de fosfatos e venda de fertilizantes. Acredita-se que a ICL Group nos Estados Unidos é quem proporciona fosfatos à Bayer-Monsanto utilizados na produção de fósforo branco.
Pouco depois do ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, a Human Rights Watch registrou o uso de munições de fósforo branco em Gaza e no Líbano. Ao mesmo tempo, a Anistia Internacional registrou que Israel utilizou munições de fósforo branco provenientes da Pine Bluff Arsenal.
O uso dessas substâncias tóxicas nas guerras genocidas de Israel e dos Estados Unidos são crimes de guerra. O uso contínuo de glifosato e outros agrotóxicos em nosso sistema agroalimentar, elementos-chave do pacote da agricultura industrial que destrói meio ambiente e saúde e mina a soberania alimentar, também deve ser considerado um crime.
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