Um apelo à consciência. Artigo de Blase J. Cupich

Foto: Anadolu Ajansi

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10 Março 2026

A divulgação, nos canais oficiais da Casa Branca, de um vídeo sobre a guerra no Irã — que mistura cenas de filmes de ação populares com imagens reais dos ataques — provocou indignação do bispo de Chicago, Cardeal Blase Cupich. Em 7 de março, Cupich publicou uma declaração no site da diocese denunciando a crise moral refletida no vídeo e instando a uma resposta: "Uma guerra real, com mortes e sofrimento reais, tratada como se fosse um videogame: é repugnante. (...) A crise moral que enfrentamos não se resume à guerra em si, mas também à forma como nós, como espectadores, encaramos a violência, porque a guerra agora se tornou um esporte para espectadores ou um jogo de estratégia."

O artigo é de Dom Blase J. Cupich, cardeal-arcebispo de Chicago, publicado por Settimana News, 07-03-2026.

Eis o artigo.

Enquanto mais de mil homens, mulheres e crianças iranianos jaziam mortos após dias de bombardeio com mísseis americanos e israelenses, a conta oficial da Casa Branca no X, publicou um vídeo na noite de quinta-feira que misturava cenas de filmes de ação populares com imagens reais de ataques na guerra contra o Irã. O vídeo era acompanhado da legenda: "Justiça à moda americana".

Uma guerra real, com mortes e sofrimento reais, tratada como um videogame: é repugnante. Centenas de pessoas morreram — mães e pais, filhas e filhos — incluindo dezenas de crianças que cometeram o trágico erro de ir à escola naquele dia. Seis soldados americanos foram mortos. Eles também estão sendo desonrados por essa publicação nas redes sociais. Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas e muitos milhões vivem aterrorizados no Oriente Médio.

Essa representação arrepiante demonstra que vivemos em uma época em que a distância entre o campo de batalha e a sala de estar foi drasticamente reduzida.

A crise moral que enfrentamos não diz respeito apenas à guerra em si, mas também à forma como nós, espectadores, encaramos a violência, pois a guerra se tornou um esporte para espectadores ou um jogo de estratégia. Não é coincidência que a Kalshi — um mercado de previsões (uma plataforma onde os usuários compram e vendem "contratos" com base nos resultados futuros de eventos de qualquer tipo — nota do editor) — tenha pago recentemente um acordo de US$ 2,2 milhões após protestos de usuários insatisfeitos com a forma como a empresa pagou os US$ 55 milhões apostados na deposição do Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, após seu assassinato.

Jornalistas agora usam o termo "gamificação" da guerra para descrever essa dinâmica. É uma profunda falha moral, porque a gamificação apaga a humanidade das pessoas reais. Não nos esqueçamos: um "sucesso" não significa marcar pontos no placar; significa uma família enlutada, cujo sofrimento ignoramos quando colocamos o entretenimento e o lucro acima da empatia.

Nosso governo está tratando o sofrimento do povo iraniano como pano de fundo para nosso entretenimento, como se fosse apenas mais um conteúdo para rolar na tela enquanto esperamos na fila do supermercado.

Em última análise, perdemos nossa humanidade quando nos deixamos seduzir pelo poder destrutivo das nossas forças armadas. Tornamo-nos viciados no "espetáculo" das explosões. E o preço desse hábito é quase imperceptível, porque nos tornamos insensíveis aos verdadeiros custos da guerra. Mas quanto mais tempo permanecermos cegos às terríveis consequências da guerra, mais colocaremos em risco o dom mais precioso que Deus nos deu: a nossa humanidade.

Sei que o povo americano é melhor do que isso. Temos bom senso suficiente para entender que o que está acontecendo não é entretenimento, mas sim guerra, e que o Irã é uma nação de pessoas, não um videogame que outros gostam de jogar para nos entreter.

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