09 Março 2026
A onda internacional de ódio contra as mulheres exige uma resposta. Quais são as ideias mais eficazes? Este é um dos debates que permeiam o feminismo. Dez pensadoras ajudam a iluminar o caminho.
O artigo é de Carmen Pérez-Lanzac, publicada por El País, 08-03-2026
Carmen Pérez-Lanzac é escritora, coordena entrevistas e a pré-publicação do suplemento "Ideias" do EL PAÍS. Anteriormente, cobria temas sociais e entrevistava figuras da cultura. É licenciada em Economia pela Universidade Complutense de Madrid e possui mestrado em Jornalismo pelo El País. Bolsista do Programa German Marshall.
Eis o artigo.
Imagine uma cômoda cheia de gavetas. Muitas estão bagunçadas, negligenciadas; algumas guardam sujeira, outras segredos escuros, até mesmo perversos. A vida é um pouco como essa cômoda. E nenhum outro movimento abriu tantas dessas gavetas quanto o feminismo. “É a grande revolução do século XXI”, resume a jornalista Luciana Peker, que fugiu da Argentina e do libertarianismo de Milei e agora vive na Espanha.
As pessoas selecionadas pela Ideas como as pensadoras contemporâneas mais influentes sobre igualdade refletiram sobre uma ampla gama de tópicos e suscitaram debates profundos. Em muitos países, como a Espanha, o feminismo se dividiu entre aqueles que incluem mulheres trans e não binárias e aqueles que querem permanecer na linha de frente em defesa das mulheres cisgênero. Mas seu maior problema hoje transcende essa divisão interna: são os ataques que enfrenta de todos os lados, alimentados pelo totalitarismo. Essa reação tem sido a norma desde o início do movimento, mas uma das primeiras mulheres a alertar sobre a reação antifeminista em 1991, a americana Susan Faludi, afirma que o ataque atual é “sem precedentes”.
Enquanto a internet alimenta a misoginia, o feminismo perde força entre os jovens espanhóis de 15 a 29 anos. Hoje, apenas 38,4% deles se declaram a favor da igualdade, em comparação com 49,9% em 2021 (Fad Juventud, 2025). Enquanto isso, a extrema-direita continua a explorar o feminismo para promover políticas xenófobas, como apontou a socióloga italiana Sara R. Farris. “É isso que o Vox faz quando ataca mulheres por usarem o niqab ou a burca, em vez de atacar quem as obriga a usá-los”, afirma Máriam Martínez-Bascuñán.
Em um cenário de inegável retrocesso, perguntamos a doze feministas quais são, em sua opinião, as questões que precisam ser abordadas com urgência.
Como o movimento deve responder ao antifeminismo?
Há quase dois anos, Judith Butler, a principal pensadora da lista de Ideias, publicou Quem Tem Medo do Gênero? (Paidós, 2024). Antes do segundo mandato de Trump, a intelectual apontou para a caça às bruxas em curso nos EUA, alimentada pela defesa dos papéis tradicionais das mulheres e pelo assédio ao movimento feminista, caricaturado por sua defesa das pessoas transgênero. A arqueóloga espanhola Almudena Hernando, autora de Mulheres, Homens, Poder: Subjetividades em Conflito (2015, Traficantes de Sueños), observa que o que é particularmente impressionante desta vez é o desprezo pelas mulheres. "Não só isso", diz ela por telefone. "Alimenta-se do trabalho que elas fazem, mas sem reconhecê-lo." Para ela, entramos em uma nova fase histórica. E estamos fazendo isso com um sério problema estrutural: as redes sociais substituíram a interação humana. "É urgente revitalizá-la."
Luciana Peker, autora de Odiocracia: At the Back on the Right (2026, Libros del KO), fala de um “neoliberalismo turbo-neoliberal feudal e misógino” que está substituindo o sistema em que o mundo se estabeleceu após o horror do Holocausto. Ela também defende o retorno aos encontros presenciais. Diante dessa cultura internacional de ódio, ela indica que “os feminismos populares do Sul Global oferecem reparação, ajudando a imaginar um mundo que não seja um poço de violência, mas um lugar de encontro”. A filósofa argentina Tamara Tenenbaum, autora de Um Milhão de Quartos Só para Si (Paidós, 2025), acrescenta que as mulheres devem continuar a incluir novas pessoas na conversa: homens, pessoas sexistas… “Será angustiante e desafiador, mas devemos continuar a propor ideias onde não somos bem-vindas”.
Então, como o feminismo deve se expressar? Em que tom?
Para Alicia Puleo, ecofeminista e professora de Filosofia Moral, a abordagem adequada seria encontrar uma maneira de fazê-lo que não acirre ainda mais as tensões. “Conceitualizar, passar da anedota para a categoria, é politizar. E temos que conceitualizar com calma, como apontou Celia Amorós [escolhida aqui como a sétima feminista mais influente]”. No entanto, como enfatiza Judit Carrera, diretora do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, não podemos esquecer que a voz pública global permanece nas mãos dos homens “em todas as esferas”, afirma ela por telefone. Portanto, evitando assim mais tensões, as mulheres devem fazer-se ouvir.
Susan Faludi tinha 32 anos quando descreveu, em seu livro "Backlash: The Undeclared War Against Modern Woman" (relançado em 2025 pela Península), a reação negativa que se seguiu às frágeis conquistas da igualdade na década de 1970. Hoje, ela acredita que o feminismo precisa ir além dos debates teóricos sobre gênero e identidade e se concentrar nos direitos das mulheres, que estão sendo apagados, explica por e-mail. A vencedora do Prêmio Pulitzer incentiva a mobilização em torno dos direitos reprodutivos, da discriminação sexual e da violência sexual — áreas que foram severamente prejudicadas. É imprescindível que as organizações se concentrem em objetivos específicos, seja no combate à pobreza feminina ou na garantia do acesso ao aborto, afirma. "Não vamos nos distrair com o desejo de ser uma 'boa menina' e de agradar a todos." Ela aponta para ações concretas que, em sua opinião, precisam ser expandidas com urgência: a campanha nos EUA que promove leis de proteção, como as que permitem que médicos forneçam pílulas abortivas em estados onde a prática é proibida; ou a sindicalização de trabalhadoras para reivindicar direitos, como os conquistados por trabalhadoras domésticas de baixa renda. Faludi expressa admiração pela “onda verde” latino-americana de 2018. Ela afirma que é um exemplo de mobilização pragmática e local em torno da equidade em saúde e economia para alcançar progressos concretos. Em resumo, precisamos retornar aos fundamentos, desenvolver estratégias práticas e nos organizar desde a base para reivindicar direitos.
É possível acabar com a violência de gênero?
A violência física e sexual contra as mulheres é o ruído de fundo do nosso dia a dia. Só em 2026, em Espanha, já foram assassinadas 10 mulheres, um rapaz de 10 anos e uma rapariga de 12 anos vítimas de violência de género e violência vicária. Seis raparigas com menos de 13 anos são abusadas sexualmente todos os dias; são cometidos 14 violações contra mulheres de todas as idades a cada 24 horas, segundo dados de 2025 do Ministério do Interior. Um em cada dez violações é cometido por rapazes entre os 14 e os 17 anos. Muitos pensadores têm tentado aprofundar-se nesta terrível ferida coletiva, que é global e não dá sinais de abrandar.
Em 2013, a antropóloga argentina Rita Segato — escolhida aqui como a quinta pensadora mais influente — visitou um local emblemático do sofrimento feminino: Ciudad Juárez, no México, onde o ditado "corpo de mulher: perigo de morte" se torna uma dura realidade. Durante a escrita de Os Escritos nos Corpos das Mulheres Assassinadas em Ciudad Juárez (2014) e A Guerra Contra as Mulheres (2016), várias coisas ficaram claras para Segato: o terror constante que vivenciou ali, a censura que enfrentou (enquanto concedia uma entrevista, o sinal de televisão caiu, afetando toda a cidade) e a sensação de que tudo se desenrolava dentro de uma máquina silenciosa e perfeitamente azeitada de tortura, estupro — por vezes "tumultuoso" — e assassinato de mulheres. Segato chegou a uma conclusão: "O estupro não é um ato sexual; é um ato de poder, de dominação; é um ato político."
Agora, vamos avançar para 2024. Uma francesa de 72 anos, Gisèle Pelicot, dá sentido ao conceito cunhado por Segato. Pelicot foi estuprada durante 10 anos por pelo menos 51 homens enquanto permanecia sedada durante sessões orquestradas por seu marido, que usava a internet para organizá-las. Essa mulher faz algo revolucionário. Ela comparece perante o tribunal e declara que rejeita o anonimato que a lei oferece a vítimas como ela. "A vergonha precisa mudar de lado."
Manon Garcia, filósofa francesa e autora de Não Nascemos Submissas, Tornamo-nos Submissas (Siglo XXI, 2021), acompanha o julgamento. Ela quer mergulhar em um caso que considera paradigmático. Nota a estreita relação entre os estupradores, como escreve em Viver com Homens (Akal, 2025). O caso, diz ela, é a ponta do iceberg de uma “questão urgente e terrível: É possível viver com homens?”. No início do livro, cita Marguerite Duras: “Devemos amar muito os homens. Amá-los muito por amá-los. Sem isso, não é possível; não podemos suportá-los”. Mas, ao final do julgamento, esboça outra conclusão: “Começo a pensar que o necessário é que eles amem um pouco as mulheres. Só um pouquinho. Que nos amem para que possamos continuar a amá-los”.
Garcia acredita que, para mudar a visão objetificadora das mulheres, as crianças precisam aprender sobre autonomia corporal e consentimento. Devemos “erotizar a igualdade em vez da dominação”, afirma ela por e-mail. “Podemos pensar com alegria sobre prazer e desejo e perceber o quão sexy e prazeroso é o consentimento.” Alcançar essa mudança de percepção exige um esforço público amplo e determinado em educação sexual e relacionamentos. Laura Bates, ativista britânica especializada em sexismo, ela própria vítima de ameaças constantes e deepfakes sexuais devido ao seu ativismo, tem reiteradamente declarado a necessidade urgente de educação sexual de qualidade, devidamente financiada e ministrada por professores qualificados, a partir do ensino fundamental. Considerando que, em 2020, a Save the Children concluiu que, na Espanha, mais da metade das crianças havia recebido apenas entre uma e quatro horas de educação sexual, temos uma noção da magnitude e da urgência dessa questão.
O feminismo deveria abarcar todos os movimentos contra a desigualdade?
Hoje, surge um novo debate dentro do feminismo espanhol. Algumas vozes da América Latina reivindicam duas coisas. Primeiro, pedem que o movimento se abra a pessoas de outras partes do mundo, a pessoas negras, a mulheres de classes socioeconômicas mais baixas e, em geral, a todas as pessoas marcadas por diversas intersecções de experiências. Foi em 1989 que a advogada afro-americana Kimberlé Crenshaw apontou que as múltiplas desigualdades criam desigualdades concretas e que todos nós somos afetados por muitas dessas desigualdades. Uma mulher negra sofre discriminação por ser mulher e também por ser racializada. No entanto, argumentam elas, essa ideia não permeou o feminismo em praticamente nenhum outro contexto.
Por outro lado, pedem algo novo ao movimento, algo revolucionário: que, além de acolher pessoas não binárias, ele se torne também uma força motriz para combater outras desigualdades. Que defenda também imigrantes indocumentados, ativistas climáticos e movimentos pacifistas. “O feminismo é a raiz de muitos outros movimentos”, afirma Luciana Peker. Desde a explosão do #NiUnaMenos na Argentina em 2015 e, em seguida, em 2018, a Onda Verde pelo aborto legal, o feminismo é um movimento que “impulsiona”. Não se trata apenas de uma luta por sua própria agenda, afirma ela, mas de uma luta que desperta e impulsiona outros movimentos sociais. “É um movimento que gera ondas, que acredita em um mundo melhor. É algo mais ambicioso do que a agenda feminista. É um movimento social interseccional que considera todas as desigualdades.”
No entanto, na Espanha, na Europa e também na América Latina, o feminismo hegemônico — a corrente centrada nas experiências de mulheres brancas, ocidentais, profissionais e urbanas — continua a predominar, afirma a ativista antirracista chilena Paula Cáceres. É necessário mais feminismo com uma perspectiva decolonial, diz ela. “É isso que faz a diferença.” “O feminismo precisa refletir, incorporar feminismos raciais e indígenas. As feministas racializadas precisam estar na luta. Na Espanha, fazem certas concessões para nós, mas só para que paremos de reclamar”, acrescenta. Uma feminista que se viu a vida toda como um sujeito oprimido precisa se abrir para se ver como opressora, destaca Cáceres. É algo que precisamos fazer: nos abrir para compreender os privilégios que todos temos. “Eu, eles, todos. E você também.”
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