07 Março 2026
"Uma página de bibliografia para estudos adicionais encerra este esplêndido volume, escrito com uma pena leve e saborosa, feminina e fascinante, que nos acompanha no voo de uma águia para sobrevoar o plano salvífico de Deus atestado na Bíblia: um Deus não apenas de nossos pais, mas também um Deus de nossas filhas!", escreve Roberto Mela, teólogo e professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 06-03-2026.
Eis o artigo.
A contraparte do popularíssimo livro "O Deus de Nossos Pais". A ideia partiu de Rosanna Virgili, casada, formada em Literatura e Filosofia e licenciada em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, professora de Exegese no Instituto Teológico Marchigiano, palestrante requisitada e autora de diversos comentários sobre os Evangelhos, as Epístolas Paulinas e os Escritos Proféticos (frequentemente em colaboração com outros exegetas).
O início das palavras
A primeira parte do volume é dedicada ao início das palavras (Gênesis e Êxodo, pp. 11-60).
Virgili rebelou-se contra a ideia de que o Deus dos cristãos é percebido como um deus guerreiro, muito "masculino", autor de inúmeros feitos bélicos, origem de genealogias de reis e homens poderosos em atos e palavras em benefício de seu povo, Israel.
Com um voo gracioso e fascinante, leve e profundo ao mesmo tempo, ela sobrevoa toda a biblioteca bíblica em busca de figuras femininas que, segundo ela, desempenham um papel muito importante – e muitas vezes decisivo – na continuidade da existência de Israel e no cumprimento do plano de salvação de Deus, lançando luz sobre elas.
Muitos dos breves capítulos escritos por Virgili são acompanhados por textos de poemas e canções de cantores e compositores que integram de forma lírica esplêndida o que é dito na prosa do autor.
YHWH transmite vida e continuidade histórica através da recepção de sua palavra e de sua graça por mulheres atentas, inteligentes, trabalhadoras, corajosas e abertas à vida. São mulheres que geram vida, que a protegem com amor e grande sensibilidade, que utilizam sua feminilidade para evitar guerras, resolvê-las em favor de Israel e alcançar a verdade e a restauração da justiça que lhes foi negada. São instrumentos proféticos para expor as falsidades e duplicidades da vida, frequentemente encontradas nos altos escalões da sociedade civil, militar e até mesmo religiosa de seu povo.
Eva gera vida e é curiosa; ela quebra as regras, mas continua a linhagem. Naamá é a esposa silenciosa de Noé, enquanto inúmeras esposas dos "mestres" Abraão e Isaque: Sara, Agar e Quetura. Sara é uma esposa implacável, que acelera o cumprimento da promessa de Deus enquanto explora sua escrava Agar. No entanto, Agar é protegida e salva junto com seu filho pequeno, Ismael, no deserto inóspito, que também oferece uma fonte de água providencial.
Depois de Quetura, outra esposa de Abraão, vêm Rebeca, Raquel e Lia, "mães de Israel". YHWH revela-se como o Deus das filhas.
Rebeca não se subjuga, mas escolhe livremente ir com o marido, para longe da casa de seu pai.
Raquel se apaixona por Jacó, que também se casará com Lia, de olhar sem brilho... Não faltarão lutas amargas e divisões dentro da linhagem, mas o primeiro filho de Raquel, José, salvará toda a família da morte por inanição.
No Antigo Testamento, as mulheres não eram donas de seus próprios corpos, que pertenciam ao pai (às vezes até ao irmão mais velho) e, após o casamento, ao marido. Mas as coisas podem mudar, argumenta Virgili.
A Bíblia também registra relacionamentos perigosos. Siquém estupra Diná (cf. Gênesis 34), e a tribo de Benjamim é quase dizimada pela vingança das outras tribos.
Uma história sombria e triste: as filhas de Ló caem em incesto (cf. Gn 19,31-36), mas é a única maneira de continuar a linhagem, mesmo sabendo que Amom e Moabe serão os inimigos históricos de Israel. Deus está do lado das filhas, em todo caso.
Outro ato de incesto é cometido conscientemente por Tamar (cf. Gênesis 34), disfarçada de prostituta, para obter justiça pelo casamento e maternidade que lhe haviam sido negados traiçoeiramente por seu cunhado Judá.
O futuro vem das filhas. Jacó tem doze filhos, mas o futuro vem das filhas, das treze "mães" de Israel. Para Moisés sobreviver, ele precisa de treze mulheres: as parteiras Sifrá ("Beleza") e Puá ("Esplendor"), sua mãe Joquebede e sua irmã Miriã, filha do faraó — chamada Bitya no Midrash Shemot Rabbah, 18 — e sua serva, as sete irmãs, filhas de Jetro, cuja Zípora se tornará esposa de Moisés (cf. Êxodo 1–2).
"Il Dio delle nostre figlie: Maria e le altre", de Rosanna Virgili (Ancora, 2025).
As filhas da terra
A supervisão de Virgili concentra-se na segunda parte do volume sobre as Filhas da Terra (pp. 61-136). A história de juízes, reis e rainhas.
As reflexões sobre a bela e vasta terra de Israel são esplêndidas e, tragicamente, oportunas. Não faltam críticas mordazes ao atual governo israelense.
A prostituta Raabe acolhe e resgata em Jericó os dois espiões israelitas enviados à frente para explorar a região (cf. Josué 2). Com fé, ela reconhece a grandeza da obra de YHWH em favor do seu povo, libertado do Egito. Ela encontrará a salvação graças a uma pequena faixa de tecido vermelho deixada pendurada em sua casa nos muros da cidade.
Terra doada ou conquistada? É uma terra dada a Israel em usufruto, não em propriedade, nunca com uma promessa incondicional. Uma terra onde terão de coexistir com outras populações já residentes e não destruídas por YHWH… Lembremo-nos de que YHWH afirma claramente: "A terra é minha" (Levítico 25,23). Estas palavras despertam a curiosidade dos nossos "pais" genocidas, contra os quais Virgili fala de forma muito clara e direta, mencionando-os pelo nome.
Israel é uma terra tanto dada quanto conquistada — as páginas 65-70 são muito importantes — uma terra onde flui o mel da juíza Débora ("Abelha") e o leite com o qual a corajosa Jael, com astúcia e sedução feminina, mata o general inimigo Sísera (cf. Jz 4). A mãe do general espera ansiosamente, grudada à janela e sustentada pelo consolo inútil de sua família, mas seu filho jamais retornará, morto por uma mulher "fraca"... (cf. Jz 5).
Um exemplo de juventude desperdiçada é a da filha do juiz Jefté (cf. Jz 11), um guerreiro megalomaníaco que busca compensar seu nascimento com uma prostituta por meio de façanhas militares imprudentes, resultando na marginalização de sua família. Seu voto a Deus é imprudente e insensato. A primeira pessoa a sair de casa para encontrá-lo é sua filha, e ela deve ser morta, após vagar pelo deserto com suas amigas lamentando a perda de sua virgindade e de sua vida.
A história horrível da esposa do levita (Juízes 19) é estarrecedora. Estuprada e assassinada pelos siquemitas, seu marido a esquartejou em doze pedaços, que foram enviados às tribos para vingá-la. A tribo de Benjamim corria o risco de desaparecer e, por isso, foi forçada a estuprar as virgens de Siló (Juízes 21) — filhas que deram à luz — para compensar a falta de jovens para casar, já que elas haviam morrido no trágico ato de vingança. As outras tribos, inclusive, haviam jurado não dar suas filhas em casamento aos sobreviventes de tamanha atrocidade, algo inédito em Israel!
A história de Rute (a "amiga") é fascinante, na qual a moabita pagã — que, convém lembrar, não poderia ter entrado nas tribos de Israel nem mesmo na décima geração! (Deuteronômio 23,4) — é "unida" (dabaq) à sua sogra Noemi ("Doçura") e dá à luz Obede, avô de Davi. Rute, de fato, encontra providencialmente o redentor Boaz, que combina, de forma um tanto incisiva, o direito de resgate de bens e pessoas perdidas ou vendidas por necessidade com a instituição legal do levirato. O amor entre duas mulheres dá continuidade à história. Rute, "unida" a Noemi, pode então ser resgatada e casar-se com o segundo redentor da lista. Providência de YHWH, certamente, mas há também a sedutora engenhosidade feminina daquela jovem sinuosa e perfumada naquela noite na eira durante a colheita da cevada... Uma noite mágica.
Os livros de Samuel e Reis oferecem uma galeria de protagonistas femininas. Mulheres e tronos estão intrinsecamente ligados.
O choro de Ana no santuário de Siló é inconsolável (1 Samuel 1-2). "Por que você está chorando?", pergunta-lhe ingenuamente seu marido Elcana. Mas ele não consegue compensar com seu amor a falta de filhos e o constante ridículo que Ana sofre por parte de Penina, a segunda esposa de Elcana. Julgando Ana como embriagada, o sacerdote Eli se faz de tolo, como era típico dos sacerdotes, mas, no fim, ele a abençoa, e ela dará à luz o grande profeta Samuel.
A esposa de Fineias dá à luz seu filho Icabode sem alegria ("Sem glória") (1 Samuel 4).
Mical é filha de Saul, um rei de posição inferior. Casada por amor a Davi, sua existência sem filhos terminará amargamente por tê-lo desprezado enquanto dançava seminua diante da arca de YHWH. A história deles é uma história de amor sem compreensão mútua (cf. 1 Samuel 18-19; 2 Samuel 6).
Abigail é a tutora, a esposa sábia e previdente de um homem completamente estúpido, Nabal ("Tolo"). Presságio. Com a perspicácia tipicamente feminina, ela cobre Davi de presentes de comida, tendo protegido os rebanhos do marido de uma maneira um tanto mafiosa. Ela se tornará sua esposa — uma entre muitas — depois que o tolo Nabal morrer de um ataque cardíaco (cf. 1 Samuel 25).
A Pitonisa de Endor (1 Samuel 28) é a esposa do desesperado. O rei Saul ordena que ela convoque o profeta Samuel, já falecido, para que este peça conselho a Javé sobre o seu futuro. A mulher atende ao pedido, oferecendo-lhe inclusive pão e carne para aliviar sua fraqueza mortal. Contudo, tudo terminará em breve com a morte (ou suicídio) de Saul no Monte Gilboa (cf. 1 Samuel 31).
O amor de Bate-Seba, esposa de Urias, o hitita, é roubado (2 Samuel 11-12). É roubado pela violência de um rei dominado pela perversa preguiça vespertina que o transforma em um ladrão sexual sem moral, capaz até mesmo de enganar e assassinar Urias, seu fiel e honesto oficial em serviço na guerra.
Um capricho passageiro também é o que domina Amon, que estupra sua irmã Tamar, também filha de Davi (cf. 2 Samuel 13). O incesto condena Tamar a uma vida miserável e retraída, fadada à solidão e privada das alegrias do casamento e da maternidade. Amon a possui violentamente e, imediatamente depois, a odeia do fundo do seu coração. Incesto e amor sob efeito de drogas, semelhantes aos horrendos feminicídios de nossa época.
Durante o período monárquico, porém, também existiram professoras de justiça.
Com uma bela parábola (cf. 2 Samuel 14), a sábia mulher de Tecoa consegue convencer Davi a devolver seu filho rebelde, Absalão, à corte, evitando assim que ele se torne um assassino e fique sem filhos. O rei aprende uma lição com a sábia mulher, mas seu general Joabe dará à história um fim muito mais trágico (cf. 2 Samuel 18,9-18).
A concubina Rispa ("Brasas") vigia e protege os corpos dos sete homens enforcados – incluindo dois de seus filhos – com um pano dia e noite durante os meses de verão, para que os animais não os devorassem (cf. 2 Samuel 21).
Mesmo entre duas prostitutas pode haver uma que esteja cheia de amor, que deixe seu filho com a rival, contanto que ele não seja cortado ao meio pelo Rei Salomão (cf. 1 Reis 3).
De pais para mães; de filhos para filhas
Na terceira parte de sua obra (p. 137-164: "De Pais a Mães; De Filhos a Filhas"), a autora revisa com maestria e leveza as imagens e metáforas femininas presentes nos livros proféticos. Elas se tornam parábolas vivas da infidelidade do povo de Israel para com Javé, que, no entanto, consegue salvar a situação.
Com referência a Jerusalém e Samaria, mostra-se como a salvação vem das filhas.
O livro de Oséias abre a língua do coração. O profeta deve casar-se com a prostituta Gômer, que será redimida por YHWH com imenso amor. Ele restaurará sua virgindade. O verbo usado para dizer "Eu te tomarei como minha esposa" (cf. Oséias 2,21, 22) refere-se, na verdade, ao primeiro momento do casamento judaico, estipulado em duas etapas: o noivado oficial, no qual se presume que a moça seja virgem...
As filhas orgulhosas e rebeldes de Jerusalém verão suas joias e vários ornamentos reduzidos a apodrecer (Isaías 3).
Em vez de uvas, a vinha amada e cuidada produz uvas verdes (Isaías 5,1-7).
Jeremias 8; 9; 15 com Lamentações 1–3 lamentam o horror a que a filha de YHWH, o seu povo, foi reduzida. E isso se deve precisamente aos seus homens, desde os seus pais até o presente. "O Deus que fez de Jeremias o profeta da verdade não é o Deus dos pais, mas da filha, da Jerusalém ferida no presente por causa dos crimes dos pais que, na visão profética, se projeta numa nova integridade que ocorrerá no futuro" (p. 150).
O parágrafo termina com uma nota sobre o papel feminino nos protestos a favor de Pal que se espalharam pelas universidades americanas.
Ezequiel retrata o amor apaixonado de YHWH por Israel. Toda a história é contada em uma parábola. É a história de uma menina abandonada. A menina é acolhida, cuidada, amada e perdoada após suas escolhas erradas. Ela corará quando YHWH a perdoar… (cf. Ezequiel 16,20).
Mães que se foram... e filhas que se ganharam
A quarta parte do livro (págs. 165-184) nos apresenta mães que perdem... e filhas que ganham. Essas são Giuditta e outras mulheres.
Estamos na era pós-exílica. "Enquanto profetas como Daniel se colocam agora numa perspectiva apocalíptica (e escatológica)", escreve o autor, "as mulheres continuam a interpretar os eventos contemporâneos com o poder da palavra da fé e a exortação moral para mudar de direção e permanecerem vivas na história. A profecia feminina será interpretada por mães e filhas: o aspecto materno amadurecerá na visão escatológica, e o filial será confirmado na história. Esses dois aspectos jamais poderão ser separados, nem mesmo no Novo Testamento, onde tudo começa com Maria, a "filha" e a "mãe" de um Deus-Filho. Esse evento infundirá a alma escatológica no corpo da história" (p. 166-167).
2 Macabeus 7 apresenta a intrépida mãe dos sete mártires macabeus, cheia de força e fé na ressurreição de seus filhos torturados pelo opressor helenístico.
A rica e atraente viúva Judite salva sua aldeia de Betúlia, o último bastião contra a invasão assíria de toda a Judeia. Ela é sábia, inteligente e possui uma fé inabalável na proteção de Javé. Ela não se atreve a hipotecar os planos do Senhor, como pretendem fazer os anciãos da cidade, impondo-Lhe um certo número de dias para salvá-la do feroz inimigo. Sua fé não é superficial. Judite — quase nunca mencionada na liturgia católica — usa sua astúcia e beleza sedutora para decapitar o chefe do estado-maior do exército inimigo assírio, o general Holofernes. A cidade é salva e a vida em Israel pode continuar. Um belo conto de fadas, talvez..., observa Virgili.
Ester ("Estrela") é uma estrela entre as filhas. Sua audácia é imensa. Ela desafia o rei Assuero ao comparecer à corte sem ser convidada. Ela salvará seu povo do plano genocida de Hamã, que terminará com ela sendo enforcada na mesma estaca erguida para matar Mordecai.
Susana ("Lírio") vive uma história de redenção, rebelando-se contra os desejos lascivos dos dois velhos. Sua palavra se opõe à de dois anciãos veneráveis e internamente corrompidos. O jovem Daniel a salva, com o espírito profético que lhe foi dado por YHWH (cf. Dan 13).
Sabedoria e suas filhas
Na quinta parte de sua obra (pp. 185-224), a estudiosa aborda os Livros Poético e Sapiencial. A Sabedoria e suas filhas entram em cena.
Na escola de "Donna Sapienza", aprende-se a arte de preservar a vida. Uma mulher não apenas molda e desenvolve a vida física de seus filhos, mas também suas vidas mental e moral. Uma mãe amamenta seus filhos e os cria com o próprio corpo. Ao beber leite materno, a criança aprende algo essencial: que a vida vem do corpo de outro. Mas, junto com o leite, a mãe judia ensina sabedoria, que é a arte de preservar a vida. "A mãe inspira os pilares da própria vida", recorda a autora, "gratidão, porque a vida é uma dádiva, e solidariedade, porque ninguém pode viver sozinho no mundo. A mesa de uma mãe está, na verdade, posta para muitas crianças, para todas as crianças. É uma mesa compartilhada. A maternidade é a escola da gratidão e da fraternidade/sororidade" (p. 185).
Com a figura feminina sempre em primeiro plano, Sir 36 exalta a bondade da beleza; o Salmo 128 canta o calor da intimidade do lar; Sabedoria 7 descreve a riqueza da Sabedoria, esposa do Rei Salomão, que a pede com fé a YHWH.
"Senhora Sabedoria" opõe-se a "Senhora Loucura (Pr 9), inquieta, tola e ignorante, que seduz o inexperiente e o atrai para águas furtivas prometidas como mais doces, mas que escondem o redemoinho que o arrasta para as profundezas do reino dos mortos.
Provérbios 31 elogia as filhas virtuosas. A mulher astuta, trabalhadora e rica, mas também generosa com os pobres, demonstra ser a senhora do seu lar, a administradora dos seus negócios e uma pessoa multitarefa. Dia e noite, ela provê para os seus entes queridos sem falhar, enquanto permanece aberta aos membros mais vulneráveis da sociedade. A sabedoria, criada por Deus e presente no cosmos, atua sobre ele para agradar ao Senhor. Ela foi criada precisamente para criar (cf. Provérbios 8,22-31).
Jó 1–2,42 revela a esposa de Jó, desiludida e sarcástica com o marido, coberta de feridas. Ela nos convida a amaldiçoar a Deus, visto como a fonte direta do mal, em uma religiosidade fundada em um monoteísmo rígido que não reconhece causas secundárias. As filhas que Jó tiver após a restauração da justiça serão belas e superiores à mãe, e pela primeira vez serão lembradas por seus nomes ("Pomba", "Cássia", "Prata") como herdeiras do pai em partes iguais com seus filhos. Uma inovação singular na Bíblia…
O extenso capítulo de Virgili sobre o Cântico dos Cânticos é magnífico (pp. 206-222). É o Cântico do poder do amor, no qual harmonia e beleza se fundem. Um comentário verdadeiramente conciso.
Com delicada sensibilidade feminina e conjugal, a autora reconta as canções do amor, realçando a beleza da amada, as portas dos sentidos envolvidos, no fio da voz, uma voz de alegria... Os sentidos e os movimentos afetivos e físicos envolvidos são a visão, que exalta a beleza e a singularidade da figura da amada; o desejo sexual; o tato; o abandono e o abraço. São páginas esplêndidas, escritas pela autora com extrema delicadeza, expressão de uma vida vivida.
O Voo de um Anjo
A sexta parte do volume (p. 225-281) é dedicada ao Novo Testamento. A fuga de um anjo de Nazaré para a Jerusalém celestial.
Renascemos de mulheres, porque nada é impossível para Deus.
Isabel, a mãe levita, dá à luz João Batista, o remanescente de Israel. Maria, a jovem de Nazaré, está aberta ao plano de Deus. As duas mulheres se encontram na corrida e na dança do menino ainda não nascido. A filha eleva seu cântico (Magnificat, Lucas 1,46-55), que possui um aspecto contemplativo, "estético", inseparável do ético. "A pequena, a humilde, aquela que cabe na palma da mão, escapa num cântico de infinitude, para o infinito céu de Deus" (p. 233). Maria dará à luz Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Filho de Deus, o evento escatológico decisivo para o destino da humanidade e do cosmos.
Maria Madalena, Joana e Susana são diaconisas (cf. Lucas 8,1-3, diakonein). Seu serviço não se limita ao apoio material e financeiro oferecido a Jesus e aos Doze, mas representa uma verdadeira participação no ministério de proclamação do Evangelho. Isso fica evidente nas passagens paulinas comentadas pelo autor ao final do livro.
As filhas de Jerusalém (Lucas 23-24; Marcos 16; Mateus 28) amaram Jesus até o fim, enquanto seus apóstolos fugiram (exceto o Discípulo Amado, presente aos pés da cruz, segundo o Evangelho de João). As mulheres que vão ao túmulo são filhas da ressurreição. "O Senhor está com elas, com essas filhas do cuidado e da memória, com essas arquitetas do futuro da Igreja. Sua história será o primeiro testemunho do Ressuscitado, um 'documento' essencial para aqueles que mais tarde começarão a escrever o Evangelho (cf. Lucas 1,1-3)" (p. 240).
Há crianças e cachorrinhos. A mulher siro-fenícia (cf. Mc 7) é destemida, corajosa e cheia de fé. Com sua fé e amor pela filha, ela também "converte" Jesus. Os "cachorrinhos" pagãos podem facilmente se alimentar das migalhas que caem da mesa de seus filhos (Mc 7,28)/de seus donos (Mt 15,27).
Marcos 5 apresenta uma "história intercalada" (ou "sanduíche" — um termo que eu pessoalmente nunca uso) na qual duas mulheres recuperam suas vidas. Há sangue perdido em vão, o da mulher com hemorragia, que sofria de forma incurável há doze anos. Esses são os mesmos anos da filha de Jairo, um dos líderes da sinagoga. Eles indicam que a menina/criança/jovem está pronta para o casamento e a maternidade, mas, em vez disso, está morrendo em sua cama. Tanto o antigo quanto o novo Israel são revividos pelo encontro com Jesus ("e deem-lhe algo para comer", Jesus lembra aos pais dela).
Lucas 7,11-18 narra o encontro na aldeia de Naim entre a procissão festiva de Jesus e seus discípulos e o cortejo fúnebre da mãe viúva que levava seu único filho, o único provedor de sua família na velhice, para o cemitério. Jesus se comove, para, toca na maca e reanima o menino. "Com seu gesto, Jesus ressuscitou não apenas o filho, mas também a mãe: foi para ver o sorriso dela que ele fez tudo isso", é o esplêndido comentário do autor.
A prostituta na casa do fariseu (cf. Lucas 7,36-50) enche a casa com o perfume dos seus cabelos. Ela é perdoada e salva porque amou muito, com grande fé.
Com a esplêndida história do encontro de Jesus com a mulher samaritana, após ter decidido deliberadamente passar pela Samaria, chegamos a um dos ápices do Evangelho de João (cf. Jo 4). Jesus fala com a mulher, ouve-a, não a despreza, mostra-lhe a sua fragilidade e conduz-a suavemente a níveis cada vez mais profundos de conversa, para alcançar a verdade do seu desejo e apresentá-la à água viva da sua palavra, a única que pode saciar a sede do seu anseio e torná-la testemunha para os seus conterrâneos. Em Jesus, podemos encontrar Deus, o Pai, em todo o lado, mesmo fora do templo, na intimidade de um coração que acolhe a palavra da revelação, desmembrada e tornada presente pelo Espírito. Jesus é o Messias, o salvador do mundo. Sicar torna-se o lugar da aliança definitiva prometida por YHWH a Jacó.
À mulher flagrada em adultério (João 8,1-11) — e onde está o homem infiel? — Jesus não apenas perdoa o seu passado, mas também lhe concede um futuro. Ele não a condena, mas abre um caminho para a verdade, a liberdade e a realização dos seus desejos de uma forma positiva e plena.
Marta e Maria de Betânia (cf. Jo 11,1-44) professam sua fé na ressurreição e vida de Jesus, e o renascimento de seu irmão Lázaro também se deve às suas lágrimas. Uma dor que dá vida...
Maria de Betânia (cf. Jo 12,1-11), repreendida por Judas — mas também pelos "discípulos", Mt 26,8-9; por "alguns", Mc 14,4-5 — por ter desperdiçado o salário de um ano em trezentos gramas de nardo puro derramado sobre os pés de Jesus, é defendida e louvada por Jesus. "A indispensável superfluidez" é o belo título que o autor deu a este breve capítulo. Maria unge o corpo de Jesus antes de sua morte. E a Judas, que já via em Jesus um morto-vivo que valia o preço máximo de um escravo ferido por um boi — trinta siclos (Êx 21,3) — Jesus responde que Maria agiu bem. Sempre haverá escravos e pobres a quem se deve pagar, mas o Servo por excelência, o Servo de Deus, nem sempre estará entre eles.
O gesto de Maria encontra eco no Mestre na Última Ceia, com a lavagem dos pés, tarefa de um escravo não judeu. "O Filho da ressurreição", comenta Virgili, "é o Deus de Maria de Betânia, o Deus de nossas filhas, mesmo antes de se tornar o Deus de Pedro, do discípulo amado, e de todos os amados por Deus" (p. 267).
Paulo e o Apocalipse
Paulo não é, de forma alguma, o grande misógino de quem tanto ouvimos falar durante séculos. Ele se cercou de inúmeros colaboradores/colegas (como traduz o autor) — cerca de cinquenta —, incluindo muitas mulheres, que ele às vezes menciona especificamente pelo nome. As mulheres podiam profetizar em assembleia (cf. 1 Coríntios 11,5), e não há razão para que permaneçam em silêncio (cf. 1 Coríntios 14,34-35) ou ensinem (cf. 1 Timóteo 2,12, mas a carta é tritopaulina, do final do primeiro século, inspirada, canônica, mas não escrita por Paulo!). Minha opinião — formada a partir de outras leituras, mas não mencionada pelo autor — é que Paulo provavelmente queria impedir que as mulheres repreendessem publicamente seus maridos em uma assembleia pública.
Em 1 Coríntios 7,25,34, ele sugere que a vocação de uma mulher também pode ser a de solteira.
No capítulo final da Carta aos Romanos (Rm 16), Paulo menciona nove mulheres, nove pilares da Igreja, segundo Virgili. Elas são frequentemente chamadas de synergoi /colaboradoras/colegas.
Há Febe, uma diaconisa (diakonos, Rm 16,1) em Cencréia-Corinto, que atuava não apenas como anfitriã e apoiadora dos evangelizadores (prostatis), mas também como diakonos, engajada no ministério da evangelização. Essa singular "diaconisa" do Novo Testamento desapareceu da tradução CEI de 2008! Sua memória litúrgica, 3 de setembro, foi substituída pela da eleição de São Gregório Magno como papa (uma memória inicialmente celebrada no dia de sua morte, 12 de março). Essas observações foram extraídas de Virgili em um artigo de Phyllis Zagano, estudiosa do diaconato feminino, publicado em 17 de agosto de 2025 no Irish Times e disponível online em tradução italiana. Assim, Febe foi obscurecida no NT e relegada à obscuridade no calendário litúrgico. "Mas é Febe quem primeiro é nomeada e conhecida diretamente como 'diaconisa'." Por que isso não é bem recebido e respeitado pela Igreja hoje em dia?, pergunta o autor (p. 274).
Prisca, juntamente com seu marido Áquila (cf. v. 3), evangelizavam e estavam prontos para dar a vida por Paulo (além de compartilharem a casa e o trabalho). Maria (v. 6) dedicou-se totalmente à comunidade (ekopíasen/"cansada", o mesmo verbo usado para Jesus quando ele chega ao poço de Sicar em João 4,6). Andrônico e sua esposa Júnia são descritos como "especialistas (episemoi) entre os apóstolos" (v. 8)! No Novo Testamento encontramos diversas casas de filhas, as mulheres das primeiras igrejas. Ali está a casa de Maria (Atos 12,12), talvez a mãe do evangelista Marcos e talvez o local da celebração da Páscoa de Jesus... A "quinta" Maria.
Há a igreja de Lídia (Atos 16,10-17), que em Filipos "força/ persuade "Paulo, Timóteo e o autor da seção "nós" a aceitarem hospitalidade em sua casa (Atos 16,15). A rica comerciante pagã de púrpura, originária de Tiatira, está imersa em um mundo púrpura, um sinal distintivo de grande valor simbólico. A púrpura é um símbolo da tenda de Deus entre o seu povo (Êxodo 25-26), do sacerdócio (Êxodo 39,1ss), da realeza (1Mac 4,23; 10,20; 1Cr 3,14; 2Sm 1,24). "O que era o sinal de uma eleição divina e que significava as vestes e a morada do sagrado, juntamente com a autoridade do governo, está na púrpura com a qual a casa de Lídia devia ser rica!" (p. 276).
Já mencionamos a casa de Áquila e sua esposa Priscila (cf. Atos 18,1-4). Por fim, devemos lembrar da casa das quatro filhas do diácono Filipe, solteiras e profetisas, que hospedaram Paulo e seus companheiros em Cesareia Marítima, no retorno da terceira viagem apostólica (cf. At 21,8-14).
O Apocalipse apresenta a grandiosa imagem da mulher vestida de sol, vestida de sorriso: a mulher do Apocalipse (Ap 12,1-6). Ela representa o povo do Antigo Testamento que dá à luz o Messias; é Maria quem dá à luz Jesus. E enquanto ele é levado para Deus, a mulher é transportada para o abrigo do deserto, onde será nutrida durante todo o tempo, imperfeito e parcial, de sua existência terrena ("mil duzentos e sessenta dias" = aproximadamente três anos e meio, v. 6).
Uma página de bibliografia para estudos adicionais (p. 282) encerra este esplêndido volume, escrito com uma pena leve e saborosa, feminina e fascinante, que nos acompanha no voo de uma águia para sobrevoar o plano salvífico de Deus atestado na Bíblia: um Deus não apenas de nossos pais, mas também um Deus de nossas filhas!
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