27 Fevereiro 2026
A recusa do Vaticano em aderir ao Conselho de Paz do presidente Donald Trump é um gesto discreto, mas carregado de significado. Ao se negar a emprestar seu nome a uma iniciativa centrada em um líder, o Vaticano traça uma linha entre a paz como uma ordem duradoura, baseada em regras, e a paz como uma demonstração de poder voltada para manchetes. A mensagem é clara: uma paz que depende de uma única figura pode avançar rapidamente, mas não perdurará.
A informação é de Joshua Villanueva, publicada por National Catholic Reporter, 26-02-2026.
O conselho, anunciado pela primeira vez pela Casa Branca em 16 de janeiro, destina-se a funcionar como órgão de supervisão do “Plano Abrangente para Encerrar o Conflito em Gaza” do presidente.
Falando à margem de uma reunião com o governo italiano no Palazzo Borromeo, o cardeal Pietro Parolin afirmou, em 17 de fevereiro, que a Santa Sé “não participará” do conselho “por sua natureza particular, que evidentemente não é a de outros Estados”. Ele acrescentou: “O importante é que se esteja tentando oferecer uma resposta.” Mas, continuou, há “pontos críticos” que precisam ser resolvidos — incluindo a preocupação de que, “no plano internacional, deva ser sobretudo a ONU a gerir essas situações de crise”.
O Vaticano lidera de uma forma que desafia o manual político atual. Move-se com intenção e valoriza a continuidade em vez de vitórias rápidas. Fala a linguagem dos princípios e das instituições, não das personalidades e dos troféus. Em um mundo focado no espetáculo, isso pode parecer timidez. Na verdade, é assim que o Vaticano protege sua liberdade de agir como uma voz guiada por princípios.
Essa diferença marcante em relação ao estilo de Trump é o que dá peso à recusa do Vaticano. A abordagem de Trump se alimenta de domínio, rapidez e controle pessoal, muitas vezes achatando o trabalho lento e cuidadoso das instituições. O Vaticano, ao contrário, pensa no longo prazo. Confia em uma paz enraizada em regras que sobrevivem a qualquer líder e em instituições que permanecem de pé muito depois que os holofotes se apagam.
O papa Leão tem promovido consistentemente uma abordagem institucional. Em seu discurso de janeiro aos diplomatas, advertiu que o diálogo e o consenso estão sendo substituídos por uma “diplomacia baseada na força” e criticou o declínio da cooperação multilateral como uma ameaça à paz fundamentada no direito.
A recusa do Vaticano tem implicações que vão além de Gaza. O conselho de Trump está sendo lançado com significativa atenção política e compromissos específicos. Trump sediou a primeira reunião do grupo em 19 de fevereiro, em Washington, D.C., e prometeu US$ 10 bilhões para a reconstrução de Gaza e ajuda humanitária. Ele também indicou que várias nações concordaram em enviar tropas e policiais “para estabilizar Gaza”.
Uma das preocupações do Vaticano é que o conselho esteja assumindo o papel da ONU na gestão de situações de crise. O conselho reivindica legitimidade por meio de sua associação com a ação da ONU, mas não é um órgão subsidiário das Nações Unidas. Opera de forma independente, ao lado — mas não dentro — das estruturas da ONU. O Vaticano prefere a paz por meio de instituições multilaterais duradouras e baseadas em regras, não por meio de organismos paralelos e centrados em líderes que tomam emprestada a credibilidade da ONU enquanto deslocam a autoridade para fora dos marcos estabelecidos.
A linguagem da carta do conselho também é muito ampla, sugerindo a capacidade de intervir sempre que surja um conflito. Trump confirmou que acredita que o conselho “irá muito além de Gaza”, mas disse que “estamos trabalhando em conjunto com as Nações Unidas”. Em suas declarações durante a primeira reunião do conselho, afirmou: “O Conselho de Paz quase estará supervisionando as Nações Unidas e garantindo que funcionem adequadamente.” Se a conexão com a ONU for limitada, enquanto o próprio mandato do conselho for amplo, certamente surgirão disputas sobre legitimidade, expansão indevida de missão e decisões politizadas.
Para o Vaticano, trata-se de uma armadilha desnecessária. Se o conselho funcionar em uma situação, poderá ser arrastado para outras. Se fracassar, todos os envolvidos compartilharão as consequências. Em cada caso, o nome do Vaticano seria usado para reforçar a reputação do conselho, dada a ampla reconhecida autoridade moral da instituição.
É precisamente esse tipo de situação que Leão advertiu contra, e a razão pela qual Parolin insiste que essas crises devem ser tratadas, acima de tudo, por meio da ONU.
Um dos prováveis “pontos críticos que precisariam encontrar explicações”, como diz Parolin, é a rapidez com que a legitimidade do conselho poderia ser moldada pelos caprichos e pela marca pessoal de um único líder. Mesmo com outras nações à mesa, a carta concede a Trump ampla autoridade. Somente ele pode convidar ou excluir membros, dissolver o conselho a qualquer momento e decidir o que a carta realmente significa.
O Vaticano sempre defendeu uma paz enraizada na justiça e em princípios jurídicos, não naquilo que os mais poderosos acham que ela deva ser. A paz pode ter muitas faces, mas, para o Vaticano, não é meramente o fim da violência ou uma ordem imposta pela força. É uma ordem duradoura construída sobre direitos, responsabilidade e o Estado de Direito.
A recusa do Vaticano é um alerta claro. Esse arranjo deveria preocupar qualquer pessoa que valorize legitimidade e responsabilidade. Quando um esforço de “paz” de alto perfil se reveste de linguagem moral e atrai o olhar do mundo, o silêncio pode ser confundido com aprovação. Talvez seja por isso que Parolin tenha enfatizado a importância de se tentar oferecer uma resposta. A paz não pode florescer sem confiança, e a confiança nasce de regras claras, decisões coletivas e limites ao poder individual. Quando uma única pessoa atua como juiz, júri e executor, o conselho corre o risco de se tornar um palco pessoal, em vez de um verdadeiro fórum de paz.
Alguns podem dizer que a dor de Gaza é tão urgente que o Vaticano deveria ocupar qualquer assento em qualquer mesa se isso pudesse ajudar. Mas a urgência não justifica um julgamento equivocado. O Vaticano pode pressionar por ajuda humanitária, denunciar punições coletivas, apoiar a reconstrução e fomentar negociações sem aderir a um órgão que centraliza poder, obscurece a legitimidade e abre espaço para manipulação política.
Então, o que realmente significa o “não” do Vaticano? Significa que a paz deve ser guiada por regras, transparência e responsabilidade — e que a verdadeira liberdade consiste em trabalhar com todos, sem estar subordinado a ninguém.
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