O crepúsculo de Rojava

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09 Fevereiro 2026

Frustrados por uma parte dos grupos árabes com quem tinham selado alianças e abandonados pelas forças de coalizão, os curdos da Síria testemunham impotentes o fim de um ciclo.

A reportagem é de Laurent Perpigna, publicada por Naiz, 27-01-2026. A tradução é do Cepat.

“Os Estados não têm amigos permanentes, nem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes”. Nos últimos dias, esta frase do ex-secretário de Estado estadunidense Henry Kissinger ressoou com particular força nas regiões curdas da Síria.

Enquanto escrevemos essas linhas, e após o cessar-fogo ter sido prorrogado por quinze dias, o nordeste do país enfrenta seu maior desafio em uma década. Kobani, assim como durante o avanço do Estado Islâmico, está sitiada. O outro bastião curdo está em pé de guerra. E é em Hasakah, uma cidade mista árabe-curda, localizada ao sul desse segundo bastião, que o futuro dos curdos na Síria pode ser decidido.

Uma guinada surpreendente que os curdos não souberam prever e cuja deflagração foi uma dupla traição: a de uma parte dos combatentes árabes das Forças Democráticas da Síria (FDS) e a dos Estados Unidos.

Mudança de alianças

Tudo começou em 4 de janeiro, durante uma reunião destinada a estabelecer os termos da integração das FDS no Exército sírio. As conversas entre a delegação curda e o Governo de Ahmed al-Sharaa foram bruscamente interrompidas.

Segundo as lideranças curdas, um acordo estava próximo: a criação de divisões curdas integradas coletivamente, unidades “antiterroristas”, brigadas femininas e forças de vigilância da fronteira. Mas, inesperadamente, o ministro do Interior, Asaad al-Shaibani, apareceu na sala e encerrou as discussões. Tudo indica que sob pressão direta da Turquia.

A partir daquele momento, a sequência ganhou contornos de pesadelo. Enquanto os grupos pró-turcos, sob cobertura do governo, tentavam levar os curdos para os combates urbanos nos bairros curdos de Aleppo - algo que as FDS se recusaram a fazer, optando em se retirar -, grupos árabes do nordeste, que tinham se aliado aos curdos durante a reconquista do território do Estado Islâmico, começaram a se alinhar, um após outro, com o novo poder.

Uma dinâmica inscrita, além disso, em um contexto já em si tenso: treinadas em temas de segurança por soldados estadunidenses, as FDS exerceram, nestes últimos anos, um governo no mínimo autoritário no nordeste sírio. O último exemplo: a proibição da celebração do primeiro aniversário da ascensão de Al-Sharaa ao poder no território autônomo, o que terminou selando um divórcio que já parecia consumado.

As consequências foram imediatas: a maioria dos combatentes árabes das FDS desertou. De Deir ez-Zor a Raqqa, passando por al-Shaddadi, as forças curdas agora enfrentam uma insurreição interna.

Durante anos, a custódia de 9.000 prisioneiros do Estado Islâmico e mais de 20.000 familiares nos acampamentos foi vista pelos dirigentes curdos como uma garantia de sobrevivência política. Ilusão efêmera. Washington não hesitou em dar o golpe final, permitindo que as tropas governamentais avançassem para o norte, apesar da libertação registrada de centenas de jihadistas.

Um abandono costurado entre Turquia, Israel e Estados Unidos, que reconheceram ter mudado de parceiro na Síria, com todas as contradições que isto envolve em termos da “luta antiterrorista”. Donald Trump conseguiu satisfazer Ancara, Al-Sharaa e Israel, impondo uma divisão de facto do país: uma esfera de influência meridional para Israel, em áreas drusas, e outra septentrional para a Turquia.

Em apenas um ano, e apesar dos dois massacres cometidos por suas forças contra minorias alauítas e drusas, Al-Sharaa conseguiu inverter o equilíbrio diplomático e se apresentar como “baluarte contra o terrorismo”.

As Unidades de Proteção Popular (YPG), convencidas de que sua aliança com os Estados Unidos era inabalável, não souberam prever a guinada. Mais uma traição na longa história do povo curdo. Uma nova prova de que a confiança cega costuma ser mais perigosa do que o inimigo declarado.

O nordeste encurralado

Hoje, qualquer saída favorável aos curdos beira a ficção científica. As negociações estão bloqueadas. Fortalecido pelo novo equilíbrio de poder, Al-Sharaa tornou-se um negociador maximalista, que exige a rendição de facto das forças curdas e o abandono de qualquer projeto de autonomia. Em troca, permaneceria apenas o direito de celebrar o Ano Novo e falar seu idioma.

Enquanto a máquina midiática do regime e de seus aliados - especialmente a Turquia e a Arábia Saudita - demoniza incansavelmente as FDS, as forças curdas estão, literal e politicamente, entre a cruz e a espada.

Cercadas, encurraladas na fronteira turca, expõem-se a uma grande ofensiva vinda do sul. Suas centenas de quilômetros de túneis, escavados para resistir a uma hipotética invasão turca, servem agora pouco: o inimigo não vem do norte.

O dilema estratégico é brutal: aceitar uma rendição negociada com a esperança de proteger a população civil ou apostar em um confronto prolongado para tentar forçar uma reavaliação da posição de Damasco e preservar um pouco de autonomia no plano político e militar.

Uma situação catastrófica que abalou todo o povo curdo. Enquanto centenas de civis conseguem cruzar a fronteira para vir em auxílio dos seus, unidades de elite do Curdistão iraquiano chegam na região. É difícil que isto seja suficiente para reverter o curso dos acontecimentos.

O povo curdo permanece estruturado como um ator não estatal cercado por Estados. E sua aposta em um confederalismo multiétnico e igualitário já ficou para trás. Irremediavelmente.

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