16 Janeiro 2026
"Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante".
O comentário é de Rui Tavares, Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora', publicado por Folha de S.Paulo e reproduzido na página do Facebook de André Vallias, 14-01-2026.
Eis o artigo.
Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.
O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.
Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.
Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.
Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.
Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.
Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?
Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.
Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.
Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.
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