16 Janeiro 2026
“Tudo é concedido a Trump, até mesmo a falta de respeito a outros líderes, na esperança de que, sendo submissos e complacentes a seus desejos, ele seja magnânimo. Mas tudo acontece ao contrário. Assim como com uma criança mimada, quanto mais recebe, mais quer e pior se comporta, porque está à procura de limite, e ainda não o encontrou. As más notícias: se não o encontrar logo, a história nos diz que nada de bom cabe esperar”, escreve Álex Mesa, professor da Universidade de Barcelona, em artigo publicado por Catalunya Plural, 14-01-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain e Adolf Hitler se reúnem por conta da Crise dos Sudetos. Ainda traumatizado pela memória da Primeira Guerra Mundial, Chamberlain acaba cedendo às pretensões anexionistas dos nazistas. Sob o pretexto de que faria qualquer coisa para evitar uma nova guerra, o primeiro-ministro britânico seria duramente condenado pela História, que, com as palavras proféticas de Winston Churchill, será sempre lembrado pelo fato de que “entre a desonra e a guerra, escolheu a desonra; e terá a guerra”.
Em 2026, a situação atual guarda cada vez mais uma sinistra semelhança com o caso Chamberlain. No segundo mandato de Trump, suas excentricidades aumentaram ao lado de seu poder. As contradições, mudanças de critério e saídas do tom estão se tornando cada vez mais frequentes. No entanto, não parece algo totalmente óbvio pela simples razão de que há um comparsa que busca se movimentar ao seu som, fazendo parecer que não, que o que estamos vendo não é absurdo, não é grotesco, que continua havendo certo critério e respeitabilidade em tudo o que o presidente dos Estados Unidos faz.
Aqueles que se movem ao som de Trump também estão minimizando o seu expansionismo, quando não negando-o. Vale lembrar que, na última campanha eleitoral estadunidense, um dos mantras midiáticos em que mais se insistiu foi o de que Trump não iniciou nenhuma guerra em seu primeiro mandato e que, se reeleito, faria com que os Estados Unidos se preocupassem apenas com os assuntos internos, sem se envolver em conflitos bélicos, nem em assuntos externos. Não obstante, o que inicialmente sugeria um isolacionismo antibélico, transformou-se em uma espécie de guerra preventiva contínua: os Estados Unidos, na perspectiva trumpista, não estariam se ocupando de conflitos externos, mas agora entendem que “estabilizar” o resto do mundo faz parte de sua própria defesa e de seus interesses particulares.
Assim, a paz que se busca não é a ausência de guerra, mas a morte termodinâmica, a ausência da diferença e oposição por esmagamento. Ou seja, se só restam intactos os interesses dos Estados Unidos, só pode haver paz no mundo porque não resta nada mais para inimizades. Essa maneira de entender a geopolítica, na perspectiva imperialista, não é nada nova e, por diferentes razões e justificativas, esteve em voga entre muitas potências ao longo da História. Onde alguns encontravam razões étnicas, de superioridade racial (falsa), mandato religioso ou justificativa civilizatória..., outros estão encontrando razões mercantis ou, mais amplamente, econômicas e geoestratégicas (a pilhagem de recursos como parte do cumprimento do lema MAGA).
No início do ano passado, comentei em um artigo as semelhanças entre o panorama político atual e o dos anos 1930. Certamente, tentei ser prudente para não cair na simplificação grosseira ou na equiparação tosca. No entanto, o tempo tornou minha análise muito curta: longe de parecer forçadas, algumas semelhanças começam a ser obscenas e beiram o cômico-terrífico.
As imagens constantes da celebrada impunidade do ICE na perseguição a migrantes ou a qualquer pessoa suspeita pelo regime trumpista beiram o grotesco e causam arrepios naqueles que sabem sobre o modo de proceder dos camisas pardas (SA), em inícios dos anos 1930, na Alemanha. Apesar das diferenças, o clima de terror e inquietação, e sobretudo a sensação de arbitrariedade decorrente da impunidade, estão transformando este organismo em uma espécie de guarda pretoriana em defesa do interesse do MAGA. A morte cruel e totalmente desproporcional de Renee Nicole Good, baleada por um agente do ICE, é a gota d'água que verte o copo de uma atuação que já estava sendo questionada há tempos.
Como se pode observar, o clima político do trumpismo está se tornando cada vez mais sombrio e, tanto externa quanto internamente, guarda semelhanças perturbadoras com momentos terríveis do nosso passado. No entanto, parece que isto está sendo ignorado. Daí a alusão ao caso Chamberlain.
De modo semelhante a Neville Chamberlain, muitas vozes preferem calar e condescender em não levantar a voz diante da barbárie. Especialmente na União Europeia, outrora aliada dos Estados Unidos, opta-se por olhar de lado, quando não aplaudir diretamente os gracejos e artifícios de Trump.
Trump quer que os membros da OTAN aumentem seus orçamentos militares para 5% do PIB? “Sem problemas”. O presidente dos Estados Unidos diz que o Direito Internacional parece um teatro e que se guia apenas por sua própria moralidade? “Certamente, foi só uma piada”. Os Estados Unidos estariam dispostos a tomar a Groenlândia por bem ou por mal? “Talvez estivesse de mau humor naquele dia, mas não falava sério”.
Desse modo, tudo é concedido a Trump, até mesmo a falta de respeito a outros líderes, na esperança de que, sendo submissos e complacentes a seus desejos, ele seja magnânimo. Mas tudo acontece ao contrário. Assim como com uma criança mimada, quanto mais recebe, mais quer e pior se comporta, porque está à procura de limite, e ainda não o encontrou. As más notícias: se não o encontrar logo, a história nos diz que nada de bom cabe esperar.
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