A hora dos predadores. Artigo de Melba Escobar

Foto: Wikimedia Commons

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13 Janeiro 2026

Homens brutais, bárbaros, praticamente analfabetos, iludidos com a ideia de conquistar países como se o mundo fosse um jogo de Risk.

O artigo é de Melba Escobar, publicada por El País, 13-06-2026.

Melba Escobar é uma escritora e jornalista colombiana que, entre outros livros, escreveu uma obra de não ficção sobre a Venezuela intitulada "Éramos felizes e não sabíamos disso".

Eis o artigo. 

Hoje quero recomendar o livro que tem o mesmo título desta coluna. E só recomendo livros que realmente me comovem. Mas, se me comoveu neste caso, foi porque Giuliano Da Empoli traduz a nossa era em palavras. Ele captura um instantâneo do atual panorama político, cultural e emocional e o apresenta para nós. Ele faz isso descrevendo os ternos usados ​​pelos homens mais poderosos do mundo quando compareceram à Assembleia Geral da ONU no ano passado. E digo homens porque são homens. Nayib Bukele, Donald Trump, Nicolás Maduro, Vladimir Putin, Xi Jinping, Mohammed bin Salman, Javier Milei. Todos homens. Todos predadores.

Um fervor bélico se espalha como fogo em palha seca. Como se a exceção, a violência autoritária e a quebra das regras do jogo estivessem se tornando a norma. Porque não se trata mais apenas de regimes isolados. Agora há uma urgência, um zelo conquistador, vingativo e destrutivo. Vladimir Putin ocupou a Crimeia em 2014, quebrando assim o tabu que proibia um país de recorrer à força para alterar suas fronteiras, afirma Da Empoli. A invasão da Ucrânia em 2022 ratificou essa mensagem. E com ela, a guerra voltou a estar na moda. Agora, aqueles que a invocam ganham eleições. Homens brutais, bárbaros e praticamente analfabetos deliram com a conquista de países como se o mundo fosse um jogo de Risk, e se lançam na caça por mais um território em busca de petróleo, água, oxigênio, seja lá o que for que desejem possuir, e só querem provar que podem fazê-lo pela força bruta.

Nos últimos cinco anos, os gastos públicos com armamentos aumentaram 34% em todo o mundo. Atacar custa cada vez menos do que se defender. O Irã está mais perto do que nunca de uma bomba nuclear. A Rússia faz ameaças veladas com uma em sua agressão contra a Ucrânia. A inteligência artificial pode ser usada para criar armas biológicas, químicas, radiológicas e nucleares. Enquanto isso, figuras atuais como Nayib Bukele se autodenominam "o ditador mais tranquilo do mundo inteiro", e muitos o chamam de "o milagre de Bukele" por ter reduzido todos os indicadores de criminalidade em El Salvador. Mas a que custo? Às custas de quem? Violando os direitos humanos de quantas pessoas? Essas perguntas parecem ter perdido a relevância. Parecem não importar mais. Só os resultados importam, não os processos. Devemos avançar a toda velocidade em um mundo predatório, para não dizer canibalístico, onde a lógica dos autocratas parece ser aniquilar antes de ser aniquilado. Como se estivéssemos em um filme de ficção científica. Mas não estamos assistindo a Jogos Vorazes. Não estamos assistindo Avatar, onde os predadores são humanos exterminando outras espécies; somos nós no ano de 2026, em tempo real, e isso está acontecendo.

No mundo em que vivemos, a emergência parece implacável. E então chegam os vilões com seus trajes extravagantes, como o de Bukele na Assembleia Geral da ONU há dois anos, meio Guerra nas Estrelas, meio Simón Bolívar. O super-herói dos nossos tempos, de manto roxo, surge prometendo nos salvar quando mais precisamos. Eles vêm para nos salvar do crime, da imigração, do deslocamento forçado, do status de refugiado, do desemprego, da ruína, da fome, dos fiadores, das hipotecas, da inflação, do custo de vida. Chegam armados com promessas, mísseis e bombas para cumpri-las. É como se o Aladdin da nossa infância tivesse aparecido agora com uma metralhadora e um sorriso terno para garantir que, se deixarmos tudo em suas mãos, a história terá um final feliz.

A condição que esse novo ídolo satânico nos impõe é a de não questionar, apenas nos render completamente à sua vontade. E então surge Donald Trump, invadindo a Venezuela para depor Nicolás Maduro, sem se importar com o fato de que, ao fazer isso, está quebrando todas as regras do jogo, colocando em risco a democracia e violando os direitos humanos. E agora? A China atacará Taiwan? Israel terminará de destruir a Palestina? A Rússia anexará a Ucrânia? Todos aqueles filmes que assistimos na cama em uma noite de domingo, aqueles que nos fazem temer o pior, são a realidade que está acontecendo lá fora. Mas é como se não percebêssemos. A verdade é que o futuro mais temido está acontecendo lá fora; já começou.

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