Como a China poderá responder ao ataque de Trump à Venezuela?

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12 Janeiro 2026

A medida da Casa Branca faz parte de um esforço mais amplo para expulsar Xi Jinping da região. O gigante asiático poderia retaliar de diversas maneiras para defender sua posição.

A reportagem é de Yago Álvarez Barba, publicada por El Salto, 11-01-2026.

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, no qual Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados, abalou o cenário geopolítico global. A flagrante violação do direito internacional por Donald Trump colocou outros atores importantes em alerta. A China expressou preocupação com a paz mundial e o respeito às normas internacionais, mas o que o governo de Xi Jinping classificou como "assédio" é, na verdade, consequência da tomada de controle da nação caribenha pela Casa Branca, uma tomada de controle delineada no documento de Estratégia de Segurança Nacional publicado em dezembro passado: o novo governo venezuelano deve romper relações com o gigante asiático.

As intenções da Casa Branca são claras, mas por trás dessa exigência dos EUA reside o temor de um mundo bipolar que desdolarize o comércio global de petróleo, um mundo no qual a China avança cada vez mais para conquistar sua própria autonomia e a dos países que buscam escapar do jugo econômico, e também militar, da dependência e do controle contínuo da administração americana. A demonstração de poder de Trump contra o país com as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, que exportou 80% de sua produção de petróleo para a China no último ano, utilizando yuan em vez de dólares, provocou uma reação extremamente explosiva. A questão que circula no cenário internacional de tensões neste delicado momento de luta hegemônica é se o governo de Xi Jinping tomará alguma medida em resposta a este último episódio.

Se há algo em que todas as fontes consultadas para este artigo concordam, é que a China é um país de progresso lento, porém constante. Seus planos estratégicos de crescimento e expansão não são decididos por mudanças repentinas de rumo, postagens em redes sociais ou pelos caprichos de seu líder. O gigante asiático avança lentamente porque mira um futuro distante, e nenhum dos analistas consultados acredita que veremos reações exageradas ou agressivas no curto prazo. Isso não significa que a China não tenha as ferramentas e o poder para tomar tais medidas, portanto, vale a pena analisar quais seriam esses movimentos potenciais, sejam eles retaliatórios ou não.

“A China não quer problemas. Vai continuar fazendo as coisas como sempre fez”, afirma Juan Vázquez Rojo, doutor em Economia, professor e pesquisador da Universidade Camilo José Cela, especialista na hegemonia do dólar e na internacionalização do yuan, bem como no modelo econômico chinês.

Ricardo Molero, professor do Departamento de Estrutura Econômica e Economia do Desenvolvimento da Universidade Autônoma de Madri e também familiarizado com a realidade econômica chinesa, por ter vivido lá durante anos, concorda plenamente. “A situação na Venezuela não altera significativamente os planos da China, porque a estratégia chinesa é de médio e longo prazo; ela se adapta ao contexto, mas não deixa de seguir seu próprio caminho”, explica o economista ao El Salto, acrescentando que não espera nenhuma mudança estratégica após os recentes acontecimentos.

Negócios pendentes com a Venezuela

A tomada do setor energético da Venezuela e as exigências de rompimento das relações com a China resultarão na interrupção imediata das exportações de petróleo bruto. Em termos econômicos, isso não representa um grande problema para o Partido Comunista Chinês (PCC), já que as exportações de petróleo bruto venezuelano representam menos de 2% do total de suas exportações. A China não só está menos dependente do petróleo venezuelano, como também está tomando medidas para se tornar menos dependente de qualquer fonte de energia, segundo Juan Laborda, professor de Economia Financeira da Universidade Politécnica de Madri. Ele destaca que "a China sabia que isso poderia acontecer e diversificou suas fontes de energia, reduzindo sua dependência do petróleo".

Nos últimos anos, a China passou por um processo de eletrificação e implantação de infraestrutura de energia renovável que a tornou a maior produtora mundial desse tipo de energia, além de exportadora natural dessas tecnologias e dos componentes necessários para sua instalação e desenvolvimento. "Eles já fizeram a sua parte com as energias renováveis; outros países terão os problemas", afirma o economista.

Mas esse súbito corte no fluxo de petróleo bruto para a China tem um fator colateral que também deve ser considerado: a dívida da Venezuela com a China, após anos de relações financeiras em que o país asiático emprestou dinheiro ao governo bolivariano. "Temos dados limitados, mas a dívida pode chegar a cerca de US$ 20 bilhões", aponta Vázquez. Outras estimativas, bem diferentes, apontam para uma dívida que varia de US$ 10 bilhões a até US$ 50 bilhões.

Nos últimos anos, a Venezuela tem enfrentado dificuldades para pagar sua dívida em dia, o que obrigou o governo bolivariano a buscar soluções alternativas, como o infame acordo de "petróleo por dívida". "Empresas chinesas firmaram acordos com a PDVSA [a estatal petrolífera venezuelana] para extrair petróleo. Mas, quando a Venezuela não conseguiu pagar sua dívida à China, o comprador chinês, em vez de pagar à PDVSA, depositou o dinheiro em um dos bancos chineses que haviam concedido empréstimos ao país e, em seguida, o sacou", explica Vázquez.

Com a intervenção da Casa Branca na PDVSA e o novo governo de Delcy Rodríguez, que parece disposto a seguir as diretrizes de Trump, é provável que as relações entre a petrolífera estatal e a China se deteriorem. Isso também poderia comprometer o pagamento da dívida. No entanto, a China deve ter chances de continuar recebendo os pagamentos, explica Vázquez, já que "os dois países assinaram um acordo bilateral de investimentos em 2025 e, além disso, a dívida pertence à Venezuela, não a Maduro, portanto o governo atual deve manter os pagamentos".

De fato, Vázquez sugere que essa poderia ser uma das principais represálias que Xi Jinping poderia adotar na frente comercial: “Se a Venezuela não honrar seus pagamentos ou contratos, a China poderia levar o caso ao ICSID do Banco Mundial”. O Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos é o tribunal supranacional que lida com disputas entre países ou entre empresas e países, onde a China poderia exigir que a Venezuela cumprisse suas obrigações ou enfrentasse sanções.

Atacar o dólar e os títulos do Tesouro americano

Quando Trump intensificou a guerra comercial com a China no início de 2025, os preços dos títulos da dívida americana despencaram nos mercados, e muitos analistas apontaram o dedo para o Partido Comunista Chinês. O gigante asiático detém uma quantidade enorme de títulos do Tesouro americano. A venda desses títulos, por meio de uma inundação do mercado, faz com que seus preços caiam e impacta diretamente o financiamento dos EUA. Portanto, a queda observada naquelas semanas pode ter sido causada pela China em retaliação à política tarifária do presidente americano. Diante da renovada escalada das tensões geopolíticas, a China poderia vender novamente títulos americanos, atacando diretamente as finanças públicas e a credibilidade dos EUA nos mercados, o que colocaria Trump e seu projeto econômico em uma posição difícil.

Tanto Vázquez quanto Molero concordam que uma venda maciça de títulos do Tesouro americano pela China é improvável. "A China está reduzindo gradualmente sua exposição à dívida americana", diz Molero, "mas não acredito que fará movimentos bruscos, pois não é do seu interesse desestabilizar a economia dos EUA". Afinal, os Estados Unidos são um grande importador, e as exportações de muitos países dependem disso, inclusive da China. "Ela prefere continuar em seu próprio ritmo, travando a guerra tecnológica", acrescenta Molero.

Essa mesma dependência de uma economia americana forte é o que Vázquez destaca: “A China não quer, e não pode agora, substituir o dólar como moeda do comércio global. O que ela quer é criar outros mercados que não dependam do dólar, onde possa continuar negociando mesmo sob ataque, mas não quer, e não pode, se desfazer de todos os títulos que detém”, esclarece. Ele observa, no entanto, essa redução na exposição da China à dívida americana. Em março de 2025, a China detinha US$ 765 bilhões em dívida americana, tornando-se o terceiro maior detentor estrangeiro de títulos dos EUA, depois do Japão e do Reino Unido. Mas esse valor imenso está longe dos ainda maiores US$ 1,3 trilhão em dívida americana que a China detinha em 2011.

Rotas comerciais e cadeias de produção

Ser a “fábrica do mundo” e ter investido milhões em outros países para promover a Iniciativa Cinturão e Rota já está trazendo benefícios diretos para a China e seu modelo de produção, que agora está se globalizando e se realocando para outros continentes. “A China controla a cadeia de suprimentos global, por isso está confiante”, afirma Laborda enfaticamente.

É verdade que Trump fez outra grande mudança no início de seu segundo mandato, embora não esteja sendo tão discutida agora: o Canal do Panamá. O sistema de eclusas e barragens no país centro-americano é um dos principais pontos de trânsito para o comércio global, e Trump suspeitava que o governo panamenho estivesse negociando com a China para melhorar e facilitar o trânsito de navios chineses como parte da Iniciativa Cinturão e Rota. Diante das ameaças de Trump de tomar o Canal, e até mesmo de intervenção militar, o Panamá cedeu e se alinhou aos interesses da Casa Branca, marginalizando a China. Outra questão bem diferente, e que ocupará grande parte da agenda geopolítica nas próximas semanas, é o que acontecerá com a outra rota de trânsito na região que Trump considera sua: a Groenlândia.

Entrega continental e no quintal

A estratégia de Trump em relação às Américas e a aparente relutância da China em se envolver em conflitos na região sugerem uma espécie de divisão territorial. Os líderes de Xi Jinping podem estar jogando a toalha no continente americano. "Eles não estão interessados ​​em confrontar os Estados Unidos sobre a América Latina; provavelmente vão deixar para lá, enquanto continuam a desenvolver seus negócios e relações comerciais na Ásia e na África", explicou ao El Salto o sociólogo e analista Aníbal Garzón, autor do livro BRICS: A Transição para uma Ordem Mundial Alternativa (Akal, 2024). "Se isso acontecer, será mais uma questão geopolítica do que econômica, mas é possível que o que ocorra seja essa divisão continental na qual a China negociará, mas não se envolverá muito nas Américas, ao mesmo tempo que certamente dirá: 'Não mexam com a Ásia'", afirmou Garzón.

Para ser mais específico, Garzón está se referindo a Taiwan. Molero concorda, vendo isso como uma estratégia que poderíamos chamar de "Não entro no seu quintal se você não entrar no meu". "A China será cautelosa com o que acontece em outras partes do mundo; ela não entrará em conflitos enquanto as rotas comerciais mais próximas do país não forem afetadas", acredita Molero. "Se os Estados Unidos não entrarem no Mar da China Meridional, ou em Taiwan, não haverá problemas. A situação muda se Trump aumentar a agressividade no Pacífico, especialmente em relação a Taiwan", destaca ele.

Construindo relacionamentos e confiança

Resta saber se a China aproveitará a situação atual e o crescente descontentamento entre alguns países não tão alinhados com Trump, países que agora se sentem ameaçados, para intensificar as relações comerciais e assinar novos acordos bilaterais antes que a Casa Branca consiga controlá-los, seja por meio de uma mudança de governo ou pela força militar. São precisamente essas ameaças às quais Laborda se referia anteriormente, quando apontou que os problemas não são da China, mas sim de outros: “Quem se sente ameaçado pelos EUA é que precisa mudar as regras: México e Brasil deveriam estabelecer novas relações com a China, mas o mesmo se aplica à Coreia do Sul, África do Sul, Paquistão, Índia, Turquia e até mesmo ao Japão, que também se sente ameaçado, embora pareça não perceber”, enumerou Laborda.

Molero concorda com a declaração anterior de Garzón: "Se a China intensificar suas relações com os países da região, será mais por razões geopolíticas do que econômicas". No entanto, ele reconhece que os mercados colombiano e brasileiro podem ser muito atrativos para a China. "O Brasil possui uma grande capacidade industrial para refino de petróleo, algo que a Venezuela não tem, o que a tornou mais dependente da China, transformando-a em um mercado que poderia atrair o país. E a Colômbia é uma economia muito consolidada, com um mercado bastante atrativo", explica o professor de economia.

Se essa divisão territorial entre os gigantes for concretizada, e a China não responder agressivamente, mas sim observar à margem e seguir seu próprio caminho enquanto o imperialismo de Trump ameaça a Groenlândia e controla sua região de influência, o que prevalecerá na imagem global das duas grandes potências disputando a hegemonia será a de que “a China se apresenta como uma líder confiável, uma potência que promove relações de desenvolvimento, o bem comum, relações ganha-ganha, respeito à soberania de outros países e respeito às normas internacionais”, afirma Vázquez Rojo. “A China conquista o terreno deixado vago pelos Estados Unidos”, conclui a economista.

Mal haviam se passado algumas horas desde o sequestro de Nicolás Maduro quando Trump já ameaçava "discutir a Groenlândia em 20 dias". A realidade é que o protetorado dinamarquês tem sido o assunto da semana, o próximo alvo que o presidente americano quer tomar. Se as fontes consultadas para esta reportagem estiverem corretas, não devemos ver nenhuma ação drástica de Xi Jinping nas próximas semanas, e é possível que ele nem se envolva no conflito da Groenlândia, deixando a passiva União Europeia lidar com a situação. A menos, é claro, que a agressão de Trump continue a escalar e a China decida usar algumas das ferramentas que já vimos que ela possui.

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