“É o fracasso moral do poder estadunidense que normaliza a crueldade”. Entrevista com Jonathan Safran Foer

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12 Janeiro 2026

Jonathan Safran Foer – autor de Tudo se ilumina, Aqui estou e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (Rocco) – vê apenas uma forma de reação ao que está acontecendo nos Estados Unidos: a compaixão. “Se ainda pudermos chorar honestamente, se dissermos: isso não deveria ter acontecido, em vez de seguirmos em frente, então a resistência é possível.”

A entrevista é de Annalisa Cuzzocrea, publicada por La Repubblica, 09-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Em Minneapolis, vídeos mostram uma mulher tentando fugir dos agentes do ICE, e um deles atirando em seu rosto, matando-a. A Casa Branca conta uma história completamente diferente, e o faz antes mesmo de qualquer investigação ter começado. O que está acontecendo nos Estados Unidos?

Estamos aprendendo o quanto uma morte pode ser facilmente absorvida pelo poder sem deixar vestígios. Uma jovem mulher, mãe de três filhos, está morta. Ela tinha uma vida em andamento, inacabada, como todas as vidas. E quase imediatamente, antes que houvesse o tempo do luto, antes mesmo que o país pudesse respirar, as autoridades se apressaram em explicar por que essa morte não deveria nos perturbar. Há vídeos. Há testemunhas. Há o antigo impulso humano de dizer: Parem! Algo terrível aconteceu. No entanto, a resposta daqueles que nos governam não é a de parar, não é a humildade ou a dor, mas sim de oferecer certezas. A certeza é a coisa mais assustadora nesses casos, porque exclui tanto o luto quanto o sentido. Declara o caso encerrado antes mesmo de a ferida ser nomeada. Esse é o problema. Não apenas o fato de alguém ter sido morto, mas também que a autoridade parece tão pouco interessada em refletir, em se perguntar se algo deu errado. É como se a própria morte fosse um incômodo, algo a ser gerido em vez de lamentado.

Aconteceu em Minneapolis, onde Trump enviou agentes do ICE devido à presença de uma grande comunidade somali, que ele chamou de “escória a ser mandada de volta para o seu país”. O racismo foi normalizado?

O racismo raramente chega aos gritos. Geralmente, chega discretamente. Ele se normaliza quando soa corriqueiro, quando a crueldade é absorvida na linguagem administrativa, quando comunidades inteiras são consideradas problemas em vez de pessoas. Quando isso acontece, a violência deixa de ser chocante: torna-se procedural. Se você retrata as pessoas como contaminantes, como algo a ser removido, cria um clima moral no qual o dano parece lícito. E mais ainda, quando alguém morre, nos dizem para prestar atenção na logística, nos cenários hipotéticos, no fato das palavras certas terem sido usadas depois do ocorrido… sobre qualquer coisa, exceto no fato de que uma vida humana foi tratada como sacrificável.

George Floyd foi morto em Minneapolis, e aquele homicídio deu origem ao movimento Black Lives Matter. Depois de poucos anos, aquele lema parece não significar mais nada, mesmo que desta vez a vítima tenha sido uma mulher, branca e estadunidense.

A morte de George Floyd havia obrigado o país, por um breve momento, a olhar diretamente para o que acontece quando o poder se esquece da sacralidade da vida. Black Lives Matter não era um slogan que pedia um tratamento especial, era um apelo à seriedade: à moderação, à responsabilidade, à humildade. O que dói no coração é ver a rapidez com que aquela seriedade evaporou.

Hoje, até mesmo as evidências em vídeo parecem frágeis. Até mesmo uma cidadã estadunidense branca pode ser reduzida a uma nota marginal de um debate político. Isso nos revela algo devastador: uma vez que a impunidade se instala, se expande. Consome.

Um apresentador da Fox News enfatizou o fato de Renée Nicole Good ter “pronomes em seu perfil”, viver com uma parceira lésbica e ter filhos de um casamento anterior. É como se isso validasse as acusações de Kristi Noem segundo as quais se tratava de um ataque de terrorismo doméstico. Não é absurdo?

É pior do que absurdo: é desumanizante. Esses detalhes não servem para entender o que aconteceu; servem para sugerir que a vida dela já era suspeita, já era ideológica, já estava fora de uma norma imaginária de inocência. É uma estratégia antiga: quando alguém sofre um dano, escavamos sua biografia para encontrar razões para não nos preocuparmos. Questionamos os mortos para não termos que questionar o poder. Mas nada disso responde à única pergunta que importa: o uso de força letal era justificado? Todo o resto é uma maneira de evitar essa pergunta. E isso acontece quando a ideologia substitui a consciência. Transformamos uma pessoa em um símbolo para não termos que encarar a atroz simplicidade do que aconteceu: um Estado matou um ser humano e não sente nenhum remorso.

É plausível que Trump esteja enviando o ICE para cidades e estados governados por democratas, calculando o risco de provocar reações violentas?

Neste ponto, é difícil não perceber o padrão. A força é empregada onde é provável que encontre resistência, e essa resistência é então usada para legitimar a própria força. É um círculo vicioso que se alimenta de instabilidade e sofrimento. Seja cinismo ou convicção, praticamente não importa mais. O que importa é o custo humano.

Você esperava ações desse tipo contra os imigrantes quando Trump assumiu o poder?

Eu esperava crueldade, sim. Esperava uma linguagem para endurecer os corações. O que eu não esperava era a facilidade com que a moderação seria abandonada, a rapidez com que a aplicação da lei se tornaria teatral: menos lei do que espetáculo. Quando o poder se torna performance, perde a conexão com o cuidado: as mortes deixam de ser tragédias e se tornam pontos de debate.

A popularidade do presidente está em queda. As eleições de meio de mandato podem marcar uma virada?

Até podem, mas somente se forem vividas não como um botão de reset, mas como uma forma de memória coletiva. As democracias fracassam não apenas por causa de maus líderes, mas por causa de cidadãos exaustos que se acostumam com as feridas morais. Se as pessoas votarem apenas para recuperar o conforto, nada muda. Se votarem para restaurar dignidade e responsabilidade, então talvez algo possa mudar.

Os democratas têm condições de conter essa guinada de extrema-direita ou lhes faltam nomes influentes com credibilidade?

Figuras com credibilidade são necessárias, mas não suficientes. O que é preciso agora não é apenas liderança, mas resistência moral. A capacidade de continuar denunciando o que está acontecendo, mesmo quando a repetição se torna cansativa, mesmo quando a indignação se torna desgastada. A democracia não se salva com o carisma. Ela se salva com quem não abandona sua consciência por conveniência.

O ataque à Venezuela era claramente planejado há tempo, mas, juntamente com as ameaças à Colômbia, Cuba e Groenlândia, marcou uma escalada. Imaginava-se um governo estadunidense isolacionista, mas parece ter se transformado em um governo imperialista.

Não há contradição. A linguagem isolacionista pode coexistir facilmente com comportamentos imperiais. O que une agressão externa e repressão interna é a mesma falha moral: a crença de que o poder não deve prestar contas, de que a força pode substituir a legitimidade. Seja a violência no exterior ou em casa, a lição é a mesma: o sofrimento alheio é aceitável.

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