Os primeiros cristãos tiveram sérias dificuldades em compreender e aceitar o batismo de Jesus. De fato, um evangelho apócrifo nega explicitamente que Jesus tenha sido batizado por João, argumentando que Jesus não havia pecado.
O artigo é de Martín Gelabert, frade dominicano, comentando o evangelho da Festa do Batismo do Senhor, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 06-01-2026.
Após as festividades natalinas, o primeiro evento que a liturgia nos apresenta é o batismo do Senhor. Encontramos um Jesus adulto que rompe trinta anos de silêncio em Nazaré.
Na segunda leitura da liturgia deste domingo, encontramos um bom resumo da atividade e missão de Jesus. Segundo o Livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus, "ungido por Deus com o Espírito Santo e poder, andava por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele". Jesus andava por toda parte fazendo o bem, isto é, tomando partido; e curando, isto é, lutando com todas as suas forças contra o mal. Sem indiferença: tomando partido pelo bem e contra o mal. A razão: porque Deus estava com ele, porque ele era ungido com o Espírito de Deus. Se Deus está contigo, se o Espírito de Deus se une ao teu espírito, tu também tomarás partido pelo bem e contra o mal.
A unção de Jesus pelo Espírito nos leva ao tema do batismo. Os relatos dos evangelistas Mateus e Lucas mostram a diferença entre o projeto penitencial de João Batista e o projeto evangélico de Jesus. O batismo de João não conferia o Espírito Santo; no máximo, preparava a pessoa para recebê-lo por meio da penitência. Portanto, a concessão do Espírito a Jesus, da qual falam os evangelistas mencionados, não está relacionada ao batismo de João. Os céus se abrem e o Espírito desce quando Jesus emerge das águas do Jordão. O batismo de João não confere o Espírito Santo. Este é um privilégio do batismo cristão. Somente o batismo da Igreja, administrado em nome de Jesus, confere o perdão dos pecados, a incorporação em Cristo ressuscitado, a filiação divina e o dom do Espírito Santo.
Os primeiros cristãos tiveram sérias dificuldades em compreender e aceitar o batismo de Jesus. De fato, um evangelho apócrifo nega explicitamente que Jesus tenha sido batizado por João, argumentando que Jesus não havia cometido pecado algum. Essa dificuldade leva os exegetas a afirmarem que o batismo de Jesus é um dos eventos mais “históricos” de sua vida, no sentido moderno da palavra história: um evento que de fato ocorreu. Se esse for o caso, se Jesus foi ser batizado por alguém de posição inferior, e ainda por cima para o perdão dos pecados, é necessário explicar o significado desse batismo e como ele se alinha com o fato de que Jesus “não cometeu pecado algum, e nenhum engano foi encontrado em sua boca”, como afirma 1 Pedro 2,22.
Jesus conscientemente se coloca no final da fila dos pecadores, descendo às profundezas da terra, pois o Rio Jordão fica em uma depressão de cerca de 408 a 416 metros abaixo do nível do mar; isso o torna o rio com a menor altitude do mundo. É significativo que ele se coloque no final da fila dos pecadores e no ponto mais baixo da terra. Aquele que é sem pecado e acima de tudo se coloca na posição oposta à que lhe pertence. Por quê? Jesus se identifica com os pecadores e confessa seus pecados. Não o seu próprio pecado, mas o pecado do mundo, o pecado de seus semelhantes, que ele toma sobre si. Ele é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Para tirá-lo, ele primeiro o toma sobre si.
O batismo de Jesus é uma das manifestações mais poderosas do alcance da Encarnação: Jesus não assume uma forma humana ideal, mas a carne da humanidade pecadora. Quando o Evangelho de João diz que "o Verbo se fez carne", essa carne é "carne pecaminosa". Essa é a extensão da solidariedade de Jesus, a extensão do seu amor. E por alcançar esse nível, ele tem o grande poder de tirar o pecado do mundo.
O batismo de Cristo no Jordão é uma epifania, uma manifestação: Deus se identificou com a humanidade, não com uma humanidade idealizada, mas com a humanidade real, a humanidade pecadora. Desde o início de seu ministério, Jesus se revela como aquele que "carrega o pecado do mundo" e, assim, se une a essa história humana de pecado e afastamento de Deus. Ele se une a Deus porque somente através da unidade e da solidariedade é possível a salvação.