Venezuela: "Somos despojos de guerra e um aviso para o mundo". Entrevista com Alejandra Díaz

Foto: Altamart | Pexels

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08 Janeiro 2026

Existe uma "verdadeira oposição" na Venezuela, uma alternativa tanto à extrema-direita de María Corina Machado quanto ao governo cada vez mais autoritário de Maduro. Essa oposição, longe dos holofotes, geralmente é definida como dissidência chavista, mas também reúne muitas outras forças democráticas e de esquerda. Entre muitas outras, inclui a advogada constitucionalista María Alejandra Díaz, ex-membro da Assembleia Constituinte de 2017, atualmente exilada na Colômbia para escapar da perseguição do governo.

A entrevista é de Claudia Fanti, publicada por il manifesto, 07-01-2026.

Eis a entrevista.

Foi você, em nome da Frente Popular Democrática, que impulsionou um recurso ao Supremo Tribunal de Justiça, em estrita conformidade com a Constituição, contra a omissão do Conselho Nacional Eleitoral em publicar os resultados da última eleição presidencial, recebendo em resposta a suspensão do exercício da advocacia. Queríamos pedir sua opinião sobre a situação atual na Venezuela e os perigos da nova estratégia de segurança nacional dos EUAComo você reagiu à agressão militar dos EUA?

Com profunda angústia, também porque mais de 70% da minha família ainda está na Venezuela; com uma profunda incerteza sobre o que acontecerá; com pesar pelas vítimas militares e civis da incursão militar dos EUA; e também com extrema indignação, porque o que aconteceu mostra como os EUA se sentem autorizados a agir como se fossem o xerife do mundo. O que aconteceu com Nicolás Maduro pode acontecer novamente com qualquer presidente ou qualquer autoridade que, aos olhos deles, se apresente como inimigo. É a morte do direito internacional. É um golpe mortal para a ONU, já em profunda crise com o genocídio em Gaza. Hoje, o princípio predominante é "tantum juris quantum potentiae" — cada um tem tanto direito quanto poder e força.

O que você acha da forma como a captura de Maduro foi realizada? Você acha que ele foi traído?

Com essa operação, os Estados Unidos demonstraram todo o seu poderio militar. Em apenas uma hora e meia, com rapidez e precisão, eles "exfiltraram" Maduro, livrando-se com extrema facilidade do serviço de segurança de elite que o protegia.

O que impressiona, no entanto, é que eles sabiam perfeitamente bem o bunker onde Maduro e Cilia Flores estavam; eles até sabiam o cofre onde os dois queriam se trancar.

Esses detalhes foram necessariamente obtidos de alguém próximo a eles. Então eu acredito que, sim, houve uma traição.

O que você acha que pode acontecer agora?

Os Estados Unidos deixaram claro que governarão a Venezuela para garantir uma transição pacífica. Eles veem nosso país como espólio de guerra, determinados a recuperar cada último dólar que, dizem, investiram e que lhes foi roubado. Na mente de Trump,a Venezuela é, na prática, seu protetorado. E parece extremamente irresponsável da parte daqueles que se autodenominam oposição e acreditam deter a maioria no país se manifestarem a favor da invasão. Há agora uma espada de Dâmocles pairando sobre a presidente interina Delcy Rodríguez: "Se você não fizer o que mandamos, pagará um preço mais alto do que Maduro", ameaçou Trump. Mas acredito que os Estados Unidos subestimaram a dignidade do povo venezuelano, o que, tenho certeza, mais cedo ou mais tarde levará a um governo capaz de administrar a riqueza do país para o benefício de todos. Como já foi feito no passado e como o governo Maduro não fez.

Infelizmente, nós, que representávamos a verdadeira oposição aos dois polos do poder, o governo e a extrema-direita, fomos presos ou forçados ao exílio. Atualmente, o salário mínimo na Venezuela é de US$ 0,41 por mês. No entanto, nunca ouvi María Corina Machado falar sobre isso.

São possíveis novas eleições livres e soberanas no contexto atual?

Seria a solução mais lógica. As eleições realizadas em 2024, que presumivelmente foram vencidas por Edmundo González Urrutia, não têm valor legal porque foram realizadas com um Conselho Nacional Eleitoral ilegítimo. Nós, venezuelanos, devemos resolver nossos problemas convocando novas eleições, diante da ausência forçada e definitiva de Maduro — seu sequestro — aplicando os mecanismos constitucionais. Porque não é fora da Constituição que encontraremos uma saída.

Apesar dos apelos à mobilização, até agora ela parece bastante limitada. Você esperava isso?

Há muito tempo que dizemos que o regime de Maduro perdeu o apoio popular. Perdeu-o devido aos erros que cometeu, como a redução dos salários, o desmantelamento das leis trabalhistas e a gestão pouco transparente da riqueza do país. Sem falar da corrupção e da perseguição a qualquer pessoa que pense diferente. Venho das fileiras do chavismo e encontro-me exilado por ter defendido os direitos dos trabalhadores e a soberania popular. Maduro perdeu o apoio popular porque em vez de defender o povo, atacou-o, empobreceu-o e subjugou-o, apesar de o termos alertado antes de 2018. O resultado é que a maioria da população permaneceu confinada em casa em vez de ir às ruas para se defender.

A "Doutrina Donroe", como foi apelidada, representa uma ameaça direta a toda a região da América Latina. Depois da Venezuela, será a vez de outros países?

A "Doutrina Donroe", como foi apelidada, representa uma ameaça direta a toda a região da América Latina. Depois da Venezuela, será a vez de outros países?
O caso Maduro é um exemplo de disciplina para todos os governos latino-americanos e, eu diria, para o mundo inteiro: se você não se alinhar aos interesses dos EUA, pagará um preço muito alto. Eu a chamaria de doutrina do xerife global.

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