08 Janeiro 2026
A presidenta inicia a busca por possíveis traidores, ao mesmo tempo que garante a submissão a Washington.
A reportagem é de Jacobo Garcia, publicada por El País, 08-01-2026.
Na Venezuela esquizofrênica de hoje, dois discursos coexistem. Um, dirigido ao mundo exterior, foi colocado por escrito por Delcy Rodríguez e fala de trabalhar "em conjunto" com os Estados Unidos, enquanto permanece em silêncio sobre a decisão de Washington de controlar os recursos energéticos e forçar a Venezuela a comprar apenas produtos americanos com esse dinheiro; e outro discurso, dirigido internamente, concentra o poder executivo e legislativo em uma única família: os Rodríguez, e acentua o modelo repressivo.
Para quem está em casa, a mensagem da nova presidência é que nada mudou e que a revolução continua sua marcha "mais firme do que nunca", o que inclui a busca pelos cúmplices da vergonhosa incursão dos EUA no coração de Caracas, que terminou com pelo menos 56 soldados mortos (venezuelanos e cubanos do círculo de segurança de Nicolás Maduro), segundo números oficiais de Caracas e Havana: nenhum do outro lado e o presidente em um tribunal de Nova York poucas horas depois.
Nesse sentido, o regime chavista divulgou o nome de sua primeira prisão de alto escalão: o general Javier Marcano Tabata. O oficial militar mais próximo de Maduro foi detido na terça-feira, rotulado como um dos grandes traidores, na busca desesperada do regime por bodes expiatórios para explicar por que os radares não funcionaram ou por que o investimento multimilionário em caças e sistemas de comunicação se mostrou inútil — sistemas que sequer foram ativados naquela noite.
Até o dia de sua prisão, Marcano era chefe da Guarda de Honra Presidencial e diretor da DGCIM, a agência de inteligência venezuelana que por muitos anos foi chefiada por Hugo Carvajal. Nem esperaram que ele chegasse em casa: a prisão ocorreu no plenário da Assembleia Nacional, e de lá ele foi levado diretamente para a cadeia, após uma confusa troca de tiros no Dia de Reis em frente ao Palácio de Miraflores, na qual drones e soldados trocaram tiros.
Desde então, veio à tona que o incidente, nunca oficialmente esclarecido, estava relacionado à prisão do General Marcano. Relatórios da inteligência colombiana, uma fonte eficaz de informações sobre eventos no país vizinho e acessada pela imprensa colombiana, indicam que Marcano é acusado de facilitar o sequestro de Nicolás Maduro. Seu envolvimento consistiu em fornecer aos Estados Unidos as coordenadas exatas de onde Nicolás Maduro e Cilia Flores estavam dormindo e em identificar pontos cegos no esquema de segurança cubano-venezuelano que os protegia. Segundo esses relatórios, ele era o homem infiltrado pelos Estados Unidos, e acrescentam que comunicações criptografadas entre o general e agências de inteligência estrangeiras foram detectadas semanas antes de 3 de janeiro.
Superado o choque inicial, o temor de outra incursão da Força Delta permanece uma ameaça real, periodicamente alimentada pelo círculo íntimo de Trump. Por isso, para substituir Marcano, Delcy Rodríguez decidiu cercar-se de linha-dura e escolheu o general Gustavo González López como novo comandante da Guarda de Honra Presidencial. A primeira nomeação da presidenta foi para o cargo de Ministro do Interior e diretor do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), com mandato até o final de 2024.
O Sebin é a polícia política do regime, responsável, entre outras coisas, pela notória prisão de Helicoide, um símbolo de tortura e repressão contra a oposição. Organizações internacionais e de direitos humanos já acusaram González López de supostos abusos durante seu mandato como chefe do Sebin, o que resultou em sanções dos Estados Unidos e da União Europeia. “Ele é um dos linha-dura. Sua nomeação não sinaliza nenhuma mudança”, afirma o deputado da oposição Stalin González, ecoando os dois pesos e duas medidas empregados pelo chavismo dentro e fora da Venezuela. Segundo o veículo de mídia independente venezuelano Efecto Cocuyo, o general González López está na lista de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA.
Enquanto o regime de Maduro, agora sem Maduro, consolida seu controle e repressão nas ruas, com gangues de motoqueiros armados circulando livremente por Caracas, a realidade externa se alinha à tutela dos EUA. Embora Diosdado Cabello tenha ameaçado nos últimos dias cortar todo o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos em caso de agressão — "nem uma gota", repetiu ele —, a realidade é que o novo governo venezuelano permanece em silêncio diante dos anúncios humilhantes de Trump e Marco Rubio, que indicam que todos os recursos energéticos da Venezuela ficarão sob seu controle. As autoridades venezuelanas também aceitaram tacitamente o anúncio de Donald Trump de que "as autoridades interinas da Venezuela enviarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo".
Mas não se trata apenas de silêncio. A reorganização dos homens que cercam Delcy Rodríguez está mais focada em apaziguar os Estados Unidos do que em enfrentá-los. Outra nomeação recente foi a de Calixto Ortega, designado Vice-Presidente para a Economia. O perfil de Ortega Sánchez é o de um homem leal à presidenta, com formação nos Estados Unidos, mestrado pela Universidade Columbia, MBA em Energia pela Escola de Negócios da Universidade Rice e estudos em Bancos e Finanças pela Universidade de Londres.
Antes de assumir a pasta da Economia, Ortega foi cônsul da Venezuela em Nova York (2013-2017) e Houston (2008-2013), além de delegado ao Comitê de Administração e Orçamento das Nações Unidas por um breve período em 2007. Ortega Sánchez pretende atender às demandas de Washington sem alarde, enquanto tenta tirar a economia venezuelana da crise, que enfrenta uma desvalorização de quase 500% da moeda local, alimentando temores de hiperinflação.
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