Lições aprendidas após um ano de investigação sobre os vínculos do Exército de Israel com o Vale do Silício. Artigo de Yuval Abraham e Harry Davies

Foto: gguy44/Canva

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05 Janeiro 2026

Em janeiro de 2025, Harry Davies e Yuval Abraham revelaram pela primeira vez que a Microsoft havia estreitado seus vínculos com Israel, assim como outras grandes empresas de tecnologia. Desde então, o The Guardian publicou uma série de investigações — em colaboração com o meio israelense-palestino em inglês +972 Magazine e, em hebraico, Local Call — que foram premiadas e trouxeram à tona uma relação simbiótica entre o Vale do Silício e o Exército israelense.

Uma das publicações revelou um programa israelense de vigilância em massa que coletava praticamente todas as ligações telefônicas da população palestina e as armazenava nos serviços de nuvem da Microsoft, o que desencadeou uma investigação interna que acabou levando a empresa a restringir o acesso de Israel a parte de suas tecnologias. Outra reportagem revelou que o Exército israelense havia desenvolvido uma ferramenta de inteligência artificial semelhante ao ChatGPT para analisar os dados obtidos por meio da vigilância dos palestinos. Um terceiro trabalho trouxe à luz que Google e Amazon aceitaram condições extraordinárias para garantir um contrato lucrativo com Israel.

Após um ano de trabalho, Davies e Abraham refletem sobre o que aprenderam acerca do papel que essas tecnologias desempenham na guerra de Israel contra Gaza, sobre se esses vínculos comerciais são sustentáveis e sobre o que as investigações dizem a respeito de como as guerras serão travadas no futuro.

A entrevista é de Noa Yachot, publicada por El Salto, 01-01-2025. 

Eis a entrevista.

Como mudaram as relações de Israel com as empresas de tecnologia após 7 de outubro?

Yuval Abraham: O Exército israelense vinha, havia muitos anos, fantasiando sobre o papel da inteligência artificial e do big data, uma tendência estreitamente ligada à ocupação dos territórios palestinos, que gera enormes volumes de dados. O que mudou após 7 de outubro foi a escala. O Exército se propôs a bombardear centenas de alvos por dia em Gaza e mobilizou dezenas de milhares de reservistas. Isso provocou um aumento massivo do uso de sistemas tecnológicos. E foi aí que entraram em cena as grandes empresas de tecnologia.

Harry Davies: Houve um enorme aumento da demanda, não apenas por capacidade de armazenamento das empresas de tecnologia, mas também pelos produtos que elas oferecem para analisar as informações usadas para travar uma guerra. O que é valioso para o Exército é a forma como esses serviços conseguem oferecer o chamado “armazenamento blob” ou genérico, que permite armazenar e processar quantidades infinitas de informação de inteligência bruta.

O que torna Israel um mercado tão atraente para essas empresas?

Yuval Abraham: Como explicamos em nossas investigações, o Exército israelense coleta há muito tempo as ligações telefônicas dos palestinos. Mas, se quiser registrar diariamente as ligações de toda uma população e conservar essas chamadas por longos períodos, precisa de muito espaço de armazenamento e de poder de processamento.

Se lembrarmos das revelações de Edward Snowden, muitas diziam respeito a metadados, que não ocupam muito espaço. Mas o Exército israelense também queria armazenar em massa arquivos de áudio, imagens e vídeos e, para isso, considerou que precisava da ajuda de empresas como a Microsoft. Na Cisjordânia, algumas fontes nos disseram que essas informações foram usadas para buscar “podres” das pessoas e chantageá-las com isso. Na Faixa de Gaza, sabemos que esse enorme tesouro de ligações telefônicas interceptadas também foi usado em ataques aéreos que mataram civis.

Portanto, dados são poder e dados são controle. E esses provedores americanos de serviços em nuvem permitem ao Exército israelense armazenar uma enorme quantidade de dados e filtrá-los de maneira muito eficaz. Isso tem consequências diretas para as pessoas no terreno.

Harry Davies: Yossi Sariel, o ex-chefe da Unidade 8200 [a agência de espionagem de elite de Israel], escreveu um livro sob pseudônimo; nós revelamos que havia sido publicado por ele. Nesse livro, articulou o que à época era uma visão ousada e radical — como Yuval descreveu —, essa fantasia da tecnologia do Vale do Silício. Ele entendeu as possibilidades que empresas como Google, Amazon e Microsoft poderiam oferecer ao Exército israelense. Dois anos antes de 7 de outubro, afirmou que exércitos e governos deveriam forjar relações com essas empresas semelhantes às que mantêm com companhias como Boeing e Lockheed Martin. Ou seja, já pensava nas empresas de tecnologia como atores fundamentais para a guerra e a vigilância, do mesmo modo que um contratante de defesa fornece componentes para aviões de combate ou fabrica bombas e mísseis.

Algumas de nossas reportagens analisaram como elementos dessa visão se materializaram e foram colocados em prática, tanto antes quanto depois de 7 de outubro, na Cisjordânia e em Gaza.

Sabemos que a IA é fundamental para as operações militares de Israel: o Exército desenvolveu suas próprias capacidades de IA e também comprou ferramentas de IA da Microsoft. Por que a IA é tão importante para os objetivos bélicos de Israel?

Yuval Abraham: A IA permitiu a Israel alcançar os resultados efetivos de um bombardeio intensivo sem perder a legitimidade de um ataque baseado em dados, com objetivos e metas. Em Gaza, uma das formas pelas quais o Exército israelense usou a IA foi atribuindo uma pontuação a quase todas as pessoas que tinham um número de telefone, determinando a probabilidade de essa pessoa ser membro do Hamas ou da Jihad Islâmica. Essa pontuação se baseava em um algoritmo de aprendizado de máquina [desenvolvido por Israel] chamado Lavender. Ele foi treinado com um conjunto de dados de membros do Hamas conhecidos por Israel. A IA permitiu ao Exército gerar e bombardear dezenas de milhares de alvos militares, numa escala que, sem a IA, não teria sido humanamente possível. Segundo algumas fontes, muitos dos alvos não eram membros do Hamas. E, em grande parte, Israel bombardeou essas pessoas não enquanto participavam de atividades militares, mas quando entravam nas casas de familiares.

O Exército israelense estava ciente da taxa de erro desses sistemas. No entanto, para mim, o fundamental da IA não são os erros que comete. É a escala de destruição que torna possível, bem como o discurso de legitimidade que habilita: um discurso de alvos e danos colaterais.

Parece que a IA também incentiva a vigilância em massa, pois permite analisar quantidades cada vez maiores de informação.

Harry Davies: As agências de inteligência de sinais há muito tempo coletam mais informação do que conseguem processar humanamente. Isso funcionava como uma espécie de freio à capacidade de realizar vigilância em massa. Acho que agora estamos assistindo a uma mudança em que a IA permite a uma agência de inteligência como a Unidade 8200 dar sentido a coisas que antes tinha dificuldade de compreender.

A Microsoft reconheceu explicitamente que as investigações motivaram a mudança em suas políticas. Vocês veem outros sinais de mudança dentro da indústria de tecnologia?

Harry Davies: Acho que estamos vendo muito desconforto e dissensão dentro dessas empresas, tanto entre os trabalhadores quanto, em certa medida, entre os executivos. Muitos funcionários se sentiram perturbados ao descobrir para que realmente contribuem os produtos e serviços nos quais trabalham incansavelmente. Surgiram grupos de protesto formados por funcionários e ex-funcionários dessas empresas. Isso acontece em todo o Vale do Silício e acredito que tenha influenciado a decisão tomada pela Microsoft como resultado das nossas informações. A empresa enfrentava muita pressão interna.

Yuval Abraham: E essas empresas também enfrentam uma questão legal. Se a CIJ (Corte Internacional de Justiça) acabar determinando que Israel cometeu um genocídio, a pergunta seguinte será: quem contribuiu para esse genocídio? Quais empresas ajudaram a mantê-lo e sustentá-lo? Para algumas pessoas dessas empresas que pensam no futuro, isso também pode ser um motivo de preocupação.

Parece que vocês acreditam que mudanças no apoio público a Israel poderiam afetar essas relações comerciais.

Yuval Abraham: Israel desenvolveu uma dependência dessas empresas para seu projeto Nimbus — um contrato colossal assinado entre Israel, Google e Amazon em 2021. Está transferindo os dados de muitos de seus ministérios e uma grande quantidade de informações do Ministério da Defesa para os servidores em nuvem dessas empresas. São empresas americanas e estão apostando que os Estados Unidos continuarão leais a Israel e não as bloquearão, limitarão ou sancionarão.

A Microsoft bloqueou apenas o acesso à tecnologia que permitia especificamente a vigilância em massa das ligações telefônicas palestinas, mas ainda existem muitas relações entre a Microsoft e o Exército israelense. Ainda assim, a ação da Microsoft causou inquietação entre muitas pessoas do sistema israelense.

É a primeira vez que sabemos que uma grande empresa de tecnologia retira seus serviços do Exército israelense. Isso levou algumas pessoas a se perguntarem se Israel está cometendo um erro ao dar tanto poder a essas empresas estrangeiras. Essa pergunta se insere em uma questão mais ampla sobre o que os Estados Unidos farão, o que acontecerá em 2028 se houver uma administração mais progressista na Casa Branca, num momento em que muitos americanos acreditam que Israel cometeu um genocídio em Gaza.

Em que vocês vão trabalhar em 2026?

Yuval Abraham: Acho que descobrimos apenas a ponta do iceberg.

Harry Davies: Ambos estamos muito conscientes de que, embora tenhamos dedicado muito tempo a essas reportagens, temos apenas uma visão parcial do sistema. Continuamos construindo uma imagem mais completa de como essa tecnologia foi e continua sendo usada em Gaza e também na Cisjordânia.

Há boas razões para continuar prestando atenção: os exércitos observam de perto o que outros exércitos fazem. Existe um grande interesse entre exércitos ocidentais pela forma como Israel conduziu essa guerra e integrou esse tipo de tecnologia.

E há outros exércitos cujos sistemas e processos de combate já estão profundamente integrados à tecnologia do Vale do Silício. Tomemos como exemplo o Exército dos Estados Unidos. Observe o que está acontecendo agora mesmo no Caribe. Essas operações estão livres da participação ou da dependência dos sistemas e serviços fornecidos por essas empresas? Suspeito que não. Não sabemos com certeza, mas o Pentágono e o Exército americano têm contratos muito importantes com todas essas empresas para a prestação de serviços em nuvem.

Depois de Gaza, precisamos analisar essas relações e nos perguntar: qual é a implicação dessas empresas e de sua tecnologia nas decisões, nas operações militares e na guerra em geral?

Yuval Abraham: Grande parte de nossas reportagens se baseia em denunciantes, em pessoas que estão próximas do poder ou que ocupam posições de poder.

Harry Davies: Nossas fontes são confidenciais e continuam sendo confidenciais; estamos sempre interessados em conhecer novas fontes. Nossa porta está sempre aberta.

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