Tarcísio e o Brasil condenado a andar em círculos. Artigo de Philipp Lichterbeck

Foto: Alan Santos | PR

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Setembro 2025

Ao se alinhar à extrema direita bolsonarista, o candidato mais provável da oposição para 2026 reforça a impunidade, ameaça a Justiça e mantém o Brasil preso ao passado.

O artigo é de Philipp Lichterbeck, jornalista alemão radicado no Brasil, publicado por DW, 10-09-2025.

Eis o artigo.

Em todos os países atualmente governados de forma autocrática ou ditatorial, a destruição da democracia começou com ataques ao Judiciário. Foi assim na Hungria, bem como na Turquia e na Venezuela. Hoje se assiste, praticamente ao vivo, nos Estados Unidos.

A tomada de poder por homens como Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdogan, Nicolás Maduro e Donald Trump só foi possível porque atacaram juízes, ignoraram sentenças e, por fim, lotaram os tribunais com aliados. O Judiciário (assim como todo o aparato estatal) foi esvaziado e alinhado, e a separação de poderes – base fundamental da democracia – praticamente extinta.

Caso o governo do Brasil volte às mãos da extrema direita – seja sob Tarcísio de Freitas ou um membro do clã Bolsonaro –, o país corre o mesmo risco. O presságio ficou evidente após as manifestações bolsonaristas do último domingo. Os protestos deixaram claro, por um lado, que o nome Bolsonaro ainda possui enorme força de mobilização, e o pensamento primitivo-vulgar continua amplamente disseminado, sobretudo entre os mais abastados. Por outro lado, ficou evidente que o Judiciário é o inimigo número um da extrema direita. Ele é difamado como politizado e parcial, até mesmo como ditatorial. Isso só pode significar, em última instância, que a extrema direita pretende acabar com o Judiciário como um poder independente.

É ainda mais alarmante que o governador de São Paulo agora bata nessa mesma tecla. No domingo, ele mostrou que não é um tecnocrata moderado da direita conservadora, mas um fanático – como a atuação agressiva da Polícia Militar de São Paulo sob sua gestão já deixava transparecer.

O candidato mais provável da oposição brasileira nas eleições de 2026 deslegitimou o Supremo Tribunal Federal diante de dezenas de milhares de apoiadores e deixou claro que não aceita o equilíbrio entre os poderes. Ele incendiou o ânimo no campo da extrema direita e polarizou ainda mais o país.

Perigo para a democracia

Pouco importa se fez isso por convicção profunda ou "apenas" por cálculo oportunista para garantir o apoio de Bolsonaro e de seus seguidores fanáticos. Seu vocabulário menos ordinário e sua postura de homem humilde de classe média já não podem mais disfarçar o perigo que ele representa para a democracia brasileira.

O fato é que Tarcísio de Freitas não reconhece como legítimo o processo contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, alegando que o julgamento teria se baseado em depoimentos manipulados. Para chegar a tal afirmação, é preciso um grau enorme de ignorância. O processo seguiu todas as regras de um julgamento regular e deu ampla oportunidade à defesa de apresentar sua versão dos fatos.

Ficou claro, após a análise das provas e a oitiva de todas as testemunhas, que os planos de Bolsonaro para tomar o poder não eram meras cogitações, mas propostas concretas que foram discutidas, elaboradas e registradas por escrito. O próprio Bolsonaro admitiu isso. Ele pessoalmente apresentou suas intenções aos comandantes do Exército, da Aeronáutica e da Marinha – como confirmaram em juízo –, e foi graças à recusa categórica dos dois primeiros em embarcar nessa aventura que os planos não avançaram.

O processo, portanto, baseou-se em muito mais do que apenas no depoimento do ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, como afirma Tarcísio de Freitas. Mas, ao fazer essa alegação, o governador segue uma típica estratégia do bolsonarismo: mentir, omitir e se colocar como vítima quando, na realidade, é o autor.

Sinal fatal

A postura de Tarcísio é ainda mais grave porque não ataca apenas o Supremo Tribunal Federal, mas contribui para deslegitimar todo o já disfuncional sistema de Justiça brasileiro. Numa sociedade em que quase ninguém assume responsabilidade por seus atos e todos colocam o interesse próprio acima do coletivo, o bolsonarismo envia o sinal fatal de que sentenças não valem nada e podem ser revertidas.

Poucos discordariam da frase de que a impunidade no Brasil tem proporções epidêmicas. Condenados a longas penas de prisão estão pouco tempo depois em liberdade, sobretudo políticos. Cria-se a impressão fatal de que lei e ordem nada valem e de que tudo é permitido. Certo e errado tornam-se negociáveis.

A preparação de uma anistia geral para os golpistas, como agora promovem Tarcísio de Freitas e o movimento bolsonarista antes mesmo de haver sentença, tem, evidentemente, um precedente. A anistia geral após a ditadura militar. Os crimes da ditadura não foram investigados, muito menos punidos judicialmente. Não houve acerto de contas, e o pensamento totalitário-militarista sobreviveu e mantém até hoje uma continuidade que ninguém encarna melhor do que o clã Bolsonaro e seus áulicos.

Se houver uma anistia geral, o Brasil continuará andando nesse círculo vicioso e repetirá mais uma vez sua história. Infelizmente, como tantas vezes, o Brasil parece condenado a andar sempre em círculos. Cada avanço, cada tentativa de escapar desse destino, é revertido pelas forças do passado.

Leia mais