Ditadura e autoritarismo no Brasil sob o primeiro julgamento. Artigo de Ivânia Vieira

Jair Bolsonaro | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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06 Setembro 2025

"Daqueles dias de tormenta – não superada – ao 02-09-2025, a caminhada se fez cheia de obstáculos advindos das entranhas da estrutura de poder e da sociedade. Caminhamos! O julgamento da primeira leva dos réus é uma gota de bálsamo sobre as feridas abertas em nossos corpos por um governo tirano e seus cúmplices"

O artigo é de Ivânia Vieira.

Ivânia Vieira é jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista do jornal A Crítica de Manaus, cofundadora do Fórum de Mulheres Afro-ameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

Eis o artigo.

Os dias foram difíceis. Alguns deles viraram semanas de dor e de pesadelo. Os meses pareciam se arrastar na teimosia do tempo da desesperança em querer permanecer entre nós. Os quatros anos revelaram os aliados das ruas, das igrejas, das universidades, do empresariado, da mídia, do judiciário, do legislativo, dos governos estaduais e municipais ao programa autoritário, xenofóbico, atrasado e profundamente ignorante ao qual o país estava submetido.

Deus, Pátria e Família” não estava superado. Ao contrário, se fez forte e tentou apropriar-se do verde-amarelo do Brasil. Nem Deus, nem Pátria, nem Família importavam, a não ser para a ‘família numerada’ (o cabeça mais ’01, 02, 03,04...’) que, agora escancaram: estavam dispostos a qualquer coisa por dinheiro, nas mãos da família, e pela submissão do país ao retrocesso e à condição de “quintal” como o quer o atual governo estadunidense.

As imagens passeiam na mente: um presidente que colocou a imprensa no cercadinho e demonstrava prazer em agredir jornalistas, em especial as mulheres; quando deputado federal, homenageou Ustra, um perverso torturador do Brasil. Arrastou personalidades e gente comum em passeatas e no coro pela volta da ditadura;

Seguidores alucinados com lanternas do celular acesa, tentando conexão com extraterrestres para atender aos seus pedidos; o 8 de janeiro de 2023; as joias; a tentativa de fuga; o afrontamento; a retorno do Brasil ao mapa da fome e brasileiros em disputa por sobras de comida, de ossos e de pelancas...

Nesse tempo sombrio, Manaus, uma das praças duradouras do abrigo da barbárie, seguiu o rito desse crime para ajudar a concretizar o golpe. A mesma Manaus onde a falta de oxigênio (em 2021) foi tratada com deboche governamental enquanto as pessoas morriam sem apoio para respirar. Aliás, este é um dos fatos para ser memória até que o relatório final da CPI da Covid-19 faça o ato da justiça acontecer. A tristeza e a dor nos marcam.

O dia do início do julgamento dos réus Jair Bolsonaro e mais sete auxiliares diretos (2 de setembro) chegou. É inédito. Com ele também está sob avaliação a democracia brasileira. Sob ataque ferrenho por setores nacionais e internacionais, nossa democracia tem nesse processo um dos seus mais delicados testes. Até agora a seiva da sua sustentabilidade a manteve.

Daqueles dias de tormenta – não superada – ao 02-09-2025, a caminhada se fez cheia de obstáculos advindos das entranhas da estrutura de poder e da sociedade. Caminhamos! O julgamento da primeira leva dos réus é uma gota de bálsamo sobre as feridas abertas em nossos corpos por um governo tirano e seus cúmplices. A sentença aguardada será símbolo de mais um passo na caminhada contínua pelo fortalecimento e a formação de um Brasil justo. Significa não deixar impune quem o quer assujeitado e refém de ditaduras não vencidas e do autoritarismo.

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