03 Abril 2025
Em 1990, quando os jesuítas argentinos estavam divididos sobre o papel da Igreja na política e na sociedade do país, a frustração com o estilo de liderança do futuro Papa Francisco resultou em seu exílio de dois anos em Córdoba.
A reportagem é de Christopher White, publicada por National Catholic Reporter, 02-04-2025.
O então padre Jorge Mario Bergoglio usou seu tempo solitário em uma residência jesuíta para rezar, escrever e ler — incluindo uma série de cinco volumes sobre a história do papado.
Mais tarde, Francisco descreveria sua "noite escura da alma" como um "tempo de purificação" para sua vida interior.
Três décadas depois daquela crise espiritual — aos 88 anos — Francisco está enfrentando outra encruzilhada espiritual enquanto se recupera de seu desafio físico mais sério. Suas cinco semanas hospitalizado por pneumonia dupla que quase lhe custou a vida duas vezes lhe deram tempo para refletir sobre sua vida até agora e o que ele espera realizar antes de morrer.
'Ele tem uma grande capacidade de aprender com a vida, com o que quer que aconteça, de captar a beleza mesmo em momentos sombrios. (…) Tenho certeza de que algo muito bonito sairá dessa experiência' — Cardeal Victor Manuel Fernandez.
Em sua reflexão do Angelus de 30 de março, Francisco fez alusão à sua doença, encorajando toda a Igreja a encarar o atual período da Quaresma como um tempo de cura.
"Eu também estou vivenciando isso dessa forma, na minha alma e no meu corpo", ele escreveu, dizendo que sua saúde estava melhorando.
Agora de volta à sua residência no Vaticano para uma convalescença de dois meses, exigida por médicos, os dias de Francisco têm algumas semelhanças com aqueles que ele passou em Córdoba: leitura, oração, celebração de missa e trabalhos leves, além de fisioterapia e terapia respiratória.
A recuperação de Francisco superou as expectativas dos médicos; eles agora estimam que ele recuperará de 90 a 100% de sua saúde anterior. Mas o papa octagenário, já um dos papas mais velhos da história, certamente está ciente de que o tempo está contra ele.
O que esse tempo de solidão no Hospital Gemelli, em Roma, e na Casa Santa Marta, no Vaticano, pode estar lhe ensinando — ou esclarecendo?
O cardeal Victor Manuel Fernandez, conselheiro teológico de longa data do papa e agora chefe do escritório doutrinário do Vaticano, acredita que uma nova etapa do pontificado o aguarda.
"Ele tem uma grande capacidade de aprender com a vida, com o que quer que venha, de captar a beleza mesmo em momentos sombrios", disse recentemente o cardeal argentino aos repórteres. "Por essa razão, tenho certeza de que algo muito bonito sairá dessa experiência. Não sabemos o que será, serão as surpresas do Papa Francisco".
O padre jesuíta James Hanvey disse que a tradição jesuíta de abertura ao mundo certamente influenciará Francisco.
"Essa abertura e esse universalismo, especialmente marcados pela compaixão, são claramente evidentes no Papa Francisco e são essenciais para o fortalecimento de seu papado", disse Hanvey, secretário do Serviço da Fé da Cúria Geral da Companhia de Jesus.
Hanvey disse que, enquanto Francisco usa esse período de convalescença para refletir sobre o ressourcement, ou as fontes da missão de seu papado, ele pode ser guiado pelas importantes contemplações inacianas sobre a Encarnação e a Natividade.
"Aqui, Santo Inácio nos convida a estar presentes para o Cristo vulnerável, recém-nascido, 'como um pobre servo indigno', mas atento às necessidades da criança e de sua família e pronto para servi-los de qualquer maneira que precisem, não importa quão pequeno seja o gesto", disse Hanvey. "Há um senso de indignidade própria e, ainda assim, privilégio em estar presente e servir. Aqui, pode-se ver algo da humildade no serviço que também marca o papado de Francisco".
Essa compreensão da humildade, disse Hanvey, está no cerne da compreensão da abordagem de Francisco à governança. Francisco busca discernir onde a conversão é necessária, tanto em um nível pessoal quanto estrutural — um discernimento que provavelmente só se aprofundou durante sua prolongada hospitalização e recuperação.
O cardeal dominicano Timothy Radcliffe entende em primeira mão os desafios de reorientar o ministério de alguém após uma doença com risco de vida. Após recuperar a consciência após uma operação de 17 horas para câncer de mandíbula em 2021, Radcliffe disse que se lembrava de ser "apenas um corpo deitado na enfermaria com tantos outros".
"Todas as minhas reivindicações de uma identidade importante como escritor, palestrante, padre, eram como nada", ele disse. "Foi um despojamento. Mas eu também percebi que o amor do Senhor foi livremente dado a cada uma das pessoas deitadas ali", ele afirmou ao National Catholic Reporter.
Uma semana antes de seu diagnóstico de câncer, Radcliffe concordou em ser coautor de um livro com seu irmão dominicano polonês, Pe. Lukasz Popko, sobre "conversas entre nós sobre conversas na Bíblia entre Deus e a humanidade".
Radcliffe relembrou ter trabalhado no projeto durante sua longa convalescença e confrontado algumas das questões mais desconcertantes das Escrituras com novos insights adquiridos com o tempo gasto em oração e reflexão durante sua recuperação.
"Perguntas não buscam apenas informações. As melhores perguntas são um convite para viver mais profundamente, para compartilhar a vida de Deus e de nossos amigos", disse ele. "Neste momento da vida da igreja, quando grupos raivosos se opõem uns aos outros com acusações e suspeitas, devemos nos aproximar uns dos outros com as perguntas mais profundas e ardentes em nossos corações, mendigos pela verdade em vez de campeões arrogantes do 'nosso lado'.
"Compartilhar nossas perguntas não é um sinal de fraqueza, mas da força daqueles que estão juntos em uma jornada", acrescentou Radcliffe.
Para Francisco, essa jornada — e o método para resolver essas tensões — tem sido o Sínodo sobre a Sinodalidade, um processo contínuo de convidar todos os católicos em todos os níveis da igreja a considerar como uma reforma de suas estruturas pode levar a uma maior inclusão e participação. Mesmo de sua cama de hospital, em 15 de março, Francisco assinou um plano de implementação do sínodo de três anos, garantindo que ele continue sendo uma prioridade para a igreja global após sua morte.
Após a recuperação de Radcliffe do câncer e de uma longa incapacidade de falar, Francisco o escolheu para servir como pregador do sínodo durante as assembleias de Roma em 2023 e 2024 (e o fez cardeal no mesmo ano) — um lembrete de que, mesmo depois das tribulações mais sombrias, ainda há um trabalho importante a ser feito.
Elisabetta Piqué, uma jornalista argentina que conheceu Francisco antes de ele se tornar papa, disse que Francisco tem um "caráter teimoso e determinado" que será fundamental para navegar no que está por vir para ele — e para a Igreja.
"Ele verá que sobreviveu a essas duas grandes crises de saúde durante a hospitalização e perceberá que Deus o quer aqui", disse Piqué, autora de Papa Francisco: Vida e Revolução.
Piqué disse que o benefício psicológico de estar de volta ao Vaticano, seu senso de humor e sua espiritualidade jesuíta o ajudarão a discernir sua direção. Além disso, ela disse que Francisco é "motivado por ser um pastor próximo às pessoas em momentos difíceis".
Durante os boletins médicos fornecidos aos jornalistas durante sua hospitalização, o Vaticano frequentemente notou que o papa estava lendo jornais.
Piqué disse que o papa está dolorosamente ciente de que "o mundo está polarizado, os líderes mundiais têm pouco respeito pelo estado de direito e há pessoas poderosas e ricas tirando vantagem dos pobres e migrantes".
Tudo isso, ela previu, "lhe dará força para dizer: 'Minha voz tem que estar lá neste momento'".