04 Abril 2025
"As universidades devem preservar seu lugar social de instância crítica e saber se defender se críticas superficiais vindas do mercado e das indústrias de tecnologia, tendo clareza sobre qual lugar ocupam e que seu papel é bem mais relevante do que alguns tecnocratas, CEOs e publicitários do Vale do Silício imaginam", escreve Moysés Pinto Neto, professor e filósofo.
Nas últimas semanas, temos acompanhado na mídia e, em conversa com colegas, os efeitos da proibição do uso de celular em sala de aula nas escolas. Segundo alguns depoimentos docentes, os alunos estão mais atentos, interessados e participativos. Séries como Adolescência têm também promovido uma defesa do ensino presencial em função dos riscos produzidos pelo mundo digital sobre o psiquismo dos jovens. Há uma literatura torrencial, além de muitos documentários e milhares de vídeos, mostrando os efeitos nocivos da hiperconectividade digital, apontando para a necessidade de um “detox” generalizado. Aliás, a palavra “tóxico”, em si, foi eleita “palavra do ano” pelo Dicionário Oxford, junto com a mais recente “brainrot” – algo como derretimento cerebral, um cérebro-geleia – e com elas a “positividade tóxica”, atitude que é a mais comum entre os influenciadores-coach de todos os tipos: corpo, moda, investimentos, alimentação, política, etc.
Ao mesmo tempo, os últimos dez anos têm sido para os professores de universidades privadas um contínuo de “formações pedagógicas” em que o principal item é o uso de tecnologia em sala de aula. Conhecemos esse paradigma:
(1) o mundo agora é totalmente diferente do mundo anterior;
(2) a tecnologia é um componente crucial de transformação;
(3) as competências e as habilidades são outras;
(4) ninguém sabe o que será o futuro;
(5) os alunos chegam cheios de vivacidade e prontos para usar a tecnologia, mas encontram a universidade “analógica”;
(6) é preciso inserir a tecnologia nas nossas práticas docentes para “fidelizar” esse aluno.
Universidades substituíram seus cursos presenciais por modalidades a distância; substituíram seus professores por “mediadores” que dão “feedback” às postagens dos alunos; demitiram dos seus quadros docentes muito qualificados e inclusive extinguiram Programas de Pós-Graduação, acontecendo até mesmo a perda da condição da universidade. Tudo em nome de quê? Da inovação. Do ingresso da tecnologia. Do novo mundo do século XXI. Da defasagem da sala de aula. Da necessidade de novas metodologias. Do novo aluno digital. (E do lucro, claro).
Hoje, no entanto, sabemos que tudo isso é muito contestável. As evidências estão aí, já as abordarei.
Mas, primeiro, o que me perturba é o seguinte: apesar de em muitas universidades particulares e comunitárias do Rio Grande do Sul haverem muitas pesquisadoras que são referência no tema, por que elas não foram ouvidas sobre o processo? Em vez de as universidades perguntarem a quem faz pesquisa, preferiram ouvir o marketing digital vindo das plataformas: a Lei do Inevitável. O monumental Metaverso, lembram-se? E a revolução das NFTs? Houve uma famosa faculdade particular de Porto Alegre cujo anúncio principal era vincular a matrícula ao ganho de um tablet para ser usado em sala. E talvez hoje ainda esteja estampado nos sites das principais universidades gaúchas: uso de tecnologia em sala de aula. A universidade da “inovação”. Das metodologias ativas à gamificação. E as sugestões dos administradores de que os professores copiem influencers em seu modo de ensinar? Reunião de emergência: o ChatGPT vai acabar com a educação superior em, no máximo, dez anos. O que faremos!?
Nisso, saltam aos olhos duas coisas.
A primeira é que, por falta de perspectiva crítica, as universidades engoliram muito facilmente o discurso publicitário, mudando suas gestões e sua organização para aderir a ele, como se fosse a flecha do inevitável. Hoje sabemos, contudo, que:
1. boa parte das críticas à “paralisia” da educação, como se ela fosse conservadora, era simplesmente necessidade de vender produtos que hoje se mostram bem aquém das suas promessas;
2. a “monotonia” do ensino tradicional, embora possa ser melhorada, tem a ver com a formação de competências específicas, como a concentração, a disciplina e a atenção, necessárias para qualquer bom profissional;
3. nem tudo é divertido. Há temas que não podem ser tratados do mesmo modo superficial como ocorre em redes sociais e isso exige trabalho;
4. a maior parte do universo digital que “faz a cabeça” dos adolescentes e mesmo dos adultos é baseado em poucas evidências, superficial, simplificador e baseado em promessas curto-prazistas.
Mas não é só isso. Sabemos também que:
1. embora a tecnologia se venda como “inevitável”, as respostas na educação ao uso de telas têm mostrado que colocar a educação nesse eixo é similar ao que seria ter colocado, no meio do século XX, a educação sob o controle da televisão;
2. as pessoas não se sentem bem com os efeitos da tecnologia. Ficam viciadas, ansiosas, deprimidas e esgotadas;
3. o combo aluno/digital e professor/analógico está longe de ser verdadeiro em todos os aspectos: acesso, proficiência, criatividade.
O papel da educação, e nela a educação superior, não seria refletir sobre o assunto e buscar contribuir para a regulação do uso da tecnologia, em vez de simplesmente se atirar nas modas – que muitas vezes são simplesmente obras desesperadas dos departamentos de marketing das Big Techs para valorização das ações no mercado financeiro?
Mas há um componente ainda mais grave.
Se apelo à “responsabilidade social” da universidade, vem rapidamente o administrador, o gerente, o gestor e responde: coisa de idealista. No mercado, é preciso sobreviver. Assim, a educação é um produto, aluno é cliente e precisa ser bem tratado. Sabem qual o problema desse raciocínio, para além de todas as possíveis discussões éticas, técnicas e políticas envolvidas? É que ele é um suicídio.
Se a educação é um produto e o aluno, cliente, e se estamos sujeitos a reproduzir as mesmas dinâmicas do mercado lá fora, copiando influencers, absorvendo as redes sociais e reproduzindo os mesmos discursos, nosso “produto” perde sua especificidade. Em outros termos, é o que está acontecendo agora: você não tem nada para vender. Alguém pode dizer: “estamos perdendo alunos! Vamos transformar nossas faculdades em formações de coaches e influenciadores, assim podemos recuperá-los”. Mas a pergunta é: por que quem já está no nível de acreditar que a universidade é dispensável irá frequentá-la se o discurso é o mesmo que o do mercado? Se posso cursar com um influenciador famoso que me ensina investimentos, por que estudar economia? Se posso descobrir como viver de apostas, por que cursar filosofia ou sociologia? Se posso fazer formação com um coach, para que fazer psicologia? Se o ensino é cada vez mais digital e tudo que acreditamos é baseado em IA, por que precisamos – e, pior, por que eu preciso – de pedagogia?
Venho advertindo às universidades particulares que elas estão cometendo suicídio ao demitir seus professores qualificados e apostar que o ensino superior será pautado pela ideologia do Vale do Silício. É verdade que eles nunca foram tão fortes, mas também é verdade que nunca houve um momento tão claro de consciência sobre os efeitos lesivos do abuso da tecnologia. E toda ideologia do Vale do Silício é pautada no abuso, é feita para o abuso, basta ler seus construtores como Jaron Lanier e Tristan Harris. Pode ser que, neste momento, estejam perdendo alunos, mas das duas, uma: ou um dia essas pessoas, como já vem ocorrendo na maioria dos profissionais sérios do mercado, irão perceber que seu conteúdo é superficial e, com isso, buscar aprofundamento, começando um movimento de retomada do que as universidades sempre foram; ou as universidades simplesmente vão definhar até a morte, porque na medida em que seu “conteúdo” será idêntico ao oferecido em cursos online – especialmente pela proliferação da modalidade à distância e do sistema de tutorias – não fará mais sentido ir para uma universidade.
O horizonte que ofereço aqui não é garantido, nem seguro, mas é mais razoável que o atual: é preciso suportar, momentaneamente, a inflexão do Vale do Silício, com sua ideia de substituição da educação convencional pelas suas tecnologias específicas, e entender que esse momento vai passar. Quando passar, vai ficar claro que a universidade é necessária. Basta utilizar com frequência todo tipo de recurso oferecido, do feed do TikTok ao ChatGPT, para perceber que nada disso tem a mínima qualidade sem uma intervenção humana qualificada. Não, os professores não serão substituídos por programadores, nem por algoritmos, porque um texto escrito baseado em estatísticas cruzadas nunca ultrapassará o clichê. Para se escrever um e-mail profissional, talvez o clichê seja até recomendável. Mas o clichê não nos basta. Alguém vai precisar entender como avaliar se o que a máquina escreveu está correto. Quem? Nós.
Isso significa que as universidades devem virar as costas para a tecnologia? Claro que não. Significa que as universidades devem preservar seu lugar social de instância crítica e saber se defender se críticas superficiais vindas do mercado e das indústrias de tecnologia, tendo clareza sobre qual lugar ocupam e que seu papel é bem mais relevante do que alguns tecnocratas, CEOs e publicitários do Vale do Silício imaginam.