18 Março 2025
O que aconteceu com Israel? A esperança dos sobreviventes do horror do nazi-fascismo é agora um país-regime racista, impregnado por um nacionalismo religioso-messiânico que está prestes a expulsar em massa os palestinos de Gaza e da Cisjordânia? Essa pergunta é levantada pelo novo livro de Daniel Bar-Tal, 77 anos, La trappola dei conflitti intrattabili (A armadilha dos conflitos intratáveis), que acaba de ser publicado pela Franco Angeli.
Professor emérito de Psicologia Política da Universidade de Tel Aviv, Bar-Tal descreve o rápido declínio da frágil alma secular e pacifista da sociedade israelense nas últimas duas décadas. A alma de uma esquerda que ele abraçou quando jovem e que, com muita dificuldade, havia crescido na década de 1980, levou aos Acordos de Oslo em 1993 com Yasser Arafat, mas já em 1995 havia sido severamente abalada pelo assassinato do primeiro-ministro trabalhista Ytzhak Rabin pelas mãos de um extremista judeu. Uma alma para a qual ele agora olha com saudade misturada com preocupação ansiosa por um futuro condicionado pela virada da raivosa intolerância radical desencadeada pelos horrores cometidos pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.
La trappola dei conflitti intrattabili. Il caso israelo-palestinese, de Daniel Bar-Tal (Foto: Divulgação)
A entrevista é de Lorenzo Cremonesi, publicada por La Lettura, 16-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Professor, Israel está traindo suas origens democráticas para se transformar em uma teocracia étnica intolerante?
O país nascido em 1948, que se descrevia como pluralista e livre, era, na verdade, bem diferente. David Ben Gurion, o pai da pátria, era um autocrata. Os primeiros a pagar por isso foram os mais de 150.000 árabes que permaneceram no país após a guerra de independência e a expulsão de outros 750.000 para o exterior. Eles foram submetidos a um duríssimo regime militar. Sem a permissão da polícia, não podiam trabalhar nem sair de casa, e isso até 1966. Ben Gurion era até mesmo contra a transformação dos acordos de cessar-fogo com o mundo árabe para não oficializar as linhas de fronteira: ele queria manter aberta a possibilidade de novas anexações territoriais depois que Israel já havia tomado muitas áreas que, de acordo com o projeto de partição estabelecido em 1947 pela ONU, seriam destinadas ao Estado Palestino.
A guerra também tinha sido deflagrada porque a frente árabe havia rejeitado o projeto de partição. Em todo caso, quando as coisas começaram a mudar?
Após a renúncia do primeiro governo de Ben Gurion, em 1954-1955, o novo premiê Moshe Sharett mostrou sinais de abertura e maior tolerância. Embora a censura continuasse rígida: os arquivos do Estado eram fechados para pesquisa; falar em público sobre a expulsão dos árabes durante a guerra de independência era impossível. Em 1959, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém que abordou o assunto foi demitido e obrigado a ir lecionar na Austrália.
A única salvação para Nethanyahu é o retorno dos ataques em Gaza. As acusações de corrupção flertam com traição. Pra sair do Foco Nethanyahu matará mais palestinos em Gaza e arriscara vida dos reféns israelenses. Enquanto isso seu filho permanece em Miami.
— Michel Gherman (@michel_gherman) March 18, 2025
Quando as coisas mudaram?
A partir do início da década de 1980, os chamados 'Novos Historiadores' finalmente tiveram acesso aos arquivos. Pesquisadores como Benny Morris, Tom Segev, Avi Shlaim, Baruch Kimmerling e Idith Zertal documentaram e discutiram a realidade da expulsão dos palestinos e suas consequências.
No livro, o senhor destaca a sequências de altos e baixos da sociedade israelense ao longo das décadas com relação à possibilidade de paz...
Sim, passamos por várias fases. Primeiro, a mobilização nacional alinhada com as versões oficiais e a propaganda do governo e do exército, de 1948 até meados da década de 1970. Depois, o crescimento das esperanças da esquerda pacifista, desde os acordos com o Egito em 1979 até o fracasso das negociações de Camp David para o nascimento de um Estado palestino entre o ex-primeiro-ministro trabalhista Ehud Barak e Yasser Arafat com a mediação de Bill Clinton em 2000. Finalmente, hoje: a afirmação do fanatismo messiânico dos colonos e dos últimos governos de Benjamin Netanyahu, que, com a bênção de Trump, prega abertamente a “judaização” dos territórios ocupados em 1967.
O Hamas não é também fruto da virada radical no mundo islâmico catalisada pelos atentados de 11 de setembro de 2001?
É óbvio que o Hamas foi influenciado pelo Al-Qaeda e depois pelo Isis. Mas Barak cometeu um grave erro ao culpar Arafat pelo fracasso das negociações em 2000. Naquele momento, até mesmo uma grande parte da esquerda considerava o acordo impossível. Se tivesse sido Jimmy Carter no lugar de Bill Clinton, as coisas teriam sido diferentes. O ditado israelense de que os árabes nunca perdem uma chance de fazer a paz é pura propaganda.
Será esse o fim das esperanças de paz: Israel sempre será um gueto cercado?
Acho que sim, serão necessárias décadas para voltar a uma sociedade aberta ao compromisso. Até os judeus mais liberais, mesmo na comunidade judaica estadunidense, tendem a apoiar Israel. Netanyahu continua a receber apoio irrestrito. Isso me surpreende, porque nas últimas semanas nosso exército tem atacado os palestinos na Cisjordânia: mais de 40.000 refugiados foram expulsos dos campos de Jenin e Tulkarem. Os colonos mais extremistas desfrutam do apoio de amplos setores do exército pelos ataques a vilarejos árabes.
Por que tudo isso está acontecendo?
Simples: um regime de ocupação não pode andar de mãos dadas com a democracia. Vimos isso na Turquia, na Rússia, na Índia, na África e em muitos outros lugares: a ocupação corrompe e distorce não apenas as sociedades ocupadas, mas também as ocupantes. Em Israel, a última tentativa de um compromisso concreto e talvez também mais favorável aos árabes foi feita pelo ex-primeiro-ministro Ehud Olmert em 2007-2008 com Mahmud Abbas, ainda hoje chefe da Autoridade Palestina em Ramallah. Mas havia uma acusação de corrupção pendente contra Olmert e ele acabou sendo preso. Depois de sua renúncia, veio o governo de Netanyahu e, desde então, estamos escorregando para um governo autoritário. Hoje a ditadura está ainda mais próxima: 35 leis liberticidas estão sendo discutidas no parlamento. A coalizão do governo é sólida: conta com 68 deputados dos 120 da Knesset e inclui partidos e movimentos fundamentalistas que teorizam a discriminação e a expulsão dos árabes. Netanyahu está desafiando os responsáveis do judiciário e a liderança do Shin Beth, o serviço de inteligência nacional. Acredito que ele terá sucesso.
Mas essas suas palavras não dão razão aos intelectuais e pensadores judeus - como Hannah Arendt, Karl Popper, Yehuda Magnes - que, até mesmo antes do nascimento de Israel e depois em seus anos de formação, questionaram a legitimidade da empreitada sionista?
Em Israel, o quadro é claro: o país está em processo de mudança radical para a direita. Mais de 70% dos israelenses são contra o nascimento de um Estado palestino, são a favor da expulsão da população árabe e gostariam da anexação total dos territórios ocupados. Apenas 15% se dizem liberais.
Mother of hostage held in Gaza calls to create a human chain to stop IDF assaulthttps://t.co/rGcIr2wwW4
— Haaretz.com (@haaretzcom) March 18, 2025
E quanto ao massacre de palestinos em Gaza?
Quase ninguém se lembra disso, continua sendo uma questão marginal até mesmo na esquerda israelense.
O senhor fala da instrumentalização do Holocausto, da atitude muito comum do lado israelense e judeu de que qualquer um que critique Israel é automaticamente acusado de antissemitismo. Isso não é uma estratégia perdedora no longo prazo?
Absolutamente sim. Em termos psicológicos, eu chamo isso de trauma escolhido. Ou seja, um trauma que não queremos curar, porque é útil para nos dar a auréola dos justos, das vítimas perenes que estão sempre certas. O judeu crítico deve ficar calado, e o não judeu, por sua vez, deve ficar calado, porque é facilmente culpabilizado por crimes que, na realidade, não lhe dizem respeito de forma alguma. Em Israel, o espectro do Holocausto desde sempre é explorado para exaltar a necessidade de segurança para os judeus, enquanto ninguém se preocupa com a segurança dos palestinos. Os números do massacre de Gaza são assustadores: fala-se de mais de 65.000 mortos, incluindo vítimas de fome e falta de cuidados médicos, além de dois milhões de pessoas sem casa. Mas, também nesse caso, os dirigentes israelenses e a opinião pública permanecem em grande parte indiferentes, se não convencidos de que foi justo. Nessa leitura que exime das culpas, as vítimas por excelência não podem ser os perseguidores.
A principal causa?
Na década de 1960, os habitantes dos kibutzim socialistas eram menos de 3% dos israelenses, mas 60% dos pilotos e das tropas de elite vinham de suas fileiras. Hoje, 80% desses mesmos corpos e dos oficiais vem de ambientes religiosos ou que concordam com as políticas de Netanyahu, o mais extremista na história do Estado.
Daniel Bar-Tal (Stalinabad, URSS, hoje Dushanbe, Tajiquistão, 1946), professor emérito de Psicologia Política na Universidade de Tel Aviv, está entre os mais respeitados estudiosos das barreiras sociopsicológicas subjacentes aos conflitos intratáveis. Sua contribuição teórica mais relevante é uma teoria sistêmica abrangente sobre as dinâmicas dos conflitos interétnicos violentos duradouros: como eles eclodem, como se intensificam e como podem ser neutralizados, até a pacificação.