24 Fevereiro 2025
Após uma campanha eleitoral dominada por temas como imigração e crise econômica, o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) se firmou como a segunda maior força do Parlamento Alemão (Bundestag).
A reportagem é de Jean-Philip Struck, publicada por DW, 23-02-2025.
Nas eleições federais antecipadas neste domingo (23/02), o partido quase dobrou sua votação em relação ao pleito de 2021, obtendo 20,8% dos votos, segundo a contagem final. São dez pontos percentuais a mais do que na eleição anterior.
Além de crescer, a AfD também ultrapassou legendas tradicionais como o Partido Social-Democrata (SPD) e os Verdes, as duas siglas que compõem o atual governo de coalizão liderado pelo chanceler federal Olaf Scholz, que sofre com impopularidade.
Os ultradireitistas ficaram apenas atrás da União Democrata-Cristã (CDU), a legenda chefiada pelo deputado Friedrich Merz, que deve liderar o próximo governo. Castigado nas urnas pelo eleitorado, o SPD sofreu uma derrota histórica e caiu para o terceiro lugar entre as futuras bancadas.
Nesta eleição federal, a AfD indicou como candidata a chanceler uma das colíderes da legenda, a deputada Alice Weidel.
Após a divulgação dos primeiros números neste domingo, Weidel celebrou o resultado. "Somos o único partido a dobrar em relação à última eleição - o dobro!", disse Weidel a apoiadores na sede do partido em Berlim.
"Resta ver o que acontecerá nas próximas semanas", acrescentou Weidel, referindo-se às negociações que devem ocorrer agora para formar um governo de coalizão. Em seguida, ela dirigiu palavras ao conservador Friedrich Merz, o político mais cacifado para se tornar o próximo chanceler federal.
"Se a CDU cometer fraude eleitoral contra a AfD, copiando nosso programa e depois entrando em uma coalizão com a esquerda, haverá novas eleições mais rápido do que se pode imaginar. Nós ultrapassaremos a CDU e esse é o nosso objetivo", disse Weidel.
Crescimento, mas ainda sem poder
No entanto, esse aumento expressivo entre o eleitorado não deve se traduzir necessariamente em poder para a AfD, já que todos os partidos tradicionais já avisaram que não pretendem se aliar com a sigla para formar um novo governo.
A principal esperança da AfD é que os conservadores da CDU rompam o "cordão sanitário" político imposto por outros partidos e convidem os ultradireitistas para formar uma coalizão, o que dispensaria arranjos com os social-democratas e/ou verdes. Como a CDU não conseguiu sozinha reunir mais de 50% dos votos, os conservadores terão que procurar parceiros para formar uma coalizão estável e garantir uma maioria entre os 630 deputados do Bundestag.
No entanto, o conservador Merz afirmou diversas vezes que não pretende negociar com a AfD, especialmente após a má repercussão de uma moção parlamentar promovida pela CDU ter sido aprovada em janeiro com votos dos ultradireitistas.
Esse cenário de crescimento, mas ainda distante do poder já é constante para a AfD em eleições estaduais, nas quais o partido não conseguiu integrar governos locais mesmo quando foi o mais votado. Isso foi particularmente observado no pleito estadual da Turíngia em 2024, quando o partido terminou em primeiro lugar, mas viu rivais menores se unirem para formar o governo local.
Trajetória
Fundada em 2013, inicialmente como uma sigla eurocética de tendência liberal, a AfD rapidamente passou a pender para a ultradireita, especialmente após a crise dos refugiados de 2015-2016. Com posições radicalmente anti-imigração, a legenda é rotineiramente acusada de abrigar neonazistas.
A legenda ainda tem vários diretórios estaduais classificados como "extremistas de direita" por serviços de inteligência, que monitoram de perto as atividades de seus membros.
Apesar disso, o partido tem registrado crescimento na última década. A legenda conseguiu formar sua primeira bancada federal em 2017. Em 2021, chegou a sofrer um leve declínio, mas retomou sua trajetória ascendente neste domingo.
A AfD é especialmente forte no Leste. Em uma tripla eleição estadual na região em 2024, a legenda chegou a terminar em primeiro lugar na Turíngia e em segundo na Saxônia e Brandemburgo – nesta última chegou a conquistar a maior fatia de eleitores entre 16 a 24 anos.
Já nesta eleição federal, redobrando seu discurso anti-imigração, especialmente após uma série de ataques cometidos por homens de origem estrangeira desde novembro nas cidades de Magdeburg, Aschaffenburg e Munique, a AfD também recebeu endossos externos durante a campanha por parte do bilionário sul-africano Elon Musk e o vice-presidente americano J.D. Vance, o que levou rivais a acusarem interferência externa.
No ano passado, Musk foi alvo de críticas ao afirmar que "Só a AfD pode salvar a Alemanha". A fala foi imediatamente celebrada e reproduzida por líderes do partido.
Tais acusações de interferência externa são rotineiras em relação à AfD. Apenas em 2024, um deputado da legenda foi acusado de receber verbas da Rússia e um assessor do partido foi preso por suspeita de espionar para os chineses.
Na reta final da campanha, o governo da Alemanha também acusou a Rússia de aproveitar a campanha eleitoral alemã para espalhar desinformação nas redes sociais e destruir a confiança na democracia.
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