Uma trégua depois de 46 mil mortos, mas Netanyahu ainda precisa de guerras. Artigo de Guido Rampoldi

Benjamin Netanyahu | Foto: RS / FotosPúblicas

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16 Janeiro 2025

"De qualquer forma, Netanyahu terá de inventar algo para sustentar o conjunto do colossal “Israel e o Ocidente contra o Eixo do Mal”, caso contrário, ficará clamorosamente claro que o conflito foi contraproducente para Israel", escreve Guido Rampoldi, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por Domani, 15-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Está chegando a Gaza um cessar-fogo que poderia ter sido assinado pelo menos um ano atrás, se Washington tivesse decidido usar o esmagador poder de barganha do país que abastece os arsenais israelenses. Trinta ou quarenta mil mortos depois, é improvável que a guerra realmente termine com uma paz duradoura.

Não pode aceitá-la a direita governante de Israel, porque o preço seria a concordância com o nascimento de um estado palestino autêntico, uma solução rejeitada pelo Knesset várias vezes, a última com uma maioria esmagadora (99 votos de 120). Não será aceita pelos palestinos, pelos que vivem na Cisjordânia nos vilarejos atacados semanalmente pelos colonos e pelos que estão acampados nas ruínas agora inabitáveis de Gaza.

Entre esses últimos, alguns, muitos, tentarão emigrar, em proporções provavelmente suficientes para tornar realidade o projeto atribuído a Netanyahu no início dos bombardeios: “reduzir” a população da Faixa. Mas outros, os mais jovens, dedicarão os próximos anos à vingança, o único alívio que resta àqueles que não podem esperar obter justiça em um processo internacional que, se for realizado, não terá réus presentes: líderes do Hamas mortos, Netanyahu e seus generais em segurança em Israel.

Portanto, o cessar-fogo se baseará em um acordo aberto às mais variadas interpretações, frágil, ambíguo, recusável. Para manter sua maioria coesa e adiar o acerto de contas com a história, Netanyahu precisa de um conflito permanente - se não for Gaza, será o Líbano; se não for a Cisjordânia, será a Síria. E será, acima de tudo, o Irã, o concorrente que em breve poderia se equipar da bomba atômica.

De qualquer forma, Netanyahu terá de inventar algo para sustentar o conjunto do colossal “Israel e o Ocidente contra o Eixo do Mal”, caso contrário, ficará clamorosamente claro que o conflito foi contraproducente para Israel. Guerra ineficaz no que diz respeito aos objetivos militares: o Hamas não foi exterminado, está preenchendo os vazios nas fileiras com a cooptação de adolescentes; e nem mesmo crueldades típicas de “limpeza étnica” conseguiram despovoar completamente o norte da Faixa, a intenção nunca admitida pelos generais.

Uma guerra desastrosa do ponto de vista político: de acordo com pesquisas da Pew, no início de 2023 as sociedades árabes já aceitavam a existência da nação judaica em suas fronteiras e os regimes não viam riscos em manter relações amistosas com os antigos inimigos. Tudo isso acabou. Agora, nenhuma dessas autocracias aceitaria seguir os planos israelenses para o futuro de Gaza sem um percurso direcionado para o nascimento de um Estado palestino.

Quando o cessar-fogo permitir a funcionários e jornalistas ocidentais um relato mais nítido do que aconteceu em Gaza nos últimos meses, ficará ainda mais claro que, ao escolher aquele modo de guerra, a direita israelense manchou a imagem do país nas próximas décadas, e nas proporções devastadoras ilustradas pelos levantamentos realizados em universidades estadunidenses: a futura classe dirigente ocidental está introjetando uma ideia nebulosa de Israel.

Pensar em mudar essa percepção recorrendo ao antissemitismo com os pretextos mais fúteis, a tática favorita do governo de Netanyahu e de seus fãs ocidentais, só pode piorar as coisas. Não ajudará a isolar o racismo judeofóbico. Não colocará panos quentes sobre as acusações contra o governo de Netanyahu, nem que seja pelo fato de que as mais afiadas vêm de judeus. Daquele judaísmo liberal que ainda pode salvar Israel.

Pode ser um pensamento a posteriori, mas se Israel tivesse se limitado simplesmente a punir o pogrom do Hamas com assassinatos direcionados, provavelmente teria obrigado não apenas as opiniões públicas árabes, mas até mesmo o extremismo palestino a acertar as contas com a infâmia daquele ataque e suas próprias divisões. Não foi assim.

Preferiu-se uma guerra desumana na qual o exército foi autorizado a exterminar até cem civis se percebesse a oportunidade de matar com eles também um líder do Hamas. Diante desse massacre de vidas e de valores que tem poucos precedentes neste século, grande parte do Ocidente fingiu não entender.

Era anunciada como a guerra do Bem contra o Mal, da democracia contra o terrorismo: mas o Bem era cego e a democracia inclinada ao terrorismo. Com exceção da Irlanda, Espanha, Bélgica e do solitário Borrell, a UE deu uma imagem de si mesma que somos tentados em definir como miserável. De fato, ausente.

Algum resmungo porque Israel estava “indo longe demais”. Um decidido não a sanções. Flexionado na retórica de direita ou de esquerda, em todo caso, nada. Com o qual devemos começar a acertar as contas.

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