A “transição energética” no capitalismo: impossível. Artigo de Raúl Zibechi

Fonte: Wikimedia Commons

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24 Fevereiro 2024

“Cabe questionar por que tanto alvoroço em torno da transição energética e o uso de energias renováveis. Hoje, boa parte do poderio do sistema está em potencializar um ambientalismo que não questione o capitalismo, com os mais diversos nomes (incluindo a mineração “verde” ou sustentável), para convencer os ambientalistas de que necessitam acreditar em políticas progressistas”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 23-02-2024. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O capitalismo estaria promovendo uma “transição energética”, para consolidar o capitalismo, em um período de crise e caos climático que pode ameaçar a sua legitimidade. Neste sentido, opera da mesma forma que faz diante dos questionamentos ao patriarcado e o colonialismo: buscando se legitimar com supostas políticas contra o machismo e o racismo, aparentando que o sistema compartilha aspectos das lutas feministas e dos povos oprimidos, com o objetivo de moldar um pequeno setor de fiéis que se inserem no topo da pirâmide do sistema.

A recente Cúpula Mundial do Clima (COP28), realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, demonstrou que promover o cuidado do clima e a transição para energias renováveis é profundamente hipócrita, quando o evento acontece em um país dependente dos combustíveis fósseis e se nomeia o diretor executivo da Companhia Nacional de Petróleo como o presidente da COP.

Conforme destaca a organização Grain, a COP “pareceu mais um evento empresarial” do que uma cúpula intergovernamental sobre o clima; um encontro semelhante ao Fórum de Davos, onde se reúnem bilionários. A Grain acrescenta que “a equipe dedicada ao lobby da indústria dos combustíveis fósseis e da carne totalizou um recorde de 2.756 pessoas, que lotaram salas e corredores”.

Conclui que “a COP foi capturada pelas corporações dos alimentos e o agronegócio” e que todas as suas declarações são vazias, meras representações e propaganda para o consumo do público distraído que, lamentavelmente, não é pouco e abunda mesmo em organizações que se denominam ambientalistas. É uma pena que ainda existam movimentos sociais que dão credibilidade a essas reuniões e que, inclusive, participem desses eventos, revestindo-os com uma legitimidade questionável.

Penso que precisamos compreender que o capitalismo realmente existente é profundamente dependente dos combustíveis fósseis, que os Estados Unidos, como núcleo do capitalismo, são intrinsecamente dependentes do petróleo e do gás, e que não podem e nem querem se livrar deles. De fato, a ascensão estadunidense à posição de potência mundial coincide com as descobertas e a exploração do petróleo e que reforçou o seu predomínio a partir do acordo com a Arábia Saudita, de 1945.

A especialista em temas energéticos, Gail Tverberg, argumenta que o sistema atual depende dos combustíveis fósseis, que são utilizados em todos os tipos de atividades, da Internet e a fabricação de painéis solares à construção de edifícios, à extração de matérias-primas e ao transporte de mercadorias.

Contudo, é na agricultura que a dependência dos combustíveis fósseis é determinante, uma vez que “tornou-se incrivelmente eficiente utilizando grandes equipamentos mecânicos, geralmente movidos a diesel, juntamente com uma grande quantidade de produtos químicos, incluindo herbicidas, inseticidas e fertilizantes”, sustenta o portal oilprice.

Sair da agricultura das corporações significaria para os países ricos viver como a maioria das nações africanas, que “utilizam bem pouco combustíveis fósseis” ou que suas populações vivam como os povos originários e camponeses da América Latina, onde o tempo de trabalho é dedicado principalmente à terra e quase não são utilizados combustíveis, nem agroquímicos.

Um último dado que vincula o capitalismo à predação da natureza é oferecido por um relatório que afirma que as infrações ambientais são a quarta atividade criminosa mais lucrativa do mundo. Referem-se ao desmatamento ilegal, à mineração, à pesca e ao comércio de espécies silvestres que “se tornaram um enorme motor financeiro. Em 2018, estimava-se que geravam de 110 a 281 bilhões de dólares anuais em rendas ilícitas, em escala global, segundo dados da Interpol”.

Como sabemos, o nosso continente é especialmente vulnerável a crimes contra a natureza, devido à sua biodiversidade e abundância de minerais e água. As leis promovidas pelos governos não conseguem deter os empreendimentos extrativistas, nem mitigar os danos ao meio ambiente.

Cabe questionar por que tanto alvoroço em torno da transição energética e o uso de energias renováveis. Hoje, boa parte do poderio do sistema está em potencializar um ambientalismo que não questione o capitalismo, com os mais diversos nomes (incluindo a mineração “verde” ou sustentável), para convencer os ambientalistas de que necessitam acreditar em políticas progressistas.

Não é verdade que grandes eventos como as COP, as conferências mundiais sobre a mulher e contra o racismo da Organização das Nações Unidas não tenham conseguido grande coisa. Conseguiram muito mais do que se poderia esperar, mas de forma indireta: deram vida aos progressistas do mundo que entretêm os de baixo, sem promover mudanças reais.

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