A identidade de católico, o Papa herege e o cristianismo de libertação. Artigo de Jung Mo Sung

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07 Fevereiro 2024

"Identidade é muito mais profundo do que discursos sociais ou filosóficos. Por mais racional e progressista que os meus textos teológicos de crítica ao capitalismo possam parecer, no fundo da minha identidade de católico eu encontro dentro de mim o terço que aprendi a rezar com minha mãe", escreve o teólogo católico leigo Jung Mo Sung graduado em Filosofia (1984) e em Teologia (1984), doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993) e pós-doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor titular da Universidade Metodista de São Paulo, no PPG em Ciências da Religião, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos — IHU.

Eis o artigo.

Há muitos católicos que se auto identificam e têm orgulho de serem católicos, mas muitos deles têm dificuldade com algumas das posições e atitudes do Papa Francisco. Já é conhecida a crítica pública de vários cardeais e bispos, mas isso também está ocorrendo no interior de muitas paróquias. Simplesmente taxa-los de conservadores não é acurado e, mais do que isso, não nos ajuda a entende-los e estabelecer um diálogo frutífero com eles.

Em uma conversa com um pequeno grupo de lideranças católicas sobre o cristianismo de libertação, o conhecido sociólogo Michael Löwy, que não é cristão, comentou que, no diálogo estimulado pelo Papa Francisco entre cristãos e marxistas europeus, sentia que lá o Papa tinha mais apoio entre os marxistas do que entre os católicos. Sem entrar em discussão quantitativa, vale a pena refletirmos o tema da identidade católica e o cristianismo de libertação.

Eu, particularmente, sempre quando estou em um ambiente “ecumênico” assumo publicamente que sou católico. Vivendo na Coreia do Sul, na década de 1960, em um tempo que a população cristã do país não passava de 1%, a minha identidade estave associada à uma experiência religiosa. Eu me lembro do velório do meu tio-avô quando a minha mãe disse a mim, que tinha uns 4 anos, e à minha irmã mais velha ir a um quarto vazio e rezar o terço pela alma do falecido. Um parente adulto nos viu rezando e comentando a outras pessoas: ah sim, eles são católicos. Eu descobri que a minha família nuclear era diferente do resto da minha família mais ampla. Vindo ao Brasil, em 1966, como imigrante, com todas as dificuldades que isso significa, uma das coisas que me ajudou muito a superá-las foi a minha identidade de católico que, além da missa, reza terço.

A identidade de uma pessoa ou grupo é construída, entre outras coisas, pela proximidade e a diferença específica com outros grupos sociais. Por exemplo, com a emergência do pentecostalismo (no sentido amplo) em diversas formas nas últimas décadas, qual é a diferença entre o “nascido no Espírito” no interior de uma igreja pentecostal e na Renovação Carismática católica? Católico carismático sabe que é católico, e não um “crente”, porque o seu grupo ao qual pertence tem devoção à Nossa Senhora e ao Papa. Sem essas duas diferenças, se perde a sua identidade religiosa. De uma certa forma, os marcos de identidade católica no mundo de “pluralismo religioso cristão” são ou eram a devoção à Nossa Senhora e o Papa.

Estou trazendo essas questões para mostrar que temos um problema muito sério no interior do catolicismo. O fato de setores do catolicismo que têm orgulho de ser católico, – isto é, o fato de ser católico é importante na sua identidade e afeta suas posições político-sociais – romperem com o Papa e o acusarem de herege, ou algo parecido, é algo que precisa ser discutido no interior do cristianismo de libertação.

Simplificando, podemos dividir dois grupos entre os católicos “conservadores”:

a) os que são contra a posição do Papa em favor dos pobres e das pessoas que tem uma vida sexual ou familiar distinto do modelo chamado “natural”;

b) os que são a favor da ação do Papa em favor dos pobres e marginalizados, mas são contra essa moral familiar/sexual “relativista”.

Com pessoas do primeiro grupo não é possível dialogar, pois eles são contra o ensinamento tão óbvio de Jesus nos evangelhos: cuidar e ajudar os pobres. Mas, as pessoas de segundo grupo, que concordam que ser católico é também ajudar os pobres, é possível e necessário o diálogo se queremos ampliar o número de pessoas na aliança contra o sistema social atual.

A questão é: se, em termos sociais, ser católico é aceitar a importância da Nossa Senhora na sua cosmovisão e também o Papa ou papado, porque tantos católicos, em nome da defesa da sua identidade católica, são contra o atual Papa. Muitos deles pretendem manter a sua identidade de católico substituindo o atual papa pelo um outro. Por isso, eles citam o papa anterior como a fonte de autoridade da sua identidade e doutrina.

Esses católicos e católicas, leigos/as ou religiosos/as, fazem isso porque a doutrina que a Igreja Católica lhes ensinou como sagrado que a Igreja e os católicos devem ajudar os pobres e que, o mais importante aqui, o modelo de família e de relações de gênero patriarcais são predeterminados por Deus e revelados na Bíblia e na tradição da Igreja. Esses grupos são contra uma parte do discurso e ação do Papa Francisco porque levam a sério o que a Igreja Católica tem sido por muito tempo.

O que a “direita” cristã faz é, em nome da moral familiar tradicional negar não só a questão da sexualidade e família, mas também a solidariedade com os pobres. A “esquerda” cristã, em nome da opção pelos pobres, tem dificuldade em entender a importância do diálogo com católicos que levam a sério a moral que a Igreja Católica ensinou por tanto tempo.

Simplesmente pedir aos católicos “conservadores”, mas solidariedade aos pobres, que abandonem a sua identidade de católico só porque os discursos “progressistas” dizem isso, não faz sentido para eles. Identidade é muito mais profundo do que discursos sociais ou filosóficos. Por mais racional e progressista que os meus textos teológicos de crítica ao capitalismo possam parecer, no fundo da minha identidade de católico eu encontro dentro de mim o terço que aprendi a rezar com minha mãe.

Aprofundar esse tema é muito importante para o fortalecimento de um cristianismo de libertação para o nosso tempo. (A continuar.)

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