Como os conservadores deformam o pontificado de Francisco. O novo livro de Massimo Borghesi

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02 Junho 2022

 

Como já é bastante conhecido, desde o Concílio Vaticano II até hoje, todos os últimos pontífices foram objeto de críticas. Às vezes, muito duras. Nem Paulo VI, nem João Paulo II, nem Bento XVI foram poupados. Críticas provenientes tanto de setores ditos progressistas, para os quais a reforma conciliar deveria assumir o aspecto de uma verdadeira revolução; quanto de ambientes tradicionalistas, para os quais qualquer mudança na Igreja é lida como heresia.

 

O comentário é de Antonio Salvati, publicado em Globalist, 13-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Capa do livro Il dissidio cattolico.
La reazione a Papa Francesco (Fonte: Divulgação)

De tudo isso e de muito mais Massimo Borghesi dá conta em seu último livro, intitulado “Il dissidio cattolico. La reazione a Papa Francesco” [A dissidência católica. A reação ao Papa Francisco] (Jaca Book, 2022, 416 páginas).

 

Para Borghesi – que se concentra em particular nas críticas ao Papa Francisco – é necessário partir do 11 de setembro para entender melhor a atual reação conservadora que tentou nos últimos anos deformar e deslegitimar o pontificado de Francisco.

 

O ódio e o medo, “a raiva e o orgulho”, como escrevia Oriana Fallaci, despertados pela loucura dos pilotos suicidas de Osama bin Laden, provocaram uma metamorfose do próprio testemunho cristão. Após o desaparecimento do adversário comunista, graças a um novo inimigo representado pelo islamismo radical, uma parte do mundo católico do segundo milênio – especialmente o estadunidense – volta à cena com maior vigor. Volta à tona o quadro maniqueísta, e o cristão pode retomar o seu traje de combate abandonado nos anos 1990.

 

Assim, em poucos anos, o cristão – como Borghesi explicou em seu livro anterior, centrado no catolicismo estadunidense, “Francesco. La Chiesa tra ideologia teocon e ‘ospedale da campo’” [Francisco. A Igreja entre ideologia teoconservadora e ‘hospital de campanha’] – “de missionário e aberto ao diálogo torna-se identitário e conflitual, de social torna-se individualista e burocrático, de pacífico torna-se beligerante, de católico e universalista torna-se ocidentalista”. Nasce a figura do cristianista. Um fenômeno novo, sem dúvida, pelo menos em relação aos últimos anos, explica Lucio Brunelli: o cristianista diz “Chega desse discurso ecumênico, é preciso uma identidade forte”.

 

Sentem-se minoria e, na política, têm preferência pela centro-direita, na economia são ultraliberais, em nível internacional são fervorosos americanistas. “Mas a verdadeira novidade dos cristãos não é a escolha de um lado. É o pathos que põem em prática. O espírito de militância. E sobretudo a forte motivação ideológico-religiosa. Uma atitude beligerante em relação ao Islã deriva, sem dúvida, da teologia da unicidade de Cristo Salvador.” Soma-se a isso “a acusação desdenhosa contra aqueles cristãos que se dedicam predominantemente às iniciativas sociais em favor dos ‘últimos’. Da denúncia do irenismo teológico, chega-se ao entusiasmo (não só aprovação, mas entusiasmo) pelas expedições militares aliadas (...) minoritário, mas não tanto quanto se acredita, pois se enxerta (extremizando-se) em tendências doutrinais e políticas que encontram espaço até mesmo em alguns setores da hierarquia eclesiástica. O verdadeiro ponto de distanciamento com os cristianistas não é uma diferença de pontos de vista políticos. É esse uso do cristianismo como bandeira ideológica”.

 

O “cristianista” é o homem da ortodoxia, cujas energias são postas a serviço da Verdade. Os dois polos da conhecida encíclica Evangelii nuntiandi de Paulo VI, evangelização e promoção humana, “desaparecem do vocabulário – sublinha Borghesi – e só resta a verdade doutrinal, brandida como uma bandeira, o estandarte de uma identidade forte em luta contra um mundo alheio, habitado apenas por inimigos”.

 

Para o “cristianista”, Bergoglio representa “o compêndio do mundo ‘líquido’, aquele dialogante, pacífico, misericordioso, generoso com os pobres e os imigrantes, aberto à relação com o Islã”.

 

Como defensor do Concílio Vaticano II, o Papa Francisco também se tornou o alvo ideal para as correntes tradicionalistas e anticonciliares que voltaram ao seu auge graças à onda populista. A direita política alia-se à religiosa a partir de uma visão maniqueísta da história. Assim, realiza-se uma verdadeira batalha, “uma espécie de Armagedon final entre justos e corruptos, (que) tomou a forma da luta pelo primado da Verdade contra o da Misericórdia”.

 

O Papa Francisco sempre personificou a visão de uma Igreja para todos, sem exceção, não para alguns. A Igreja, portanto, não é um clube seletivo e fechado: não é um ambiente social católico por tradição, nem de pessoas capazes de heroísmo virtuoso. Uma Igreja de portas misericordiosamente abertas. O Papa Francisco conquistou o coração de muitíssimos fiéis porque representa bem o pastor que cuida das suas ovelhas, das perdidas e das do ovil, que as trata com misericórdia.

 

No entanto, isso não impediu – como documenta Borghesi – o desenvolvimento da “dissidência católica”, a dialética dramática que dividiu a Igreja nos últimos anos. O livro de Borghesi é uma coleção de artigos e entrevistas que vão desde a eleição do Papa Francisco em 2013 até hoje. Os ensaios e as entrevistas contidos no livro permitem compreender “ao vivo” o quadro dessa “dissidência”, feita de eventos e de personagens.

 

Enfatizar essa “dissidência” também mostra o quanto estamos vivendo em um tempo marcado por uma profunda inquietação e por uma crise não só de crenças, mas também de fé. Muitos se perguntam sobre o futuro do cristianismo. Recentemente, o cardeal Matteo Zuppi declarou com veemência: “A Igreja corre o risco de ser irrelevante, mesmo que as estatísticas sobre os fiéis não sejam tudo. Algumas escolhas do Papa Francisco são importantes para os católicos e para todos. A cristandade acabou. Recomecemos sendo evangélicos, falando com todos, retomando as relações com todos. Ser uma minoria criativa que fala de futuro. Não defendamos os bastiões, temos muito a fazer para superar as dificuldades da Igreja”, para sair da crise enfrentando os desafios da pós-modernidade.

 

É necessário ter como ponto de referência o apelo do papa: “No ovil, temos apenas uma ovelha, e vocês têm que sair para encontrar as outras noventa e nove”.

 

Segundo diversos analistas e protagonistas do mundo católico italiano, é preciso fugir do fundamentalismo, mas também não é preciso barricar-se nos valores inegociáveis, pois assim os católicos são marginalizados e renunciam ao diálogo construtivo com o restante da sociedade. É inevitável praticar o caminho do diálogo, pois – diria o Papa Francisco – “a vida da Igreja está na relação”. Por isso, “colocar um pé fora do seu recinto ajudará a não cair e permitirá que a sociedade a reconheça”. Em suma, deverá resistir às tentações políticas para assumir “um papel profético na sociedade”.

 

Com razão Andrea Riccardi, no seu sagaz livro “La Chiesa brucia. Crisi e futuro del cristianesimo” [A Igreja queima. Crise e futuro do cristianismo] (Laterza, 2021) adverte que o cristianismo só está vivo quando luta, ou seja, quando vive agonicamente, como já havia defendido Miguel De Unamuno.

 

Apesar da percepção de um declínio quase imparável – observa Riccardi – a agonia, no sentido mais profundo, é luta, não resignação. A luta de hoje é estar em contato com a indiferença, o descrédito no máximo grau, o redimensionamento nos fatos e nas existências. Para os cristãos, é fácil não lutar: eles são tolerados como um nicho. Não se trata de uma luta contra alguém ou alguma coisa, que excomunga, desacredita, agride. Muitas vezes a Igreja é tentada pelos choques frontais, como alguns ambientes católicos conservadores parecem desejar. É uma forma de mostrar que se está vivo. Não se trata de conquistar, porque a sua existência está fundamentada na gratuidade.

 

Nesse sentido, são de extrema atualidade as reflexões do filósofo cristão francês Emanuel Mounier, formuladas imediatamente após a Segunda Guerra, nas quais convidava os cristãos a assumirem a tarefa de buscar elementos comuns com os valores preconizados pela modernidade, considerando também que “o mundo atual não encontra mais o cristianismo”.

 

Para Mounier, os cristãos, ao se comportarem de maneira irrepreensível no plano doutrinal, por meio de seus comportamentos pequeno-burgueses, operam a traição ao Evangelho, mantendo-se praticamente fechados aos mesmos ideais da modernidade sobre os quais se baseia o pensamento secular.

 

“Pode-se rejeitar, condenar, extirpar um erro ou uma heresia. Mas não se rejeita um drama, e a cristandade, na sua paz superficial, está hoje diante do mais terrível dos dramas nos quais jamais esteve envolvida. O cristianismo não é ameaçado pela heresia: não se apaixona mais por isso. Ele é ameaçado por uma espécie de apostasia silenciosa constituída pela indiferença em torno dela e da sua própria distração. Esses sinais não enganam: a morte se aproxima. Não a morte do cristianismo, mas a morte da cristandade ocidental, feudal e burguesa. Uma cristandade nova nascerá amanhã, ou depois de amanhã, a partir de novos estratos sociais e de novos enxertos extraeuropeus. Desde que nós não a sufoquemos com o cadáver da outra.”

 

São considerações, como dizíamos, de extrema atualidade. E, sobretudo, preciosas para repensar o papel profético dos cristãos na sociedade.

 

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