A teologia precisa mudar à luz da crise dos abusos sexuais. Artigo de Isabelle de Gaulmyn

Foto: Karl Raymund Catabas | Unsplash

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14 Novembro 2023

"As histórias pessoais de vítimas de abusos sexuais do clero e a forma como a Igreja respondeu demonstram claramente que a teologia deve sempre 'partir da realidade', como decretou recentemente o papa".

A opinião é de Isabelle de Gaulmyn, editora-sênior do La Croix e ex-vaticanista. O artigo foi publicado por La Croix International, 10-11-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Eles mudaram a nossa teologia! Em termos ligeiramente diferentes, foi isso que ouvimos na assembleia do Sínodo sobre a reforma da Igreja, realizada no mês passado no Vaticano.

Mudar a teologia? Alguns dos Padres sinodais, sem dúvida teólogos eruditos, sentem que esta XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos deu espaço demais aos testemunhos pessoais dos participantes. A Igreja, sentem eles, corre o risco de perder sua bela racionalidade e seu discurso, nascidos depois de quase 2.000 anos de teologia, em troca de meras “histórias de vida”.

Esses Padres sinodais dificilmente se tranquilizaram com o novo motu proprio do Papa Francisco, Ad theologiam promovendam [disponível em italiano aqui], um decreto que atualiza os estatutos da Pontifícia Academia de Teologia, propondo uma forma diferente de fazer teologia, ainda mais em contato com a vida real e com o que encontramos in loco...

É uma teologia que deve se deixar “desafiar pela realidade” e chegar aos fiéis onde eles estão, acabando com a “teologia de laboratório”... com sua lógica fria e dura que busca dominar tudo. O texto, divulgado no dia 8 de novembro, não poderia ser mais claro. “Os bons teólogos, assim como os bons pastores”, diz, “têm o cheiro do povo e da rua.”

O discurso da Igreja pode se ancorar em experiências fortes, individuais e únicas? A verdade é que percorremos um longo caminho, pois muitos textos teológicos se limitam a generalidades desencarnadas. É importante notar também que essa preocupação vai ao encontro de uma tendência fundamental da nossa era individualista, que dá maior espaço à experiência e ao sentimento pessoais, como é o caso, por exemplo, da cultura (as narrativas do “eu”), assim como da justiça, da educação e assim por diante.

Discernir os espíritos

O tratamento dado pela Igreja ao abuso sexual é uma boa ilustração disso. Foi só quando as lideranças da Igreja finalmente concordaram em escutar as vítimas, quando abriram espaço para as histórias delas que a instituição saiu de sua frieza para avaliar a gravidade e a escala do fenômeno. Desse ponto de vista, contar a própria experiência vivida é essencial. Foi a única coisa que conseguiu chegar ao coração dos bispos, sacudi-los e desafiar seus anos de silêncio e de políticas com a “cabeça enfiada na areia”.

Na verdade, foi sem dúvida uma espécie de terremoto para as lideranças da Igreja deixarem-se dominar por emoções tão fortes, eles que, muitas vezes, têm o cuidado de se distanciarem dos acontecimentos. Ao fazerem isso, reviveram uma antiga tradição cristã, a dos “movimentos espirituais”, isto é, a capacidade de “discernir os espíritos” ou as emoções – alegria, tristeza, tristeza – que nos perpassam.

Em um catolicismo altamente formatado pela racionalidade ocidental, só nos resta nos alegrar por ver que a Igreja reaprendeu, por meio dessa terrível provação da descoberta dos abusos sexuais, a se deixar sacudir pelas vítimas e a aceitar o testemunho delas como um ponto de partida para a reconstrução.

Ficar refém das emoções

Isto é, com a condição de não nos tornarmos reféns das nossas emoções, trancando as vítimas dentro dos limites de sua história pessoal. O pior seria deixar por isso mesmo, coçar as feridas com complacência, de uma forma meio dolorosa, atribuindo às vítimas esse status definitivo.

Contar a própria história é necessário, pois isso tanto libera quanto sacode as coisas. Age como uma revelação. Mas não é suficiente. As associações das vítimas estão bem cientes disso e também pedem para fazer parte da solução, para serem ouvidas para implementar políticas de reparação e de prevenção, e não apenas para contar suas provações...

Pelo contrário, a teologia deve assumir essa realidade como ponto de partida, confrontando-a com outras formas de conhecimento e de experiência, e, assim, lançando as bases para um pensamento novo.

Porque uma teologia puramente emocional poderia levar rapidamente à manipulação das consciências e à perda do livre arbítrio.

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