As surpresas do Papa Francisco. Artigo de Enzo Bianchi

Papa Francisco. (Foto: Reprodução | Vatican Media)

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11 Julho 2023

"Nos últimos dias, nomeou como novo Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé o arcebispo de La Plata, o argentino Víctor Manuel Fernández, conhecido como colaborador na redação dos escritos do Papa Francisco e autor de corajosos textos espirituais. Uma nomeação que despertou a revolta dos católicos tradicionalistas e de outros fiéis. Mas o que mais indignou foram as palavras contidas na carta com a qual o Papa acompanhou a nomeação, que pedem ao novo Prefeito posições claras, uma ruptura com o passado", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 10-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

O Papa Francisco nos surpreende cada vez mais nos últimos tempos de seu pontificado.

Enquanto muitos se questionaram se o Sínodo seria uma repetição atualizada daqueles precedentes, celebrados segundo o Ordo pensado por Paulo VI, o Papa modificou profundamente a sua estrutura tornando partícipes do processo e da celebração do evento também membros não bispos, homens e mulheres que são simples fiéis, aos quais foi dada também a faculdade de se exprimir com o voto sobre as proposições que emergirão da assembleia. O Sínodo continua sendo sempre Sínodo dos bispos, porém, pela primeira vez na história da Igreja Católica, torna-se realidade o princípio forjado pelo cristianismo, mas nunca praticado: "O que diz respeito a todos deve ser discutido por todos e deliberado por todos". Não havia muitos de nós esperando por um paradigma inédito para o Sínodo e as probabilidades eram escassas, mas o Papa Francisco antecipou profeticamente a igreja e a teologia comum.

Muitos cristãos que desejam uma Igreja mais conforme ao Evangelho e aos tempos atuais temiam que o Papa Francisco - que, no entanto, é capaz de surpreender pela parrésia, pela coragem, pela novidade de muitas das suas afirmações sem, contudo, prever procedimentos e normas do Direito canônico consequentes (bem como reescritas do Catecismo de João Paulo II),- teria suscitado muitas esperanças, mas destinadas a permanecer no plano dos desejos e das expectativas.

Nos últimos dias, nomeou como novo Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé o arcebispo de La Plata, o argentino Víctor Manuel Fernández, conhecido como colaborador na redação dos escritos do Papa Francisco e autor de corajosos textos espirituais. Uma nomeação que despertou a revolta dos católicos tradicionalistas e de outros fiéis.

Mas o que mais indignou foram as palavras contidas na carta com a qual o Papa acompanhou a nomeação, que pedem ao novo Prefeito posições claras, uma ruptura com o passado: “O departamento que o senhor presidirá em outros tempos chegou a usar métodos imorais. Sem dúvida, espero do senhor algo muito diferente."

Aqui, o Papa Francisco parece recordar a confissão de pecados feita pelo Cardeal Ratzinger em nome da Congregação para a Doutrina da Fé, em 12 de março de 2000, no contexto do Jubileu. Sim, nós nos perguntamos no passado e ainda nos perguntamos que verdade seria aquela que deve ser defendida com a violência e com a perseguição. Eis, portanto, a advertência de Francisco ao Prefeito da fé, uma advertência peremptória: “Que nunca mais aconteça!”.

Só espero que essa abertura de liberdade e misericórdia do Papa não se oponha de parte da burocracia eclesiástica, difícil de mudar quando perde o poder, uma obsessão por vigilância e censura ao comportamento moral dos cristãos. Haveria liberdade na pesquisa teológica e não haveria espaço para uma visão estreita e puritana sobre a vida dos crentes. A liberdade dos filhos de Deus, que é o grande dom que nos foi deixado por Cristo na igreja, não devemos mendigá-la, mas exercê-la.

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